71 mortos: Em 14 meses, RJ tem 3 das 4 operações policiais mais letais de sua história

Operação Policial no Complexo do Alemão na última quinta-feira (21) já é a quarta mais letal da história do Rio de Janeiro - Foto: AP Photo/Silvia Izquierdo
Operação Policial no Complexo do Alemão na última quinta-feira (21) já é a quarta mais letal da história do Rio de Janeiro - Foto: AP Photo/Silvia Izquierdo

Dados do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (Geni), vinculados à Universidade Federal Fluminense (UFF), apontam que, com 18 mortos confirmados até a noite desta quinta-feira — entre eles, um policial militar atacado dentro da base da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) e uma mulher que passava de carro por um dos locais de confronto —, a operação policial no Complexo do Alemão já é a quarta mais letal da história da cidade do Rio.

Ela só fica atrás de outra incursão no mesmo conjunto de favelas, em 2007, com 19 óbitos, e de duas ações ocorridas no período de pouco mais de um ano: uma no vizinho Complexo da Penha, com 24 mortes, há apenas dois meses, e a outra no Jacarezinho, em maio do ano passado, com 28 óbitos. As duas últimas aconteceram já com o governador Cláudio Castro à frente da administração estadual.

"Nossas forças de segurança foram covardemente atacadas hoje cedo durante uma grande operação no Complexo do Alemão para prender criminosos. Um policial foi morto e outro, baleado. Lamento profundamente a morte do nosso agente e me solidarizo com a família", escreveu Castro no Twitter, ainda durante a manhã. Mais tarde, ele voltou à rede social e anunciou que acabara de conversar ao telefone com o ministro da Justiça, Anderson Torres. "Estamos levantando informações sobre os criminosos que atacaram nossos policiais no Alemão. Enviaremos os resultados da investigação ao ministério para que esses criminosos sejam conduzidos para presídios federais", disse.

Durante dez horas, agentes da Polícia Civil e da PM incursionaram pelas comunidades da região, que teve as principais vias fechadas, assim como escolas, postos de saúde e quase todo o comércio. Traficantes reagiram com balas traçantes contra helicópteros das forças de segurança, em imagens que chocaram as redes sociais, e empregando táticas de guerrilha, como o uso de óleo em ladeiras para atrapalhar o avanço dos veículos blindados. Ao fim da ação, a PM divulgou que foram apreendidos quatro fuzis, duas pistolas e uma metralhadora .50, destinada a abater aeronaves, além de 56 artefatos explosivos.

— Não há saldo operacional positivo que possa suplantar a perda de vidas inocentes — reconheceu o coronel Rogério Quemento Lobasso, subsecretário de Gestão Operacional da corporação.

Aos 38 anos, o cabo Bruno de Paula Costa, lotado na UPP Nova Brasília, estava na PM desde 2014. Ele deixou esposa e dois filhos autistas. Já Letícia Marinho Salles, de 50 anos, era moradora do Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio, mas estava no Alemão quando o tiroteio começou. Ela era mãe de três filhos, que já haviam perdido a avó há menos de uma semana.

— Estou desnorteado. A mãe dela acabou de morrer por velhice, e hoje aconteceu isso. Ela estava na minha casa, na Penha, e nós viemos para cá (Alemão) tomar café na minha tia. Nessa hora não tinha disparo. Nós paramos em um sinal e, logo depois, meu carro foi alvejado. Ela foi atingida no peito — contou, ainda emocionado, o namorado de Letícia, Denilson Glória.

O Disque-Denúncia (21 2253-1177) pede informações que possam levar aos responsáveis pelo assassinato do cabo Bruno, que está sendo investigado pela Delegacia de Homicídos da Capital (DHC). A especializada também apura a morte de Letícia. Embora Denilson tenha apontado policiais como os responsáveis pelos tiros, nem a PM nem a Polícia Civil informaram se algum agente envolvido na operação prestou depoimento ou teve as armas apreendidas.

Denúncias de violações

Mais de 400 policiais civis e militares participaram da ação, que empregou ainda quatro aeronaves e dez veículos blindados. As tropas de elite das duas corporações — Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e Batalhão de Operações Especiais (Bope), respectivamente — comandaram as varreduras. Já a Polícia Rodoviária Federal (PRF) participou do cerco ao conjunto de favelas, patrulhando acessos e ruas próximas.

As autoridades responsáveis pela operação comunicaram que ela foi gestada a partir de informações de inteligência, sendo realizada em dia e horário “escolhidos a dedo para evitar ao máximo o confronto”. Os principais alvos eram quadrilhas especializadas em roubos de veículos, de carga e de combustível na capital e na Baixada Fluminense, além de assaltos a agências bancárias no interior do estado. Ainda segundo as forças de segurança, bandidos da região também se preparavam para atacar, em breve, áreas controladas por facções inimigas.

Ao longo de todo o dia, representantes da Defensoria Pública, do Conselho Estadual de Direitos Humanos e de comissões da OAB-RJ e da Assembleia Legislativa do Rio acompanharam os desdobramentos da operação. Eles relataram ter recebido denúncias de invasões a domicílio, suspeitos mortos já rendidos e outras supostas violações.

— Em contato com a população e com as lideranças, ouvimos denúncias de cenas de crime sendo desfeitas, feridos sem receber socorro, pessoas ameaçadas de execução sumária, agressões. Como a situação ainda não está estabilizada, não conseguimos sequer entrar para checar esses relatos — afirmou o ouvidor-geral da Defensoria Pública, Guilherme Pimentel.

Por nota, o órgão informou, no fim do dia, que "está acompanhando com preocupação as informações sobre a operação policial no Complexo do Alemão". "Há indícios de situações de grave violação de direitos, com possibilidade desta ser uma das operações com maior índice de mortos no Rio", completou a Defensoria.

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