Em meio a rumores sobre teste nuclear, Kim Jong-un realiza encontro com lideranças militares

O líder norte-coreano, Kim Jong-un, presidiu, pela primeira vez em um ano, uma reunião de lideranças militares para discutir “tarefas estratégicas e táticas cruciais” para o país, no momento em que analistas veem como iminente um novo teste nuclear, e quando as atenções do mundo estão voltadas para a guerra na Ucrânia.

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De acordo com a agência estatal KCNA, o encontro do Comitê Militar Central, previsto para durar alguns dias, vai analisar “o projeto geral de defesa nacional no primeiro semestre de 2022”, além das “principais políticas de defesa”. Serão discutidas ainda as recentes mudanças no Ministério da Defesa Nacional e no comando das Forças Armadas, confirmadas em uma reunião do partido do governo no começo do mês.

A reunião é a primeira desde junho de 2021, e ocorre em meio a uma longa e intensa série de testes de novos mísseis — incluindo de mísseis balísticos intercontinentais, confirmando o fim de uma moratória sobre esse tipo de lançamento que estava em vigor desde 2017.

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O desenvolvimento desses armamentos está previsto em um plano quinquenal de defesa apresentado em janeiro de 2021, antes do presidente americano Joe Biden chegar ao cargo, e que também previa o lançamento de novos drones de reconhecimento e de um submarino nuclear, um veículo que ainda não foi concluído.

Além de discutir o andamento do plano quinquenal, Kim Jong-un deve colocar à mesa um possível novo teste nuclear, o primeiro desde 2017 — não há qualquer menção a isso na imprensa norte-coreana, mas analistas veem o teste como iminente.

— A Coreia do Norte está preparada para conduzir um teste nuclear a qualquer momento, caso Kim Jong-un decida assim — disse, na semana passada, um integrante do Ministério da Reunificação, citado pela Yonhap em condição de anonimato.

Relatório publicado pelo site Beyond Parallel, no dia 15, aponta para uma intensa atividade no centro de Punggye-ri, onde foram realizados os seis testes nucleares norte-coreanos anteriores. Imagens de satélite mostram obras em dois dos túneis usados nas detonações, os de número 3 e 4.

Em 2018, os túneis foram fechados em meio a um processo de reaproximação entre as Coreias e a negociações com os EUA, então liderados por Donald Trump, mas as conversas fracassaram no ano seguinte e, em 2020, Kim Jong-un sinalizou que a moratória autoimposta para novos testes nucleares, em vigor desde 2017, havia chegado ao fim.

Novo cenário

Caso os norte-coreanos decidam detonar mais um artefato nuclear, isso acontecerá em um contexto bem diferente dos testes anteriores. A começar pelo cenário interno: a Coreia do Norte ainda enfrenta os efeitos econômicos e sociais do fechamento do país no início da pandemia, em fevereiro de 2020. Problemas na implementação de políticas públicas, como sobre a produção de alimentos, foram criticados pelo próprio Kim Jong-un publicamente, e levaram a mudanças em órgãos estatais.

Eventos ambientais extremos, como enchentes em 2020 e 2021, prejudicaram a agricultura e, no começo do ano, surgiram os primeiros casos de Covid-19, ou “febre”, como a doença foi mencionada oficialmente: segundo o governo, foram registrados 4.672.450 casos, com 73 mortes, número questionado por autoridades sanitárias internacionais. Não há números sobre a vacinação, que começou apenas em maio.

Para analistas, grandes feitos militares, como os novos mísseis capazes de vencer sistemas de defesa, e um eventual teste nuclear, podem servir como uma eficaz ferramenta de propaganda para incentivar a população a seguir em frente, apesar dos (muitos) problemas.

No cenário externo, KIm Jong-un “se beneficia” da pouca atenção dada pela Casa Branca à questão coreana desde a chegada de Joe Biden: em abril de 2021, foi anunciada uma nova política dos EUA para Pyongyang, que usaria elementos das doutrinas adotadas por Trump e por Barack Obama, mas até agora não houve qualquer gesto mais explícito.

A chegada do conservador Yoon Seok-yeol ao poder em Seul significou um discurso mais duro em relação a Pyongyang, com a promessa de maior aproximação com os EUA, inclusive militarmente, e com novos investimentos no setor de Defesa.

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Na terça-feira, a Coreia do Sul lançou um foguete, o Nuri, que colocou satélites de observação em órbita. Para analistas, esse lançamento pode ser usado pelos norte-coreanos para justificar novos testes balísticos. Pesquisas apontam que o número de sul-coreanos que desejam ver seu país com uma arma nuclear cresceu nos últimos anos, mas ainda não há qualquer movimentação oficial neste sentido.

Há ainda o “fator Ucrânia”: hoje, as atenções da diplomacia global estão voltadas para a invasão russa, e o antagonismo de Moscou e Pequim a Washington pode ser benéfico para os norte-coreanos. Em março, russos e chineses vetaram uma resolução no Conselho de Segurança da ONU condenando lançamentos com mísseis balísticos, e não parecem dispostos a apoiar novas sanções.

— A China não fará muito se a Coreia do Norte realizar um teste nuclear agora, além de lamentar e pedir a todos os lados que fiquem calmos e não elevem as tensões — afirmou à agência Nikkei Asa Zhiquin Zhu, professor da Universidade Bucknell (EUA).

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