Em Portugal, Dom João 6º enfrentou tentativa de golpe do filho

GIULIANA MIRANDA
·3 minuto de leitura

LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - O regresso de dom João 6º a Portugal, após mais de 13 anos no Brasil, foi conturbado. Além do clima político hostil e da economia arrasada, o monarca enfrentou diferentes complôs para tirá-lo do trono, envolvendo sua mulher, dona Carlota Joaquina, e seu filho dom Miguel. As adversidades começaram já no desembarque em Lisboa, em 4 de julho de 1821, quando as Cortes --que haviam tomado o poder na revolução liberal do ano anterior-- fizeram questão de reforçar o rebaixamento da autoridade real. Embora seu navio tenha chegado à capital no dia anterior, e o próprio rei tivesse manifestado o desejo de desembarcar horas depois, as Cortes ignoraram o pedido. Mantido incomunicável na embarcação, dom João 6º só foi autorizado a sair no momento escolhido pelas Cortes. Além disso, viu parte de seus acompanhantes e indicações ministeriais vetados. As cerimônias que marcaram o retorno da família foram planejadas pelos liberais como forma de mostrar a nova condição da monarquia. A população foi em peso para as ruas, mas, por determinação das Cortes, a cidade e as casas não foram adornadas com arcos triunfais, como normalmente aconteceria nessas ocasiões. "O sentimento generalizado seria o de que se acolhia não um soberano vitorioso, mas um rei derrotado, indigno de arcos triunfais", nas palavras do historiador Valentim Alexandre ao jornal Público. Sem poder de barganha, restou a dom João aceitar as determinações e jurar a Constituição liberal. Com poderes limitados e sem conseguir indicar seus próprios ministros, dom João veria a sua situação começar a mudar em 27 de maio de 1823, quando dom Miguel, com o apoio de parte do Exército, organizou uma rebelião contra o governo liberal. Após demonstrar alguma hesitação, dom João acabou aderindo ao movimento, assumindo o comando da situação e controlando a ascensão ao poder de dom Miguel, que acabou nomeado para o comando do Exército. O episódio, conhecido como vila-francada, marcou o fim do período liberal iniciado na revolução e reestabeleceu o poder a dom João 6º. Mesmo com a decisão do monarca de anular a Constituição, libertar presos políticos e cancelar sentenças contra a rainha Carlota Joaquina (que havia sido punida por se recusar a jurar as leis liberais), o partido absolutista não se mostrava satisfeito com as medidas, consideradas moderadas. "Tudo isso desagradava a dona Carlota Joaquina e a dom Miguel, que aspiravam ao restabelecimento da monarquia absoluta", escreve a historiadora portuguesa Maria Cândia Proença. Dom João 6º sofre então uma tentativa de golpe, realizada pelo próprio dom Miguel. Em 30 de abril de 1824, com apoio do Exército, o príncipe investiu contra o pai, que acabou cercado por tropas miguelistas no Palácio da Bemposta, em Lisboa. O rei só não caiu por interferência de diplomatas estrangeiros, sobretudo os embaixadores da França e da Inglaterra, que asseguraram a dom João o apoio das potências. Com o auxílio inglês, o monarca se refugiou em uma nau britânica ancorada no Tejo e conseguiu retomar o controle da situação. Dom Miguel acabou demitido do comando do Exército e enviado para o exílio em Viena, na Áustria. Fragilizado pela instabilidade doméstica e sem apoio internacional para tentar reintegrar o Brasil ao reino, Portugal, sob o comando de dom João 6º, acaba reconhecendo a independência do Brasil em agosto de 1825, em um acordo mediado pelos ingleses. O rei morreria poucos meses depois --há fortes indícios de que ele teria sido envenenado--, em 10 de março de 1826, aos 58, deixando um baita problema de sucessão. Com o filho mais velho no comando de uma ex-colônia que se declarara independente, e o mais novo exilado por tramar um golpe, quem era o herdeiro legítimo? A disputa entre os irmãos, que se prolongou pelos anos seguintes, mergulhou Portugal em uma guerra civil.