Em 'O túnel', autor A. B. Yehoshua faz retrato crítico de Israel sem perder o humor

Avraham Gabriel (Bulli) Yehoshua (1936-2022), morto na terça-feira (14), era um dos mais importantes escritores de Israel e, mais que isso, um ativista político incansável, ciente de que a convivência pacífica entre palestinos e israelenses é possível. Como se sabe, há muitas controvérsias a respeito disso, mas aí é discussão para outras páginas. Certo é que, por coincidência, acaba de sair por aqui seu último romance, “O túnel”, lançado em 2020. Para o leitor que não conhece A. B. Yehoshua, a obra é uma ótima referência — para quem já o conhecia, dá para reiterar que ele foi craque até o fim, após ter recebido uma penca de prêmios graúdos ao longo de quase 60 anos de carreira. Mereceu.

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A primeira impressão positiva de “O túnel” é a rapidez com que o escritor conduz o leitor para o centro da narrativa. Com diálogos ágeis, sem qualquer lenga desnecessária, em três ou quatro páginas vemos que o protagonista, Tziv Luria, é um engenheiro recém-aposentado, de 72 anos, que começa a ter problemas de memória. Nada indica que ele vai melhorar. Os exames mostram uma lesão no cérebro e não há muito a ser feito.

É curioso que Yehoshua condene seu personagem a lapsos gradativos, considerando que a memória é uma referência central da identidade judaica. Seria o fim da memória uma espécie de libertação da história recente de Israel?

"O esquecimento libera a nós, judeus, da tirania da memória", disse ele em recente entrevista ao jornal espanhol El País.

Tudo a ver, porque Yehoshua andava se lamentando que Israel tornou-se um país cada vez mais política, econômica e socialmente dividido, metendo-se num labirinto (ou túnel?) complicado. Mas, no livro, ele não está preocupado exatamente em fazer um manifesto político, e sim literatura. A pregação ostensiva passa longe, para o bem da narrativa.

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O novo cotidiano

Certo é que Luria não desiste nunca. Ao lado da mulher, a veterana pediatra Dina, ele toca seus dias sem dramas, entre situações engraçadas e diálogos curiosos sobre o seu novo cotidiano.

Para não ficar parado, o aposentado aceita um emprego não remunerado, tornando-se engenheiro assistente na construção de uma estrada, e talvez um túnel (não metafórico), para o Exército israelense. Projeto secreto, a obra exige a experiência de Luria, que se vê então numa comunidade de palestinos desgarrados vivendo no deserto, justamente no caminho da rodovia. É mais um momento para repensar uma questão cara ao cidadão Yehoshua, que nunca se incomodou em incomodar a direita mais radical do país defendendo a proximidade com os palestinos e refutando assentamentos.

No meio da trama, Dina cai doente e deixa o protagonista (ainda mais) baratinado. A relação dos dois personagens é claramente uma referência direta à própria relação do escritor com sua mulher, Rivka, psicanalista com quem foi casado durante 56 anos e que morreu em 2016. Foi na mesma época em que ele escrevia o romance, que lhe serviu também, de alguma maneira, para refletir sobre o fim inevitável, aquele túnel de mão única do qual ninguém nunca voltou.

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Ainda assim, o livro não perde a leveza. Por mais que alguns episódios da vida sejam tristes, nada abala o humor do velho engenheiro. As escrituras mostram que a vida não é só moleza, afinal, então não vamos dramatizar. Não sendo exatamente um piadista irrequieto como os alteregos de Woody Allen, Tziv produz tiradas bem sacadas, às vezes cruéis, que provocam riso espontâneo do leitor. É um talento encontrado em Yehoshua cada vez mais raro entre escritores contemporâneos, notadamente empenhados em chafurdar na melancolia nossa de cada dia.

“O túnel” é também um livro para ser degustado sem pressa, com o leitor consultando, eventualmente, o Google Maps e, vá lá, a Wikipedia. Assim como outros grandes escritores israelenses — o saudosíssimo Amós Oz (1939-2018), por exemplo — Yehoshua tinha profundo conhecimento sobre a longa história de Israel, e é inevitável comentar sobre personagens e lugares do país. Para que a leitura não fique apenas na superfície — o que, de resto, também não faz mal algum — vale contar com a ajuda da tecnologia.

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