Em plena pandemia, Itália enfrenta crise política

Alvise ARMELLINI
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O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte

O primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte, que enfrenta há meses a pandemia de coronavírus, também precisa lidar agora com outro desafio: o de permanecer no cargo por causa de uma crise política.

Apesar do grande número de mortos por coronavírus e do prazo-limite para apresentar um plano confiável de bilhões de euros com fundos da União Europeia (UE), Conte está esgotado também devido aos ataques de veto e ultimatos internos do ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, aliado incômodo do governo de coalizão entre os antissistema do Movimento 5 Estrelas (M5E), o Partido Democrático de centro-esquerda (PD) e o esquerdista Livres e Iguais (LeU).

- O ultimato de Renzi -

Há várias semanas, Renzi ameaça retirar o apoio de seu pequeno e fundamental partido, Itália Viva, da coalizão liderada por Conte, forçando assim uma crise de governo.

"A situação é, em termos técnicos, um desastre", comentou Renzi, que governou a Itália entre 2014 e 2016, em uma entrevista na segunda-feira a um canal privado de televisão.

Questionado sobre as chances de Conte manter seu cargo, ele se limitou a responder: "Já veremos".

Conhecido por sua arrogância, Renzi reclama da lenta vacinação contra a covid-19, do atraso na reabertura das escolas e critica Conte por concentrar muito poder em suas mãos.

O político deseja contar com o projeto que estabelece as prioridades para o gasto dos 196 bilhões de euros (240 bilhões de dólares) que a Itália vai receber como parte do plano da UE para a reativação do país após o vírus e que deve ser apresentado em meados de abril.

Com mais de 75.000 mortes por coronavírus, a Itália é o país com maior número de óbitos na Europa, e os confinamentos e as restrições para conter o vírus afetaram duramente sua economia.

De acordo com um esboço do plano, 50 prioridades foram estabelecidas. O sistema de saúde receberia apenas 9 bilhões de euros (11 bilhões de dólares), o que foi muito criticado.

"Isso não pode funcionar, tem muito dinheiro em regalias e muito pouco em investimentos", comentou Renzi, que não perde a chance de intervir e aparecer na televisão depois de ter desaparecido politicamente há quatro anos.

O confronto com Conte deve chegar ao seu ponto crítico nos próximos dias, quando os ministros se reunirem para discutir os planos da UE.

- Governo sem Conte -

Conte poderia tentar aplacar Renzi com uma reorganização do gabinete, inclusive persuadindo alguns ministros a renunciarem, ou pedindo um novo mandato ao presidente da República, Sergio Mattarella, com uma nova lista de ministros.

Essa última opção traz, porém, muitos riscos. Com a renúncia de Conte, conforme estabelecido neste caso pela Constituição, Renzi poderia fazer da nomeação de um novo primeiro-ministro uma condição para dar seu apoio.

Até o momento, não há candidatos para este cargo.

Se Conte for excluído, e os políticos não conseguirem chegar a um acordo sobre um sucessor, Mattarella pode ser obrigado a convocar eleições antecipadas, dois anos antes.

No caso de eleições, as pesquisas dão a vitória ao bloco de direita liderado pela Liga, de Matteo Salvini, e pelos Irmãos da Itália, de Giorgia Meloni, dois partidos abertamente xenófobos e eurocéticos.

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