Em nova série do diretor de 'Drive', mulher percorre submundo do crime para combater homens opressores em Copenhague

Três anos depois de lançar “Muito velho para morrer jovem” (2019), série sobre um detetive dublê de assassino de aluguel de Los Angeles, Nicolas Winding Refn está de volta ao formato episódico com “Copenhagen cowboy”, cuja primeira temporada está disponível desde quinta-feira na Netflix. É mais uma história de violência e redenção da lavra do diretor dinamarquês de 52 anos, esteta que costuma traduzir os impulsos de amor e morte de seus personagens em imagens de inspiração em noir iluminado por neons. Uma diferença significativa aqui é a paisagem, a Copenhague natal, ausente de sua filmografia desde “Pusher III”, terceiro título de uma trilogia cravada no subterrâneo das drogas da capital dinamarquesa. A outra é a natureza do protagonista, que também transita pelo submundo do crime: Mia, uma mulher de passado misterioso, dotada do que podemos chamar de poderes sobrenaturais.

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Distópicos e fantásticos

O diretor afirma que a personagem é uma versão feminina dos protagonistas do universo cheio de testosterona que construiu, à frente de filmes como “O guerreiro silencioso” (2009) e “Só deus perdoa” (2013). A figura de Mia foi desenvolvida durante os primeiros momentos da pandemia, que segurou Refn, a mulher e os quatro filhos em Copenhague, impossibilitando-o de viajar e trabalhar em outros países. Ela também é uma resposta ao tipo de história que é consumida largamente no audiovisual nos dias de hoje, abarrotado de tipos sobre-humanos, realidades distópicas e cenários fantásticos.

— Assim como todo mundo, estávamos presos em casa. Mas eu queria continuar criando. E, como estava em família, fiquei pensando a que tipo de história poderíamos assistir com os meus filhos, especialmente Lola, minha filha mais velha, de 26 anos, e que também tem um papel na série. A geração dela também precisa de heróis, mas que sejam um reflexo do mundo em que eles vivem e de suas aspirações. Acho que “Copenhagen cowboy” é minha contribuição nessa criação — contou o diretor durante o Festival de Veneza, onde a série ganhou première mundial.

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Composta por seis capítulos de uma hora, a primeira temporada de “Copenhagen cowboy” acompanha o mergulho de Miu, interpretada por Angela Bundalovic, num mundo habitado por criminosos cruéis, impiedosos. Ela transita por bordéis gerenciados por sérvios, um restaurante chinês assombrado por mafiosos e uma mansão ocupada por tipos perturbadores e sedentos de sangue. A Copenhague da série não é a das paisagens urbanas dos primeiros longas-metragens do diretor, e está longe dos cenários de cartão-postal da capital dinamarquesa: Miu navega por subúrbios obscuros, periferias rurais em que atividades criminosas podem ou não refletir o mundo real.

— A palavra Copenhague cria expectativas na cabeça das pessoas. Ela pode sugerir imagem de gansos maravilhosos ou pornografia, depende do gosto de cada um (risos). Aqui ela é uma interpretação do que a cidade é, ou do que seja a sua essência. É por isso que a série trabalha com um ambiente multilínguas, onde não há barreiras de legendas ou interpretações. As personagens entendem os dialetos e línguas dos outros, sejam elas chinesas, sejam japonesas, sérvias ou dinamarquesas — explicou Refn, que também se apropria do conceito de “caubói”. — Cresci nos Estados Unidos. Ele é a versão americana do viking, do samurai, do gladiador. Toda cultura tem sua versão do herói que se sacrifica para salvar a inocência. Pela primeira vez senti que poderia cruzar essa barreira.

‘Filhinho da mamãe’

Miu é uma mulher sem passado, cuja história e cujas ambições são reveladas aos poucos. De início, ela é comprada como um amuleto da sorte por Rosella, a supersticiosa e cruel cafetina de um bordel, na verdade um depósito de jovens imigrantes alugadas como escravas sexuais, mantido por seu filho. Uma das garotas cativas é Rakel (Lola Corfixen, filha do diretor, em sua estreia como atriz), que se rebela, foge e se associa a Miu. Há também Mãe Hulda (Li li Zhang), dona de um restaurante chinês local, que a acolhe em momento de perigo, e a auxilia em seus planos. Todas elas colaboram para que Miu realize a missão de combater homens opressores e inescrupulosos.

— A bem da verdade, acho que acabei fazendo meu primeiro filme de super-heróis, porque Miu descobre que não está sozinha em sua busca por justiça. Ela encontra outras mulheres fortes como ela em seu caminho — observou Refn, que voltará aos heróis masculinos em “Maniac cop”, ainda em desenvolvimento. — Casei com minha primeira namorada, tenho duas filhas, e sempre me considerei um filhinho da mamãe. Embora a maioria de meus filmes seja protagonizada por homens, minha vida sempre foi comandada por mulheres.