Em nova estratégia contra coronavírus, Suécia reduz limite de pessoas em eventos públicos de 300 para 8

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BAURU, SP (FOLHAPRESS) - Os casos de coronavírus na Suécia dispararam nas últimas semanas, e o país anunciou nesta segunda (16) uma redução drástica no número de pessoas permitidas em eventos públicos --de 300 para 8. As novas regras, que começam a valer no próximo dia 24, representam também uma mudança na abordagem pouco ortodoxa que deixou a Suécia na contramão do resto do mundo. Desde o início da pandemia, o governo evitava medidas mais restritivas, como bloqueios e obrigatoriedade do uso de máscaras. A resposta à Covid-19 era pautada mais por medidas voluntárias e recomendações à população. Nesta segunda, o discurso do premiê Stefan Lofven, acompanhado pelas falas de outros altos membros do governo, deu amostras do novo tom diante dos números de infecções que não param de crescer. "Esta é a nova norma para toda a sociedade, para toda a Suécia. Não vá a academias, não vá a bibliotecas, não organize jantares, não faça festas. Cancele", disse Lofven. O limite de pessoas em reuniões havia sido reduzido para 50 em março, mas, em outubro, o governo abriu exceções para eventos com pessoas sentadas, nos quais seriam permitidos até 300 indivíduos. As novas restrições se aplicam a shows, apresentações artísticas e partidas esportivas, mas não a lugares como escolas, locais de trabalho e reuniões privadas. A restrição tem peso de lei e deve viger por ao menos quatro semanas, podendo ser prorrogada até as festas de Natal e Ano Novo. Quem descumpri-la pode enfrentar multas e penas de prisão de até seis meses. O premiê disse que o governo não tem como regulamentar todas as reuniões sociais, mas pediu que as pessoas sigam o novo limite mesmo em situações que não sejam formalmente afetadas pela lei. "Vai piorar. Cumpra o seu dever e assuma a responsabilidade de impedir a propagação da infecção. Vou dizer de novo. Vai piorar. Cumpra o seu dever e assuma a responsabilidade de impedir a propagação da infecção", afirmou Lofven. Até esta segunda, o país com 10,2 milhões de habitantes registrou 177.355 casos e 6.164 mortes. Os números colocam a Suécia com taxas per capita de infecção e de óbitos por Covid-19 muito maiores que as de outros países escandinavos, como Noruega e Dinamarca. A média semanal de novos casos confirmados era de 753 registros há um mês --cifra que, hoje, chegou a 4.053 (aumento de mais de 438% em 30 dias), segundo os dados da Agência de Saúde Pública da Suécia. "Essas são medidas muito intrusivas, sem paralelo nos tempos modernos", disse o ministro do Interior, Mikael Damberg. "Não consideramos limitar levianamente os direitos das pessoas, mas vemos [a restrição de público] como necessária." Per Bolund, ministro da Habitação e do Mercado Financeiro, admitiu que as novas restrições terão um impacto negativo na economia, mas disse que sua gestão está pronta para introduzir medidas para apoiar os setores mais atingidos. "Quanto tempo temos para viver com essas medidas depende de quão bem você assume sua própria responsabilidade e mostra solidariedade com os outros", disse Bolund, recorrendo à responsabilidade individual dos suecos. A ministra da Saúde, Lena Hallengren, pediu que as pessoas não procurem brechas nas regras e façam tudo o que estiver ao alcance para conter a propagação do vírus. "Nas últimas semanas, as recomendações foram aprimoradas, e medidas fortes, tomadas. Apesar disso, o comportamento ainda não mudou o suficiente. As curvas estão indo na direção errada", disse Hallengren. O país se destacou no noticiário desde o começo da pandemia por não ter imposto um confinamento geral, embora recomendasse distanciamento físico, uso de máscaras e higiene das mãos. Entre os argumentos da Suécia para evitar as restrições mais severas até este momento estavam a legislação do país (que impede esse tipo de medida), a baixa densidade populacional (que reduz o número de encontros entre as pessoas), o fato de que metade dos suecos mora sozinha (evitando a transmissão doméstica) e o alto grau de adesão da população às recomendações do governo. Em maio, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, citou a Suécia como modelo a ser seguido, embora os números contrariassem seus argumentos. Mesmo assim, o país se tornou referência para grupos políticos que se posicionam contra medidas restritivas de combate à pandemia. Anders Tegnell, epidemiologista-chefe e face pública da controversa resposta sueca à Covid-19, é um defensor de medidas baseadas na responsabilidade individual da população --uma combinação de um alto nível de obediência às regras e confiança nas autoridades. Tegnell também apostava na "imunidade de rebanho", um conceito segundo o qual uma população ficaria naturalmente imune a um determinado vírus depois que uma grande porcentagem de pessoas fossem expostas à infecção. Na Suécia, a expectativa era de que os casos confirmados durante os meses referentes à primavera e ao verão do Hemisfério Norte deixassem a população mais próxima da imunidade já nos meses de outono e inverno (de setembro a março). A hipótese, entretanto, não se confirmou. "Esperava que ele estivesse certo. Teria sido ótimo. Mas não estava. Agora temos uma alta taxa de letalidade e não escapamos de uma segunda onda. A imunidade talvez faça uma pequena diferença, mas não muita", disse Annika Linde, epidemiologista que ocupou o cargo que hoje é de Tegnell de 2005 a 2013. Em entrevista ao jornal britânico The Telegraph publicada neste domingo (15), Linde disse que a resposta da Suécia à pandemia foi contaminada pelo excesso de pensamento positivo. "O pensamento positivo --quando você não acredita no pior cenário-- tem orientado demais as decisões suecas", disse ela. "As autoridades suecas têm sido lentas o tempo todo. Em vez de serem proativas, elas correram atrás do vírus, e o vírus foi capaz de se espalhar muito antes de agirem".