Em mundo de 8 bi, países dão dinheiro contra falta de bebês

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em 2012, um único bebê nasceu na pequena Lestijärvi, a segunda menor cidade da Finlândia, com pouco mais de 700 habitantes. Na localidade rural acostumada ao êxodo de moradores em busca de trabalho em cidades maiores, a natalidade praticamente inexistente soou o alarme da prefeitura.

A partir daquele momento, a administração passou a pagar € 10 mil (R$ 56,2 mil, na cotação atual) para as mulheres terem filhos, depositando na conta das famílias € 1.000 por ano. Sessenta casais aderiram ao programa, e, hoje, uma década mais tarde, as crianças frutos desse benefício estão em idade escolar.

Mesmo em um mundo que alcançou a marca de 8 bilhões de habitantes, bebês em número insuficiente para manter o número de pessoas estável são uma realidade que vai além da Finlândia -Suécia, Noruega, Estônia, Itália e França, por exemplo, também estão distantes de atingirem a linha estabelecida pela ONU para garantir o crescimento da população, de 2,1 filhos por mulher.

À moda da pequena cidade finlandesa, países ricos vêm abrindo os cofres para lidar com a perda da população.

Nações na Europa e na Ásia adotaram nos últimos anos modelos de incentivo financeiro, nos quais pagam quantia mensal às famílias para que tenham filhos e fiquem no país.

Os resultados dessa política pró-fecundidade -que varia no tamanho da verba ofertada e na duração do benefício em cada nação- são mistos. Embora seja até capaz de frear o declínio da população temporariamente, seu limite fica evidente com o decorrer do tempo, dizem pesquisadores.

"Tais benefícios nunca compensam os pais por todos os custos associados aos filhos. Geralmente levam a um 'baby boom' temporário e de curta duração, já que algumas pessoas decidem ter filhos que de toda forma já eram planejados um pouco mais cedo", afirma Tomas Sobotka, pesquisador do Instituto de Demografia de Viena, na Áustria.

Um exemplo de sucesso é a Estônia, onde o número de nascimentos cresceu depois que o governo aumentou o benefício financeiro de acordo com o número de filhos -quanto maior a família, mais dinheiro ela recebe. A verba, porém, veio associada a generosas licenças-maternidade e paternidade, que somam cerca de 19 meses a serem usufruídos pelos pais até o terceiro ano de vida da criança.

Por outro lado, sem conseguir aumentar sua população mesmo com estímulo financeiro às famílias, a Coreia do Sul triplicou neste ano o benefício -o valor agora é de US$ 724 (R$ 3.900) por mês, pagos no primeiro ano do bebê. O país asiático é dono da menor taxa de fecundidade do mundo, de 0,87 filho por mulher.

Moldova, Ucrânia, Bulgária e o território de Porto Rico, nos EUA, não só têm poucos nascimentos como enfrentam a fuga de milhares ou milhões de habitantes para nações mais ricas -por motivos que vão além de um conflito militar, por exemplo.

"Normalmente, as pessoas saem na casa dos 20 anos, em um momento em que provavelmente começarão novas famílias e estarão totalmente empregadas", diz Sobotka. O saldo é um declínio ainda maior nos nascimentos.

Um caso notável neste ano é o da Rússia. Centenas de milhares de homens deixaram o país desde fevereiro, tanto para lutar na Guerra da Ucrânia como para evitar serem convocados pelo Exército, gerando uma situação que prejudica o planejamento de casais que pretendiam ter filhos. Em entrevista recente à revista Fortune, um demógrafo do Instituto Gaidar, de Moscou, disse que se o conflito continuar pelos próximos meses o país terá 1,2 milhão de nascimentos a menos em 2022.

Conhecido pelas baixas taxas de fecundidade e pela longevidade de sua população, o Japão tem um fator inesperado que, em menor escala, contribui para o déficit populacional -os suicídios. No ano passado, cerca de 20 mil pessoas tiraram a própria vida, segundo o Ministério da Saúde. Para efeito de comparação, no Brasil, com 90 milhões de habitantes a mais que o país asiático, houve cerca de 14 mil mortes por suicídio em 2021.

"Antigamente, o suicídio no Japão era visto como um ato de tentar restaurar a honra e a única saída para pessoas encurraladas. Hoje, ocorre principalmente com jovens solteiros, e não é incomum estudantes que falharam no vestibular se matarem", afirma Beatriz Miyakoshi, autora de uma tese de mestrado sobre o declínio populacional no país.

Miyakoshi aponta ainda que saúde mental é um tabu na Ásia. "Não é comum alguém ir ou admitir que vai a um psicólogo ou psiquiatra."