Em nome de propósito, mulheres ricas e bem-sucedidas decidem se candidatar

MARCELLA FRANCO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A perspectiva de trocar a pressão e o salário de um escritório bem-sucedido pela rotina de um plenário, com momentos pouco gloriosos envolvendo a troca de nome de ruas ou a criação de feriados, pode parecer insólita demais à maioria. Mas, para algumas mulheres, o plano é não só real, como também a concretização de um sonho. Com patrimônios de muitos dígitos, e carreiras sólidas no mundo corporativo e jurídico, candidatas aos cargos de vereador e prefeito em 2020 alegam razões como propósito e a vontade de ajudar os outros para justificar abrir mão da atuação na esfera privada e se lançar à vida na política. "Morei fora por muito tempo. Prometi a mim mesma que voltaria e usaria tudo o que aprendi em termos socioeconômicos e de desenvolvimento aqui no Brasil", diz a farmacêutica e executiva Amanda Neves, 42, que concorre pela primeira vez a vereadora pelo Cidadania em Campinas, no interior paulista. "Eu poderia muito bem me manter no setor privado, mas acho que a forma mais rápida de contribuir com o progresso é se várias pessoas tentarem fazer isso na vida pública", diz. Em 2015, Amanda se inscreveu no RenovaBR, escola de formação política, que teve alunos como a deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP). "A reação foi de surpresa total. Minha vizinha de porta falou que não sabia que eu praticava política, que era politizada", relembra a engenheira, advogada e headhunter Patricia Thais Duchnicky, 43, que tenta uma vaga de vereadora em São Caetano do Sul pelo PSDB. "Colocar um adesivo meu no carro de um amigo é um desafio, porque nem todos veem a política com bons olhos", conta Patricia, que mora sozinha em um apartamento de 80 metros quadrados em um bairro de classe média alta. "Me considero privilegiada." "O salário de vereador em São Caetano é de R$ 10 mil, e obviamente eu tinha remuneração maior", diz. Ela acredita que às vezes seu padrão de vida pode atrapalhar. "É possível que uma camada da população me olhe e fale que tenho cara de rica e que não entendo nada", diz Cris Monteiro, 59, candidata a vereadora em São Paulo pelo Novo. "Quem investigar mais minha vida vai ver que sou rica, mas sou honesta, trabalhadora, e conquistei a duras penas o lugar que estou." Filha de uma empregada doméstica e de um sargento que virou taxista, Cris cresceu na periferia do Rio de Janeiro. Formada em ciências contábeis, foi para São Paulo na década de 1980, onde fez carreira como diretora de bancos como o JP Morgan. Declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 17,8 milhões. "Eu já podia estar feliz com o que tinha. Ainda podia estar no mercado financeiro, ninguém me mandou embora." Em 2018, o RenovaBR teve 133 alunos, dos quais 11% eram mulheres. Já as turmas de 2019 e 2020 somam 1.820 alunos, com 35% de mulheres. Ao todo, 1.032 alunos concorrem nestas eleições municipais, com presença 30% feminina. "Isso reflete o crescimento de mulheres que rompem barreiras sociais, familiares e de gênero para ocupar cargos eletivos", analisa Irina Bullara, diretora da entidade. Empresária do ramo do café em Franca, no interior paulista, Flávia Lancha, 61, cresceu no meio da política, mas sempre sonhou em ser médica. A filha do ex-prefeito da cidade José Lancha Filho (PTB) se formou em ciências, letras e administração rural. Concorreu em 2016 à prefeitura, terminando o pleito com 28 mil votos. Seu desempenho nas urnas a levou a se tornar secretária municipal. Agora, tenta pela segunda vez um cargo eletivo, pelo PSD. "Acho que vai ser uma rotina muito mais pesada que a de empresária. Quando você está na vida pública, é cobrado por uma população inteira", compara Flávia. "Além disso, você perde muito a privacidade. A gente tem que ter um propósito muito grande." Especialista em direito tributário, mestre pela Universidade de Baltimore e com MBA em gestão, Cristina Rando, 45, trabalhou na MSC USA por anos até fundar sua própria empresa. Ela também imagina um dia a dia mais intenso caso seja eleita vereadora do Rio de Janeiro pelo Novo. "Acredito que na política vou ter um trabalho bem árduo e que vá entrar também nos sábados e domingos", imagina. Concorrendo a vereadora em São Paulo pelo PTB, a advogada pós-graduada em direito médico e hospitalar Gabrielle Brandão, 40, conta que recebeu o convite para sua candidatura em plena pandemia do novo coronavírus. "Como já sou muito ativa em rede social, direcionei meus perfis para a campanha. Comecei a ser procurada pelas pessoas. Amigos da faculdade, do hospital, todos vinham falar que iam votar em mim", diz. Por conta disso, Gabrielle diz acreditar na vitória. "Não vou ficar frustrada se não acontecer, porque isso é mais uma realização pessoal muito mais ligada a poder ajudar do que de fato ter isso como uma melhora na minha qualidade de vida. Mas vou tentar de novo. Antes eu dizia que não. Mas agora estou começando a gostar disso", diz.