Em meio a denúncias de falta de sedativos, profissionais do Albert Schweitzer são demitidos; prefeitura aguarda 'kits intubação'

Arthur Leal
·5 minuto de leitura

RIO — Poucos dias após a denúncia de que pacientes internados na UTI Covid do Hospital Municipal Albert Schweitzer estavam sendo intubados acordados por falta de sedativos, e que isso teria complicado o quadro e provocado a morte de vários deles, profissionais da unidade em Realengo agora enfrentam outro problema: nesta quarta-feira, os contratados pela organização social (OS) Cruz Vermelha do Brasil relatam que começaram a receber, via mensagem de celular, a notícia de que seriam dispensados. Todos entraram em aviso prévio. Nesta quinta-feira, O GLOBO mostrou o drama de quem precisa ser intubado e precisa lidar com a falta dos insumos.

— Eles mandaram uma mensagem pelo Whatsapp dispensando todo mundo da OS da Cruz Vermelha, sem saber nem quem vai ficar no lugar. É muito triste. Uma época em que está se precisando de profissionais de saúde e eles estão fazendo isso — lamentou um dos trabalhadores.

Eles contam ainda que, após a exposição sobre a falta de insumos do chamado kit intubação, representantes da Secretaria Municipal de Saúde estiveram no hospital nesta quinta-feira para atestar a situação. O grave cenário descrito pelos profissionais dá conta de pacientes graves intubados sem qualquer tipo de sedativo ou com misturas paliativas. Alguns deles, amarrados à cama.

— Duas pessoas da Secretaria Municipal de Saúde entraram no CTI, pediram para falar com a enfermeira, e junto com eles estava a diretora da OS. Aí, eles perguntaram o que estava acontecendo, porque teve denúncia de que não tem medicamentos para sedação, e elas falaram a verdade: "Os pacientes estão morrendo, é muito triste". O funcionário da secretaria de Saúde chorou, saiu em prantos — relatou outro trabalhador da unidade, que presenciou a cena.

Além dos sedativos, eles contam que vinham enfrentando problemas também com a falta de seringas para aplicar alguns medicamentos. O que, segundo os profissionais, foi solucionado nesta quinta-feira.

No RJ, 65% dos internados em UTI entre 21 de fevereiro e 11 de abril morreram

O diretor do Sindicato dos Médicos do Rio (Sindimed-RJ), Dr. Alexandre Telles, contou que tem recebido relatos, principalmente, vindos de três unidades sobre falta de insumos para intubação. No Ronaldo Gazolla, hospital de referência para tratamento da doença, onde ele trabalha, o médico afirma que o estoque é baixo, mas que, até o momento, não está zerado.

— Os médicos do CTI do Gazolla tem relatado que o estoque está baixo, mas que até o momento tem os medicamentos na unidade. As denuncias que temos recebido são em especial do Albert Schweitzer e do Pedro II. Pontualmente, no Evandro Freire também — contou.

O neurointensivista Rogério Silveira, presidente do Comitê de Terapia Intensiva Neurológica da Associação de Medicina Intensiva do Brasil (AMIB), disse em entrevista ao RJ2 da TV Globo, nesta quinta, que a mortalidade deve aumentar com as novas dificuldades que estão sendo enfrentadas no Rio.

— A mortalidade com certeza vai aumentar, é bem provável que a gente volte a patamares próximos ao do início da pandemia, onde a mortalidade era muito alta. A gente conseguiu diminuir muito a mortalidade com o aprendizado da doença, sobre como manejar as complicações... e agora, com essa nova realidade, onde há uma escassez real de recursos, de insumos e também de profissionais qualificados, isso tudo somado não tenho a menor dúvida que vai impactar na mortalidade — disse.

E os números mostram que essa letalidade já é alta. De acordo com dados extraídos da última atualização do Sivep-Gripe, do Ministério da Saúde, publicada no fim da noite desta quarta-feira (14), levando em consideração o registro de pacientes internados com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) entre os dias 21 de fevereiro e 11 de abril (8 semanas), 65% dos pacientes internados em UTI no período morreram. Ou seja, dos 3.543 que deram entrada em leitos de terapia intensiva neste período, 2.299 foram a óbito.

Prefeitura justifica que 'muitos internados consomem muitos medicamentos'

Sobre a demissão de funcionários da organização social Cruz Vermelha, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que o atual contrato de gestão do Hospital Municipal Albert Schweitzer se encerra em 29 abril e que, neste momento, a SMS está analisando se será renovado ou se haverá substituição da OS contratada. Em razão disso, explica em nota, a atual gestora, a Cruz Vermelha Brasileira, iniciou o processo de desligamento dos funcionários que, se houver renovação do contrato, será cancelado. O comunicado afirma ainda que, em caso de contratação de outra instituição, os profissionais poderão ser aproveitados pela nova gestora.

Sobre a ida ao hospital, a SMS afirmou que mantém uma Coordenação Geral de Emergência na AP 5.1 (Realengo e Bangu), com servidores públicos municipais que acompanham de perto a gestão do Hospital Municipal Albert Schweitzer e as dificuldades neste momento, "que são as mesmas encontradas em todo o Brasil, não só pela rede pública, mas também pela privada". De acordo com a prefeitura, "o país todo está com muitas pessoas internadas, o que consome muito material e medicamentos".

Município e Ministério da Saúde divergem sobre chegada de kits

Sobre a falta dos medicamentos que integram o kit intubação, a prefeitura afirmou que está recebendo nesta quinta-feira do Ministério da Saúde um novo lote destes insumos, mas, questionada, não revelou a quantidade.

O MS, por sua vez, disse que já distribuiu aos estados e municípios mais de 8 milhões de medicamentos para intubação de pacientes ao longo da pandemia e que aguarda para esta quinta-feira à noite a chegada de 2,3 milhões de medicamentos para intubação. Os insumos, diz o governo federal, foram doados por um grupo de empresas formado pela Petrobras, Vale, Engie, Itaú Unibanco, Klabin e Raízen. Os medicamentos saíram da China nesta quarta-feira. Assim que chegarem ao Brasil serão distribuídos imediatamente aos estados com estoques críticos dos insumos.

Acerca da situação no Rio, a SMS acrescentou que faz um remanejamento destes medicamentos e materiais entre as unidades de saúde, para que o problema seja minimizado. A pasta conclui seu posicionamento afirmando que, junto ao MS, trabalha para organizar o fluxo para que o abastecimento permaneça "de modo continuado", e que "faltas pontuais de insumos e medicamentos podem ocorrer, em razão da dificuldade de aquisição mundial, mas substituições são feitas para que não haja nenhum prejuízo à assistência prestada".