Em morro sem mortos e com casas soterradas, população reclama de falta de assistência

THIAGO AMÂNCIO, ALFREDO HENRIQUE E EDUARDO ANIZELLI
GUARUJÁ, SP, 03.03.2020 - Moradores ajudam bombeiros nas buscas por sobreviventes no Morro da Barreira, no Guarujá, na tarde de terça (3). (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

GUARUJÁ, SP (FOLHAPRESS) - Uma das primeiras fotografias dos deslizamentos que assolaram a Baixada Santista na madrugada de terça-feira (3) mostra uma extensa faixa de lama engolindo casas na Vila Baiana, morro em Guarujá (SP).

Diferentemente de outros morros na cidade, neste não houve vítimas. "Graças a Deus", diz Laércio Muniz, 23, "e graças à gente que acordou e saiu de casa em casa pedindo que as pessoas saíssem".

Por não ter corpos soterrados, o cenário era completamente diferente do de outros morros, como a Barreira João Guarda e o Morro do Macaco Molhado, onde chega tanta ajuda que os voluntários precisam se revezar para não atrapalhar. Na Vila Baiana, sem bombeiros, dezenas de moradores sujos de lama até o pescoço tiravam, no braço e na enxada, o barro do bairro.

O cenário é de destruição. Os caminhos convencionais foram bloqueados com telhados e postes do alto do morro que foram parar lá embaixo. Novas rotas foram improvisadas, com degraus e muita confiança no pouco de terra firme que há. Enxadas, carrinho de mão, cerveja e música embalam os moradores que trabalham há mais de 40 horas.

O ajudante William da Silva, 29, mora numa das partes mais altas e onde as casas vizinhas viraram lama. Na madrugada da chuva, saiu com o filho de seis meses no braço procurando abrigo. "Para cá eu não volto, estou dormindo na casa da minha mãe. A não ser que a Defesa Civil diga que está tudo bem", diz ele. "Qualquer chuva que tiver, pode acontecer de novo. E dessa vez pode ter morte sim."

William está com eletrodomésticos novos em casa, como geladeira e televisão, mas não sabe como vai descer com eles, agora que os caminhos foram fechados. Ele aponta a casa mais alta do morro, que agora está ilhada pela lama. "Ali mora meu irmão. Ele acordou de manhã e perguntou: 'Cadê meu chão?'". A casa está rodeada de galinhas, resquício de um galinheiro que existia ali dias antes.

O frentista André Dias, 41, também não pretende voltar por enquanto. "Quando meu filho me acordou, não acreditei. Saímos de casa e vimos a terra lá em cima. Foi o tempo de chegar lá embaixo e a lama destruiu tudo. E não veio ninguém ajuda, só a gente mesmo", diz.

Grávida de 37 semanas, Viviane Brito, 31, olhava a destruição no fim da tarde. "Não consigo dormir mais, morro de medo", diz ela. "Aqui ninguém ofereceu um copo d'água, não chegou ajuda nenhuma. Vocês são os primeiros a subir aqui."

A Vila Baiana não é a única. Do cemitério da Saudade, onde muitos corpos foram enterrados nesta terça, a cozinheira Benedita Nascimento, 43, apontava o local em que vive, o Morro da Vila Júlia, onde uma casa foi destruída pela terra. "Se chover de novo e cair, vai atingir muita gente ainda", diz.