Em meio à crise, Peru relembra os 20 anos da tumultuosa renúncia de Fujimori

Luis Jaime CISNEROS
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O ex-presidente peruano Alberto Fujimori sauda os seguidores em Lima, 4 de janeiro de 2018
O ex-presidente peruano Alberto Fujimori sauda os seguidores em Lima, 4 de janeiro de 2018

Em meio a uma crise marcada pela posse de três presidentes em poucos dias, o Peru relembrará nesta quinta-feira o 20º aniversário do bizarro fim do governo de Alberto Fujimori, que enviou por fax do Japão sua renúncia.

A pior crise desde a queda de Fujimori levou às ruas nos últimos dias milhares de cidadãos indignados, em sua maioria jovens, para protestar contra a classe política que domina o Congresso, com o saldo de dois mortos e cem feridos.

Os últimos dias assemelham-se às tumultuosas semanas que antecederam a queda de Fujimori após uma década no poder, durante a qual conquistou a imagem de "autocrata" após seu auto-golpe em abril de 1992.

Engenheiro e matemático, filho de imigrantes japoneses, Fujimori chegou ao poder quase desconhecido em 1990, após vencer de forma surpreendente a eleição, superando o candidato favorito, o escritor Mario Vargas Llosa.

O governo de Fujimori recuperou a economia depois da hiperinflação herdada de Alan García e derrotou as guerrilhas Sendero Luminoso e MRTA, embora com denúncias de violação dos direitos humanos. Foi reeleito em 1995 e em 2000.

O gatilho para sua queda foi a transmissão em um canal a cabo, em 14 de setembro de 2000, de um vídeo mostrando seu chefe dos serviços de inteligência, Vladimiro Montesinos, subornando um parlamentar da oposição para que se unisse à situação.

Dois dias depois, Fujimori anunciou que convocaria uma nova eleição, na qual não concorreria, e dissolveu os serviços de inteligência.

Montesinos fugiu para o Panamá em 24 de setembro em busca de asilo, mas voltou ao Peru um mês depois. Então, Fujimori liderou pessoalmente a busca pelo fugitivo, mas seu ex-braço direito escapou por vários países do Caribe até instalar-se na Venezuela.

Montesinos foi encontrado escondido em uma fazenda em junho de 2001 (quando Fujimori já estava no Japão) e foi devolvido pelo presidente Hugo Chávez ao Peru, onde foi condenado a 25 anos de prisão.

- Entrevista à AFP em Tóquio -

Fujimori viajou para a cúpula econômica da APEC em Brunei em 13 de novembro de 2000, de onde fugiu para o Japão. No dia 19, ele enviou de um hotel em Tóquio a renúncia à presidência por fax.

“Voltei, então, a questionar-me sobre a comodidade para o país da minha presença e participação neste processo de transição. E cheguei à conclusão de que devo renunciar formalmente à Presidência da República”, escreveu no fax.

A renúncia não foi aceita pelo Congresso, que em vez disso aprovou sua destituição por "deficiência moral permanente" em 21 de novembro e o impediu de concorrer a um cargo público por 10 anos.

Fujimori foi substituído pelo então recém-empossado chefe do Legislativo, Valentín Paniagua, que comandou o país por oito meses como presidente interino, até entregar o cargo a Alejandro Toledo, vencedor das eleições de abril de 2001.

Um dia antes de enviar o fax mais famoso da história peruana, Fujimori deu a entender que entregaria o cargo em entrevista à AFP no hotel New Otani, em Tóquio, quando afirmou que não queria "ser um fator perturbador" no Peru.

- "Precariedade da democracia" -

Fujimori, hoje com 82 anos, foi o terceiro presidente destituído pelo Congresso desde a formação da República do Peru em 1821. Esses julgamentos políticos, porém, tornaram-se um costume no país.

Pedro Pablo Kuczynski saiu vitorioso de um desses julgamentos em dezembro de 2017, mas renunciou em março de 2018 às vésperas de outro em que, previsivelmente, não sobreviveria.

Kuczynski foi sucedido por Martín Vizcarra, que foi salvo em um primeiro julgamento em 18 de setembro, mas sucumbiu no segundo, há nove dias.

“As duas destituições (de Fujimori e Vizcarra) mostram uma semelhança: a precariedade que arrasta a democracia peruana. As dificuldades de governar sem controle do Congresso”, disse à AFP o analista político José Carlos Requena.

“No caso de Fujimori, seu fim começou quando perdeu a maioria parlamentar e começou a forjar uma maioria comprando assentos. Vizcarra não fez isso de comprar votos, mas tinha uma mensagem de confronto” com o Congresso, que selou seu destino, acrescenta.

Sucessor de Vizcarra, Manuel Merino também não se deu bem. Abandonado pelo Congresso, renunciou cinco dias depois de assumir o cargo em meio a protestos massivos nos quais foi rotulado de "usurpador".

Ele foi substituído na terça-feira por Francisco Sagasti, que tem uma missão semelhante à de Valentín Paniagua há duas décadas.

- De mal a pior -

Fujimori viveu no Japão por cinco anos e, em novembro de 2005, chegou ao Chile, de onde foi extraditado para o Peru em 22 de setembro de 2007.

Em 2009, foi condenado a 25 anos de prisão por corrupção e por dois massacres perpetrados em 1991 e 1992 por um esquadrão da morte acusado de lutar contra as guerrilhas.

Em dezembro de 2017, Fujimori recebeu um perdão humanitário de Kuczynski, mas voltou à prisão em outubro de 2018, quando a justiça anulou o benefício polêmico.

A memória dos bons anos do governo Fujimori fortaleceu a carreira política de sua filha Keiko, mas o 'Fujimorismo' encontra-se hoje em crise em função da descrença da população com a classe política.

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