Em pleno verão carioca, Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda está sem ar-condicionado

Marcelo Antonio Ferreira
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Marcos Tristão em 2013 / Agência O GLOBO

RIO — Funcionários e pacientes da Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda, no Centro do Rio, têm enfrentado forte calor dentro da unidade,já que os aparelhos de ar-condicionado do local não funcionam. O hospital tem três equipamentos, mas só um deles está ativo com o funcionamento de apenas 30% da potência máxima. No 4º andar, onde ficam as salas de parto, os centros cirúrgicos e os leitos de indução e pré-parto, a temperatura é tão alta que há casos de profissionais passarem mal no meio de uma cesariana e desmaiarem.

— Estamos há algum tempo já sem ar-condicionado em todo o hospital, mas, no 4º andar, a situação está mais crítica. Dentro do centro cirúrgico, a temperatura estava 31 graus. Por conta da cesariana, a temperatura é um pouco mais elevada, por causa do bebê, então, normalmente, fica em 26 graus. Já para outras cirurgias, o comum é 19 graus — relata uma médica obstetra do hospital, que pediu para não ser identificada.

— É desumano. A gente ainda usa roupa, máscara e tem a iluminação em cima. Então, a sensação térmica é muito maior. Nessa, passei mal. No total, foram três pessoas que passaram mal. Eu e uma técnica de enfermagem desmaiamos. Saí no meio cesariana, não consegui continuar a cirurgia. Me colocaram sentada e desmaiei do lado de fora. Pegaram um acesso e me hidrataram, foi bem complicado. Depois, continuei trabalhando — conta a médica.

O problema ocorre há algumas semanas. Profissional responsável por acompanhar a gestante ao longo do trabalho de parto, a doula Raquel Corrêa atendeu uma paciente no dia 3 de dezembro e o ar-condicionado já não funcionava.

No fim da manhã desta segunda-feira, ela saiu da maternidade, depois de auxiliar um parto por quase 20 horas, e, durante o tempo em que ficou lá, foi obrigada a ficar descalça e com as calças dobradas, de tão quente que era o ambiente; já a gestante desidratou no auge das contrações.

— Minha cliente acabou em uma cesárea depois de 19 horas em indução. O processo teve que ser pausado, por ela passou mal, ficou desidratada. Por volta de meia-noite, a o processo precisou ser pausado, porque ela não estava conseguindo dar conta das contrações junto com o mal-estar. Às 2h, as médicas verificaram que ela estava desidratada, com boca seca e dor de cabeça — disse a doula.

— Quando liberamos a sala em que estávamos, já chegou outra paciente, com nove centímetros de dilatação, em trabalho de parto e já ocupou a sala. A rotatividade de lá é muito alta. O material é muito bom e os profissionais são comprometidos, respeitosos e apoiam o parto humanizado. A gente não pode perder esse hospital, mas ele está entregue — desabafa Raquel.

Sobre a situação da unidade, a equipe do hospital começou a alertar às famílias que chegavam na área de Acolhimento, o que obrigou a algumas gestantes sem condição de se locomover a procurarem outra maternidade. Outra obstetra, que também preferiu não revelar o nome, contou que a situação é corriqueira, já de outros anos. E relatou outro problema: os profissionais estão sem receber o 13º salário e não há previsão.

— Na verdade, todo ano, nessa época, é a mesma história. Esse ar-condicionado dá problema e exatamente no verão carioca. É muito complicado. Tem questões sanitárias envolvidas, já que, com a temperatura elevada, aumenta o risco de contaminação. Também afeta o bem-estar das pacientes, porque trabalho de parto já é algo que demanda muito esforço físico. Mas o desgaste natural do momento já faz parte do processo fisiológico. Então, uma coisa é você lidar com a dor já esperada, outra é você enfrentar isso em um cenário de desassistência — explica a médica.

— Para a recepção do bebê, o ideal é 26 graus, o que já é bem quente, mas, estamos acostumados, porque é o ideal para o bebê, para ele não sofrer hipotermia assim que nasce. Toleramos isso porque envolve um benefício maior, mas 31 graus é surreal e dentro da nossa roupa é muito pior. A direção se mostra sensível às reclamações, sempre passam os pareceres. E sempre falam que é questão de manutenção e repasse de verba.

A Organização Social (OS) que gere a Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda é o Instituo Gnosis, que, até a publicação desta notícia, não respondeu ao e-mail ou telefonemas da reportagem; já a SMS, questionada sobre o motivo do problema, previsão de reparou e planos para unidade, não deu nenhuma data e disse que vai averiguar.

Confira a resposta completa abaixo:

“A Secretaria Municipal de Saúde pede desculpas aos funcionários e gestantes pelos transtornos causados.A direção do Hospital Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda já solicitou visita de um técnico para averiguar a situação. O técnico orientou que o equipamento seja substituído. A administração da Maternidade Maria Amélia Buarque de Holanda está fazendo o orçamento para o aluguel do equipamento”.

Problemas também em postos e Upas

A UPA de Copacabana, na Zona Sul do Rio, se encontra sem internet e, por conta disto, os pacientes que realizam o PCR para diagnosticar a Covid-19, acabam sem receber o resultado do teste. O Centro Municipal de Saúde (CMS) Clementino Fraga, em Irajá, Zona Norte, também não está com rede de acesso.

Um profissional do programa Mais Médicos que trabalha na unidade ainda contou que, na farmácia, faltam medicamentos básicos como dipirona, insulina, azitromicina.

— Estamos sem internet por conta de falta de pagamento da gestão do Crivella, e isso já é rotina. Isso nos prejudica porque temos um sistema que encaminha às ambulâncias e outras unidades. Agora, sem internet, para a ambulância, estamos encaminhando por telefone, e, quando precisamos enviar para alguma especialidade, como neurologia ou ortopedia, não estamos nem encaminhando porque não temos como entrar no sistema — relata o médico — Temos um novo aparelho de ultrassonografia que está parado por falta de manutenção. “Sobre a falta de internet, a Secretaria Municipal de Saúde trabalha para regularizar o serviço nas unidades o mais breve possível”, disse em nota.