Em Paraisópolis, aposentadoria é sonho distante durante a pandemia de Covid-19

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Mariana Ferrari e João Conrado Kneipp

No extremo-sul de São Paulo, está a favela de Paraisópolis. Localizada ao lado do Morumbi, um dos bairros mais ricos do estado, a periferia paulistana — assim como várias outras espalhadas pelas cidades brasileiras — não pôde colocar os seus idosos em casa e mantê-los a salvo durante a pandemia da Covid-19

Falou mais alto o ronco de fome do estômago e eles foram às ruas. Passaram a caminhar diariamente por becos e vielas já que a aposentadoria era inexistente ou insuficiente para a família: são 100 mil moradores em toda a comunidade, nos quais entre 20 e 25 mil são idosos com idade igual ou maior que 60 anos, segundo dados da associação de moradores.

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A comunidade de Paraisópolis tem cerca de 100 mil habitantes, dos quais entre 20 e 25 mil são idosos - ou seja, têm mais de 60 anos - e precisam se expor mesmo com idade para aposentar. (Imagem: Gloria Maria)
A comunidade de Paraisópolis tem cerca de 100 mil habitantes, dos quais entre 20 e 25 mil são idosos - ou seja, têm mais de 60 anos - e precisam se expor mesmo com idade para aposentar. (Imagem: Gloria Maria)

“Estou trabalhando na pandemia porque eu não consigo mais arrumar emprego”, diz Édson Ribeiro dos Santos. Aos 63 anos, ele vende doces e salgados variados pela favela em um carrinho de obras improvisado. 

“O único jeito para conseguir sobreviver foi vir trabalhar, ganho uma mixaria, mas vou fazer o que?”. 

Não era para Santos estar na rua. Por três vezes ele foi periciado pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) para que pudesse se aposentar — já que sofre com graves sequelas de um infarto — e até agora o governo federal não aprovou o auxílio. 

Enquanto isso, Santos segue por Paraisópolis conseguindo um ou outro trocado por dia e levando para casa doações de cestas básicas que recebe de entendidas que atuam na favela. Se não fosse isso, o estômago seguiria vazia e com fome, muita fome. 

Na favela, ou se morre de fome ou se morre de Covid. Não há um meio termo.

Se ficar dentro de uma casa espaçosos e com comida no prato é difícil, para aqueles que vivem em moradias apertadas, compartilhadas com outros membros da família e não têm comida se não trabalharem, ficar em casa é quase impossível. 

De acordo com o Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário, em 2020, 1,92 milhões de pessoas seguiam na fila da aposentadoria. 

Em todo o Brasil, segundo o Instituto Data Favela, 68% dos moradores de favelas não conseguem o mínimo de dinheiro para comprar comida

Ao longo de toda a cidade de São Paulo, porém mais especificamente em regiões periféricas, as filas da Caixa Econômica Federal eram gigantescas. (Imagem: Gloria Maria)
Ao longo de toda a cidade de São Paulo, porém mais especificamente em regiões periféricas, as filas da Caixa Econômica Federal eram gigantescas. (Imagem: Gloria Maria)

Por isso, ainda que em idade de se aposentar, idosos seguem trabalhando mesmo com o país sofrendo com a chegada de uma segunda e até terceira onda da Covid. Muitos deles torcem para que a aposentadoria chegue o quanto antes.

Na pandemia, desemprego 'explode' na faixa de 50 anos ou mais

No Brasil, a taxa de desemprego entre pessoas com 50 anos ou mais atingiu seu maior patamar no fim de 2020

Pela primeira vez desde 2012, quando começou a série história, o nível de desempregados nos "50 +" ultrapassou 7%, segundo medição da Pnad Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

No período de um ano, entre dezembro de 2019 até o mesmo mês de 2020, mais de 400 mil brasileiros nessa faixa etária caíram no desemprego. 

Na avaliação feita pelo IBGE, para uma pessoa ser considerada desempregada nos dados do IBGE, não basta não ter um emprego: tem que ser uma pessoa que não está trabalhando e que está disponível e procurando um trabalho.

Proporcionalmente, o aumento da taxa de desemprego foi maior para o grupo de 50 anos ou mais, conforme mostra levantamento elaborado com base na Pnad Contínua. Nessa faixa, a taxa de desemprego saltou de 2,7% no último trimestre de 2012, para 7,2% no fim de 2020.

“Estou trabalhando na pandemia porque eu não consigo mais arrumar emprego”, diz Édson Ribeiro dos Santos, 63 anos. (Imagem: Gloria Maria)
“Estou trabalhando na pandemia porque eu não consigo mais arrumar emprego”, diz Édson Ribeiro dos Santos, 63 anos. (Imagem: Gloria Maria)

No mesmo período, a taxa de desemprego das pessoas com menos de 24 anos passou de 15,1% para 31,4% e, para quem tem de 25 a 49 anos, subiu de 5,6% para 12,2%.

Comparado às outras faixas etárias, o nível de desemprego entre os mais velhos é historicamente mais baixo, porque muitas vezes eles já estão empregados ou já recebem outro tipo de renda, como aposentadoria ou pensão, e deixaram o mercado de trabalho. 

Idosos, principalmente mais pobres, perderam renda na pandemia

Um novo estudo conduzido pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) revelou, em março deste ano, mais detalhes do impacto da pandemia do novo coronavírus sobre a população brasileira idosa.

O estudo se refere a pessoas com idade igual a superior a 60 anos, e foi conduzido por meio do preenchimento de um questionário online, entre abril e maio do ano passado.

Ao todo, 9.173 pessoas participaram da pesquisa, que mostra que antes da pandemia, 50,5% dos idosos tinham algum tipo de trabalho.

Depois do início da pandemia, 47,1% relataram alguma queda na renda de seus domicílios. Desses, 23,6% relataram uma redução drástica, chegando a uma ausência total de renda, em alguns casos.

Estudo da Fiocruz revelou que pandemia impactou na renda da população idosa e os mais afetados foram aqueles com renda per capita menor que de um salário mínimo. (Imagem: Gloria Maria)
Estudo da Fiocruz revelou que pandemia impactou na renda da população idosa e os mais afetados foram aqueles com renda per capita menor que de um salário mínimo. (Imagem: Gloria Maria)

Os mais afetados, segundo a pesquisa, foram aqueles com renda per capita menor que de um salário mínimo.

Em Paraisópolis, projetos sociais chegam onde Estado não 'cobre' mais

Por isso, uma reação foi necessária — e ela veio, justamente, de dentro da favela. 

Gilson Santos foi um dos idealizadores do projeto Panelas Vazias, que todos os dias distribui 2 mil marmitas em Paraisópolis

Além disso, Gilson também participou da criação do G10 Bank (feito em parceria com a G10 favelas), a fim de incentivar o investimento em comunidades. O banco prioriza crédito nas áreas alimentícias, construção civil, logística, beleza e moda — preferindo jovens e mulheres negras. 

“Com o auxílio [emergencial] não da para comprar botijão de gás, arroz e carne”, disse Gilson à Folha de São Paulo. 

“Para ter uma renda está difícil. O que me ajuda é o Bolsa Família, R$ 91 por mês, e as cestas básicas que a comunidade distribui”, diz Lucia Maria Galvão da Silva, 58 anos. 

“A gente se vira como pode, mas dinheiro mesmo não tenho não”. Na mesa da família Silva o que está posto é somente o mínimo. Qualquer tipo de “mistura” (leia-se aqui acompanhamentos como carne, farofa ou legumes) não existem mais. 

O quilo da carne, por exemplo, aumento 35,03% no acumulado dos últimos doze meses — fazendo com que o preço de alguns cortes esteja seis vezes mais caro que o normal. 

O fundo de esperança que soa na voz de Maria Lúcia é um desejo no futuro, já que daqui dois anos ela poderá dar entrada no pedido de aposentadoria — se não por invalidez, brasileiros têm direito ao auxílio somente depois dos 60 anos.

Lucia Maria diz ter visto sua renda cair e piorar a situação ao ficar sem receber parcelas do auxílio emergencial. (Imagem: Gloria Maria)
Lucia Maria diz ter visto sua renda cair e piorar a situação ao ficar sem receber parcelas do auxílio emergencial. (Imagem: Gloria Maria)

Aposentadoria do INSS por idade mínima ficou mais difícil

A pandemia também criou uma combinação desastrosa para as expectativas de aposentadoria para os idosos que sobreviverem à Covid-19.

Além do acesso ao benefício ter sido dificultada devido à interrupção das contribuições daqueles que perderam emprego e renda, a doença ainda reduziu a esperança de sobrevida dos idosos.

Por conta da Covid-19, as contribuições ao INSS apresentaram uma queda no Regime Geral da Previdência Social a partir de abril de 2020, mês seguinte à constatação da transmissão comunitária do vírus no país.

Na comparação com o mesmo mês de 2019, a entrada de dinheiro no caixa da Previdência caiu 32%, passando de R$ 36,3 bilhões para R$ 24,7 bilhões. Maio, junho e julho de 2020 também registraram quedas de 36%, 33% e 6%, respectivamente, em relação aos mesmos períodos de 2019.

Apesar da recuperação a partir de agosto, houve recuo de 3% no volume total arrecadado no ano passado: foram R$ 426,9 bilhões de arrecadação bruta, R$ 13,3 bilhões a menos do que os R$ 440,3 bilhões do ano anterior, segundo dados dos boletins estatísticos do órgão.

Mesmo aposentado, trabalhador precisa se expor nas ruas e vielas da favela

No entanto, tal ajuda não é certeza de melhora financeira. O salário mínimo que os aposentados recebem é o respiro necessário para quem não tem nada — mas ainda assim não é tudo.

Mensalmente, Manoel Antônio Ferreira, de 73 anos, recebe R$ 1.100 de aposentadoria do governo. O valor não é suficiente para que ele se aconchegue no conforto do lar e aproveite a terceira idade com calma e sossego.

Por mês, Manoel Antônio Ferreira ganha R$ 1,1 mil de aposentadoria do governo, mas o valor não é suficiente, diz ele. (Imagem: Gloria Maria)
Por mês, Manoel Antônio Ferreira ganha R$ 1,1 mil de aposentadoria do governo, mas o valor não é suficiente, diz ele. (Imagem: Gloria Maria)

Todos os dias ele sobe e desce as ladeiras de Paraisópolis vendendo amendoim. Ferreira nunca ficou em casa, prefere acreditar em Deus e não se apavorar — quando se está acostumado a conviver com os limites da vida, o vírus, apesar de mortal, tende a causar menos medo.

Por isso, Ferreira enfrenta a morte, porque sabe que quando chegar o seu dia “Deus vai saber de todas as coisas”. “Sou otimista, fico feliz em estar na rua. Se eu ficar em casa é capaz de eu adoecer”, finaliza.

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