Em performance, artista russo busca chamar a atenção sobre escravidão

Elaine Patrícia Cruz - Repórter da Agência Brasil

Quem passar, hoje (1º) à tarde  pelo Museu de Arte Contemporânea (MAC USP), perto do Parque Ibirapuera, em São Paulo, e olhar para cima vai se deparar com o artista Fyodor Pavlov-Andreevich pendurado em uma estrutura a 40 metros do solo. Ele ficará ali por sete horas, em uma performance que vai marcar a abertura de sua exposição no local.

Fyodor é um artista russo performático, que busca levar o corpo ao limite para refletir sobre algum tema atual. Desta vez, a performance chama a atenção para a escravidão e o racismo, lembrando a dor e a humilhação dos que já foram ou ainda são escravizados no país ou que são explorados no trabalho. No topo do MAC, em uma estrutura que lembra os andaimes em que ficam os limpadores de vidro, ele vai segurar uma longa faixa, com uma mensagem ainda não divulgada, sobre a escravidão contemporânea e o racismo.

“A performance tem seu ápice nos anos 60. Essas performances, hoje em dia, têm mudado nesse sentido. A performance hoje não só trabalha com o corpo do artista, como também lança mão de vários outros suportes como vídeos, fotos, objetos e textos. A exposição toda do Fyodor Pavlov-Andreevich é composta tanto por essa performance que vamos presenciar gratuitamente neste sábado, quanto pelos trabalhos que estarão presentes dentro do museu para que possamos compreender o que ele está propondo”, disse Ana Avelar, curadora da exposição, em entrevista à Agência Brasil.

Esta será a última das sete performances que o artista faz sobre o tema e que é apresentada desde 2014. As performances representam sete cenas de castigos impostos historicamente a escravos, documentados na história brasileira. Na primeira delas, Fyodor escalou um coqueiro e ficou agarrado ao tronco, a 10 metros de altura, por sete horas, lembrando os escravos que escalavam as árvores em busca de sementes para contrabandear ou conseguir dinheiro para comprar sua alforria. Em outra apresentação, no Rio de Janeiro, ele caminhou por sete horas com um pesado cesto na cabeça para relembrar que os escravos brasileiros tinham que levar e despejar as fezes de seus senhores no mar.

“A performance tem a intenção de fazer com que as pessoas parem sua vida na cidade para olhar, para refletir. Em um primeiro momento, talvez seja difícil desvendar o que ele está propondo ali. Mas a ideia de toda a performance é fazer com que a gente pare algum momento para refletir, experimentar e vivenciar aquela situação que o artista está propondo. A performance nunca é apenas visual. Ela é também do sensível”, disse a curadora.

O artista

Segundo a curadora, Fyodor é um artista que trabalha muito com a arte em movimento. “Ele é tanto performer quanto diretor teatral e cineasta. Trabalha com várias mídias e tem interesse, sobretudo, por falar sobre as relações sociais e humanas. E isso pode ser tanto acerca de assuntos importantes na Rússia quanto assuntos importantes e difíceis no Brasil, principalmente o que envolve nossas relações com o outro”.

Em nota de apresentação da exposição, o próprio artista comentou o trabalho. "Meu trabalho não é sobre uma nação em particular. Sou russo, passo meu tempo entre a Rússia e o Brasil. Os dois países estão lutando para lidar com o pesado legado do patrimônio totalitário: muitos brasileiros ainda se consideram proprietários de escravos, ou até mesmo escravos, ao passo que os russos se consideram a melhor e a única nação do mundo, ainda que o país ocupe a 7ª posição no Índice de Escravidão Global. Hoje, 1,4 milhão de trabalhadores na Rússia consideram-se escravos devido às condições severas de trabalho e de vida, principalmente aqueles vindos do Uzbequistão, Tajiquistão e Quirguistão. Somando-se a isso, sofrem também com ataques e manifestações xenofóbicas, de ódio e de violência física. O meu projeto é sobre como o trabalho escravo continua a existir, de uma forma ou de outra, na cabeça, no corpo, nas práticas e nas condutas de cada um de nós”, afirmou.

Todas as performances de Fyodor foram captadas em fotos e vídeos, que serão exibidas na exposição Monumentos Temporários. “Não acredito em monumentos eternos. Com o passar das décadas, eles perdem a comoção do contexto inicial e se tornam meros elementos arquitetônicos. Acredito em monumentos temporários. Aqueles que existem no espectro de um horizonte temporal fixo, marcados por trabalho físico intenso. Uma estrutura mutável, porém com um senso contínuo da energia do momento”, comentou o artista sobre a exposição.

A performance de Fyodor terá início as 14h, no MAC USP. Já a exposição fica em cartaz até 13 de agosto e a entrada é gratuita.