Em Paraisópolis, perder sua casa para um buraco é um medo diário

Moradores de Paraisópolis vivem com medo de perderem suas casas (AP Photo/Andre Penner)
Moradores de Paraisópolis vivem com medo de perderem suas casas (AP Photo/Andre Penner)

Na noite do dia 16 de outubro de 2021, Marilena da Silva, 56, desempregada e moradora de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, estava se arrumando para ir à igreja, atividade que faz parte de sua rotina. De repente ela ouviu um grande barulho que associou a um trovão, pensando que começaria a chover. Quando ela menos esperava uma forte poeira começou a entrar em sua casa. Marilena saiu desesperada tentando entender o que estava acontecendo e procurando sua nora e as netas que moravam em cima de sua casa.

A poeira era o desabamento da casa de um vizinho.

O desabamento de um sobrado de três andares localizado na esquina das ruas Itajubaquara e Herbert Spencer, mais conhecido na região como Caixa Baixa, causou a morte de uma vítima de 55 anos, e a remoção de 11 famílias.

A área é conhecida pela precariedade de moradias em cima do córrego do Antonico, que em dias de chuvas inundam as ruas, causando a impossibilidade de locomoção, além de entrar água de esgoto nas casas de moradores.

Marilena da Silva e sua família tiveram que sair de suas casas, já que o desabamento abriu um buraco em seu banheiro e rachaduras em toda casa, que dias depois foi demolida pela Defesa Civil. Ela compartilha que ver sua moradia sendo demolida foi uma sensação de impotência e abandono: “Demorei mais de 15 anos para conseguir levantar a minha casa, meu aconchego, e agora tudo foi para o chão, inclusive eu.”, comenta.

A Canalização do córrego do Antonico

O líder comunitário Gilson Rodrigues traz a lembrança dos anos 2000 de quando começou a ouvir falar na canalização do córrego, mas a obra não avançou, principalmente por não existir uma política de integração para as famílias, já que existe o recurso para a obra acontecer. Para ele, o maior desafio são as remoções que deixam as famílias em uma situação vulnerável: “O problema é que se pensa na obra e esquece das pessoas”, afirma.

Ele comenta que a sensação que tem é que toda vez precisa acontecer alguma tragédia para haver um mínimo movimento do poder público. Após o último desabamento, 80 casas mais as que foram prejudicadas foram marcadas para essa primeira parte da obra.

Gilson reforça que muitas famílias não aceitam deixar suas casas pelo valor baixo que a prefeitura oferece, tanto no valor estimado da casa, quanto o auxílio aluguel que custa R$400.

Ele também traz o dado de que cerca de 3 mil famílias vão ser impactadas com a canalização e que é de urgência uma conversa mais próxima dos moradores, um serviço social intenso, e um valor justo para os moradores que precisam sair de seus lares.

“Onde que você vai comprar uma casa com 20 mil?”

Marilena da Silva recebeu a proposta de receber 20 mil de indenização do imóvel, ou o aluguel social e esperar a saída da unidade habitacional. Ela aceitou o auxílio aluguel onde recebe R$400 mas não é o suficiente para pagar o aluguel da casa de dois cômodos, onde paga R$550: “Não existe aluguel de R $400 ainda mais nesse momento de crise”, afirma.

Marilena espera pelo sua unidade habitacional, com as esperanças fracas ela diz que não ter uma previsão de quando sua moradia sai, causando frustração e inconformidade de uma vida inteira deixada para trás.

Famílias reclamam da falta de acesso com a prefeitura

Sandra Silva, 44 anos, diarista, nascida e criada em Paraisópolis, mãe solo de duas crianças e uma jovem, divide o quintal com mais 20 pessoas, todas parte de sua família, totalizando seis casas. Destas seis, quatro foram marcadas para remoção, inclusive a sua.

A preocupação de Sandra tem sido financeira. Para ela o valor que a prefeitura estima para as casas são baixíssimos: “Eu estou terminando de construir minha casa agora, gastei muito dinheiro, e o que eles oferecem não paga uma casa e a unidade habitacional não tem previsão e nem localização de onde vai sair.”

Uma das reclamações constantes tem sido a falta de comunicação da prefeitura com os moradores. Sandra diz que assim que aconteceu o desabamento foi realizado um cadastro e marcação de sua casa, e que essas foram as poucas informações que chegaram. Ela espera que a prefeitura entre em contato convocando uma reunião com os moradores: “Nós precisamos falar, essa situação não é justa. Estamos nos sentindo perdidos”.

Selma Silva, 40, diarista, mãe de duas jovens, avó, irmã de Sandra e também moradora do quintal, se preocupa muito com o futuro da família. Ela relata que a marcação balançou seus planos com o término da construção de sua casa, e que se sente confusa por não saber o que fazer: “Precisamos de uma resposta da prefeitura para saber o que fazer, tive que estacionar minha vida por não chegar informações.”

Os 40 anos morando no quintal com os laços familiares e ter construído um teto trabalhosamente no espaço são temas frequentes nas falas de Selma que diz não querer sair da sua casa para ir morar de aluguel depois de tantos anos investindo o salário das duras faxinas para levantar a casa da família e também reforça que não vai aceitar o valor que a prefeitura quer oferecer: “Eles querem oferecer um valor incabível. Eu passei minha vida trabalhando para ter um lar para mim e minhas filhas, e é um descaso essa incerteza da moradia”, finaliza.

Posicionamento da Secretaria Municipal de Habitação

A Secretaria Municipal de Habitação declara que a obra teve início em novembro de 2020 com ações de demolição de edificações e remoção dos entulhos. O projeto do córrego tem previsão de término em meados de 2023. Também declarou que as obras contratadas incluem canalização do córrego, remoção de construções de áreas de risco e frentes de obra; readequação de unidades habitacionais; drenagem pública, redes de água e esgoto, projetos complementares e pavimentação; além da implantação de um Parque Linear ao longo dos 1,5km do córrego que passará por intervenção.

Do início das intervenções até novembro de 2021 foram gastos o valor de R $2.670 milhões. O valor do Contrato (014/2020/ SEHAB) é de R $79.497 milhões (Fontes de Recursos Municipais). O projeto tem início na Rua Ernest Renan (Fase 1), e termina na Rua Doutor José Augusto de Souza e Silva (Fase 6) além de está dividido em 6 fases, estando neste momento na as fases 2 e 4 foram seladas 391 moradias e as famílias residentes cadastradas.

Essas 391 famílias foram atendidas no mutirão para os moradores cadastrados do córrego Antonico, que ocorreu no mês de novembro no CEU Paraisópolis.

Até o momento, foram removidas 40 famílias. As demais remoções serão realizadas de acordo com o andamento das obras. E para todas as famílias que necessitarem de remoção, a Prefeitura anunciou duas alternativas de atendimento habitacional: auxílio aluguel no valor de R $600 até receberem uma unidade habitacional ou a indenização no valor total do imóvel que será desapropriado para as intervenções. O valor do imovel é avaliado caso a caso. O cálculo do valor do imóvel se dá conforme artigo 10 do decreto 54072 de julho de 2013, que se baseia no custo unitário básico da construção civil do Sindicato da Construção Civil (SindusCon). Os valores consideram a classe, grupo, padrão construtivo e área construída dos imóveis.

E para o futuro, conforme estudos existentes há previsão da construção das seguintes Unidades Habitacionais (UHs): Pq Sanfona, 349 unidades; Vila Andrade E, 414 unidades; Praça do Skate, 188 unidades e Terreno do Canteiro, 204 unidades.

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