Em ofício, direção do Hospital Cardoso Fontes relata falta de remédios e pede solução para Ministério da Saúde

Lucas Altino
Entrada do hospital Cardoso Fontes

RIO — Além de relatos de falta de remédio na rede municipal, a existência do mesmo problema foi confirmada na rede federal por um ofício enviado pela direção do Hospital federal Cardoso Fontes ao Núcleo de Gestão dos Hospitais Federais do Rio no último dia 22 de abril. Na carta, além dos problemas sobre a ausência de EPI e da alta quantidade de profissionais infectados, a direção da unidade também especifica os remédios que estão em falta. Segundo uma profissional do hospital, que pediu para não ser identificada, o problema persiste até hoje.

No item 24 do ofício, está escrito que medicamentos para intubação tiveram "suas projeções de consumos aumentados significativamente, caso do cisatracúrio (3.300%) e a azitromicina (1.400%)". Depois, há informações sobre a escassez de diversos remédios na unidade. Já inclusive estavam zerados os estoques de "cisatracúrio 2mg/ml, atracúrio 10mg/ml, suxametônio 100mg; fentanil 0,05mg/ml c/10ml ", todos usados no tratamento de coronavírus.

No item 26, o ofício lista medicamentos que estão abaixo da quantidade ideal, como os sedativos rocurônio, midazolam, cetamina e dexmedetomedina e o antiviral tamiflu, que ficou conhecido no combate ao H1n1 e está sendo usado para Covid-19.

— Acontece que vários desses sedativos só costumavam ser usados pelos anestesistas em centro cirúrgico. Agora está todo mundo usando, a demanda explodiu, e os fabricantes não têm quantidade suficiente para vender. Gastou-se numa quantidade que não consegue mais repôr — explicou uma funcionária do Cardoso Fontes, que diz que sedativos alternativos têm sido utilizados. — Temos procurado soluções e alternativas, que, por enquanto, são suficientes.

No Hospital Geral de Bonsucesso, também federal, o diretor médico Julio Noronha afirmou que os sedativos ainda não estão em falta, mas confirmou que a baixa quantidade preocupa.

— Há uma preocupação com possibilidade de acabar o midazolam e pancurônio, que são essenciais para manter pacientes intubados.

Na rede estadual, há denúncia especialmente sobre a falta de noradrelina, usado para pressão. Um médico, que pediu para não se identificar, disse que pacientes do Hospital Carlos Chagas que vieram a óbito não receberam esse remédio, o que pode ter sido determinante.

— A noradrenalina é usada para manter a pressão e o coração batendo em paciente grave. É um remédio sem substituto. A pessoa hipertensa pode entrar em choque e falecer — disse o médico, que também relatou a ausência de outros remédios básicos para tratamento de doenças diversas sem ser o coronavírus. — Faltam remédios para gastrite, asma, pressão e enjoo. São muito importantes para o tratamento de diversas doenças, mas parece que o poder público não está dando a devida atenção a isso, já que está tudo concentrado no combate ao coronavírus.

A compra de medicamentos é feita pelas próprias secretarias municipais e estaduais após repasses do Ministério da Saúde e uso da verba dos fundos municipal e estadual. À União, cabe a compra de insumos estratégicos, como vacina e testes, ou de remédios de alta complexidade, como para câncer, em programas especiais.

O médico Carlos Vasconcellos, diretor do Sinmed RJ e do coletivo Nenhum Serviço de Saúde a Menos, diz que a falta pontual de alguns medicamentos é um problema crônico no Rio, mas o que preocupa agora são os remédios essenciais para uso em UTI.

— Há queixas sérias sobre a dalta desses remédios, principalmente na rede pública. São todos importantes para pacientes de Covid-19. Além do aumento de consumo, deve ter havido problemas na distribuição. Isso preocupa muito.

Procurada, a Secretaria estadial de Saíde negou a informação sobre falta de noradrenalina no Hospital Carlos Chagas e disse que na unidade há, no momento, "571 ampolas do medicamento e outras 1.890 sobressalentes em estoque".

Já a prefeitura afirmou que é "absurda e mentirosa" a denúncia em relação ao Hospital Ronaldo Gazzolla, e que não houve "falta de quaisquer medicamentos para os pacientes. Muito menos o citado Midazolam". A Secretaria municipal de Saúde disse ainda que os insumos têm sido repostos regularmente e que não houve "óbitos em decorrência de qualquer falta de insumo, muito menos transferência de remédios e equipamentos para quaisquer locais". Segundo a pasta, o Ronaldo Gazzolla foi usado como "guarda provisória" de material comprado para o Hospital de Campanha, e que então esse material foi transferido após a inauguração da unidade. A secretaria também respondeu que as unidades de saúde estão abastecidas dos outros medicamentos listados, e que há reposição rápida em caso de falta.

Procurado, o Ministério da Saúde não se manifestou.