Em pregão volátil, dólar vai a R$ 5,77, mas fecha perto da estabilidade

JÚLIA MOURA
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O pregão desta quarta-feira (3) foi marcado pela alta volatilidade. Após ir a R$ 5,7730 na máxima da sessão, em uma alta de 1,87%, o dólar perdeu força e fechou em leve queda de 0,08%, a R$ 5,6620. O câmbio cedeu após o atual presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), dizer que a PEC Emergencial não traz risco ao teto de gastos, mecanismo que limita o crescimento das despesas à inflação do ano anterior. O governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e outras lideranças no Congresso também descartaram qualquer tentativa de retirar o Orçamento destinado ao Bolsa Família do teto. Especulações de que seriam apresentadas emendas para deixar o Bolsa Família fora do teto aumentaram a pressão sobre o mercado nesta quarta, já que investidores temem, com isso, uma piora das contas públicas. Além disso, o relator da PEC Emergencial, senador Marcio Bittar (MDB-AC) apresentou complementação de voto em que fixa limite de US$ 44 bilhões para o auxílio emergencial que poderá ser excepcionalizado das regras fiscais em 2021. O mercado vinha há dias temendo que o Senado optasse por votar uma PEC muito mais desidratada e fatiada, o que, somado às intervenções de Bolsonaro em estatais, inflou temores de uma guinada da política econômica do governo. Para conter a alta do dólar, o Banco Central injetou US$ 2 bilhões nos mercados futuros de câmbio por meio de dois leilões de swap cambial tradicional. Em cinco pregões, o BC já despejou no mercado o equivalente a US$ 7,175 bilhões em valores somados de intervenções nos mercados spot e futuro. No ano, o dólar acumula alta de cerca de 9%. Dentre emergentes, o real é a moeda que mais se desvaloriza em 2021. Diante das incertezas da sessão, o risco-país medido pelo CDS de cinco anos chegou a subir 5,38%, mas perdeu força e fechou em alta de 1,65%, a 194 pontos, maior patamar desde novembro. O CDS funciona como um termômetro informal da confiança dos investidores em relação às economias dos países, especialmente emergentes. Se o indicador sobe, é um sinal de que os investidores temem o futuro financeiro do país, se ele cai, o recado é o inverso. Em um sinal de aversão a risco do mercado pelo temor ao teto de gastos, os juros futuros também subiram. Juros futuros são taxas de juros esperadas pelo mercado nos próximos meses e anos. São a principal referência para o custo de empréstimos que são liberados atualmente, mas cuja quitação ocorrerá no futuro. O juro para abril de 2024 foi de 7,059% na terça (2) para 7,314% nesta quarta. A taxa para janeiro de 2027 foi de 8,12% para 8,42%. "Tudo que envolve contabilidade criativa para financiar gastos públicos é motivo para uma resposta negativa do mercado. Vale destacar também a pressão negativa vinda das Bolsas americanas com mais uma alta dos Treasuries, o que reduz o apetite por risco globalmente", disse Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. Treasuries são títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Os juros de remuneração destes títulos têm subido nos últimos dias, à medida que investidores demandam remunerações maiores com receio à inflação. Em Nova York, o índice acionário S&P 500 caiu 1,3%. Dow Jones teve queda de 0,39% e o Nasdaq, de 2,70%. Na sessão, investidores venderam ações de tecnologia e voltaram-se para setores considerados mais propensos a se beneficiarem de uma recuperação econômica com o estímulo fiscal e programas de vacinação. As ações da Microsoft, Apple e Amazon.com caíram mais de 2%, sendo as que mais pesaram no índice S&P 500. "Hoje é o encapsulamento perfeito do grande tema que temos observado nos últimos dois meses: a distribuição da vacina está indo bem e a economia melhorando, e isso está levando os yields [juros das Treasuries] e expectativas de taxas para níveis mais altos, o que está afetando as ações de crescimento", disse Ross Mayfield, estrategista de investimentos da Baird em Louisville. A recuperação econômica dos Estados Unidos continuou em um ritmo modesto nas primeiras semanas deste ano, com as empresas otimistas sobre os meses que virão e uma robusta demanda por moradias, mas com uma melhora lenta no mercado de trabalho, disse o Fed (banco central dos EUA) nesta quarta-feira. PETROBRAS No Brasil, as ações da Petrobras tiveram nova sessão de forte queda nesta quarta, após quatro dos 11 membros do conselho de administração da companhia informarem, na noite de terça (2), que não aceitarão a recondução ao cargo na próxima assembleia geral extraordinária da estatal. A decisão vem após Bolsonaro decidir trocar Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna no comando da petroleira por críticas à política de preços da empresa. A troca foi interpretada pelo mercado como interferência do governo na estatal. "Isso causa muita preocupação. Parte do mercado vê que o governo pode ocupar mais espaço no conselho. É mais um fator de incerteza para o ativo e para a condição das políticas da companhia", diz Gustavo Bertotti, economista-chefe da Messem Investimentos. "Hoje, o mercado não dá benefício da dúvida [para a Petrobras]. Há cautela sobre quem serão os próximos conselheiros e os próximos passos da companhia", diz Ilan Abertman, analista da Ativa Investimentos. As ações preferenciais (mais negociadas) da estatal chegaram a cair 6,87% na sessão, contaminadas também pelos receios fiscais. Ao fim da sessão, fecharam a R$ 21,19, queda de 3,63%. As ordinárias (com direito a voto) recuaram 4,29%, a R$ 20,97. Após o fechamento, a companhia divulgou que mais um conselheiro afirmou que não pretende ser reconduzido. O Santander cortou a recomendação dos papéis, bem como reduziu o preço-alvo da ordinária para R$ 20. O Ibovespa, principal índice acionário do país, também teve grandes oscilações na sessão. No pior momento, o índice caiu 3,65%. Ao fim do pregão, porém, reduziu queda para 0,32%, a 111.183 pontos. A Vale também pressionou o índice, com queda de 1,23%, apesar da alta do minério de ferro na China. No setor de mineração e siderurgia, o desempenho foi misto: CSN encerrou em alta de 1,66%, Usiminas ganhou 0,52% e Gerdau caiu 0,33%. Na China, os futuros do aço chegaram a atingir o maior nível em uma década, em meio a plano chinês de adotar mais medidas de proteção ao ambiente. Ainda na última hora de negócios, investidores analisaram informação de que o governo federal vai assinar um contrato com a Pfizer para comprar vacinas do laboratório para a imunização contra Covid-19. "Enfim, uma boa notícia. Com muito atraso e a um custo de muitas vidas perdidas que poderiam ser evitadas", disse Thomaz Sarquis, economista da Eleven Financial Research. A piora da pandemia no Brasil é outro ponto que pressiona os ativos brasileiros. O governo de São Paulo anunciou que todo o estado irá iniciar o retrocesso à fase vermelha a partir da 0h do próximo sábado (6). A medida valerá até o dia 19 de março para tentar barrar a evolução da curva de infecções, mortes e internações devido ao novo coronavírus. Outros estados do país, como Minas Gerais, também endurecem as medidas de isolamento. As ações da CVC caíram 4,53%, engatando a quinta sessão consecutiva de queda, em meio ao recrudescimento em medidas de restrição de circulação. Logo após o fechamento do mercado, o Ministério da Saúde divulgou 1.910 novas mortes em decorrência da Covid-19, novo recorde para um dia no Brasil desde o começo da pandemia.