Em mesa sobre os 20 anos da Flip, Pauline Melville homenageia Salman Rushdie e fala 'Lula presidente' em português

Na mesa "Memória Flip 20 anos", na manhã deste sábado, que se propôs a falar sobre as duas décadas da Festa Literária Internacional de Paraty, o que fez sucesso mesmo entre o público foi a simpatia da escritora guianense Pauline Melville, que arriscou falar português e homenageou o colega Salman Rushdie, alvo de um atentado em palestra em Nova York, e as conversas políticas provocadas pelo escritor e jornalista Bernardo Carvalho.

Paraty: Flip celebra a volta dos bons tempos, buscando mais representatividade entre participantes e público

Annie Ernaux: 'Vencer o Nobel é como ganhar na loteria, nunca tive tanto dinheiro'

Calçando uma sandália laranja de borracha tipicamente brasileira, Pauline pediu a palavra antes mesmo de começar a conversa conduzida pela escritora Noemir Jaffe. Arriscou "boa a todos", "como vai" e "desculpa não falar português" em português, mas arrancou mesmo muitos aplausos da plateia quando disse que aprendeu a falar "Lula presidente". Ela também aproveitou a introdução para homenagear o escritor Salman Rushdie, que perdeu um olho e o movimento de uma das mãos num atentado que sofreu durante uma palestra nos arredores de Nova York, em agosto passado.

— O que aconteceu com ele é absolutamente horrendo. Quero desejar-lhe tudo de bom, para que continue a escrever e mostre a coragem dele aos brasileiros — disse a autora, que viera a Flip em 2010, ano em que Salman esteve pela segunda vez no evento, já que a primeira foi em 2005, mesmo ano da estreia de Bernardo Carvalho em Paraty.

'Buraco inimaginável'

Depois de expor suas ideias sobre o que é literatura ("Tem alguém escrevendo um livro em algum lugar que vai contradizer o que a gente está dizendo que a literatura é. Ela escapa, não está no lugar comum do reconhecimento", disse ele), o autor discorreu sobre governos Lula e Bolsonaro. Disse que, na primeira vitória do petista, em 2001, não sentiu a dimensão que sente hoje, com a vitória dele pela terceira vez.

— Talvez eu não tenha me dado a importância aquele primeiro governo Lula, por causa da minha classe. Hoje, com uma margem de manobra muito mais estreita e uma visão mais realista, é muito difícil dar certo (o próximo mandato). Mas, ainda assim, sinto um entusiasmo que não tinha no primeiro. Tanto faz se não der tão certo assim. A gente saiu de um buraco inimaginável. Foi o maior pesadelo que já vivi na vida. Acho estranho alguém no Brasil não ter sentido o inferno que foram esses quatro anos. Foi uma espécie de alucinação coletiva, e algumas pessoas continuam na inércia da alucinação — diz ele, muito ovacionado.

Garantindo o bom-humor da mesa, Pauline fez a plateia gargalhar quando disse "Não lembro de ter escrito isso", ao ouvir um trecho de um livro seu traduzi por Noemi Jaffe. O conto em questão, não publicado no Brasil, falava de escritores russos e a mediadora disse ter ficado curiosa com a intimidade que ela mostrava ao descrever o ambiente. Nesse momento, Pauline disse que não se prende a vivências:

—Uma tendência hoje são os escritores escreverem apenas de onde vieram e sobre o que experimentaram. As pessoas falam que você não pode escrever sobre pessoas negras se for branco, sobre mulher, se for homem. Kafka escreveu sobre insetos e ninguém o acusou de apropriação. Eu resolvi escrever histórias sobre países que nunca visitei.