Em protesto virtual, cem entidades de ciência e saúde pedem que debate sobre vacina seja 'despido' de posições partidárias

Maiá Menezes
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Fernando Lemos / Agência O Globo

RIO — No contraponto a um debate que se iniciou com uma reação virulenta do presidente Jair Bolsonaro ao anúncio do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), a respeito do projeto de vacinação no estado a partir de janeiro, cerca de 100 associações de medicina e de ciência se reúnem na tarde desta terça (22) em um protesto cujo mote vai na contramão de embates partidários. A busca é por uma unidade de discurso que pressione o governo a tratar o tema de forma técnica, longe da polarização que tomou conta da pandemia desde seu início, há mais de dez meses.

— É jogo perdido falar mal do presidente. O que temos em mente é criar um movimento popular, “Vacina, já”, frente a uma política pública que tem se tornado inoperante. Queremos que a sociedade entenda que é hora e há espaço para falar e gritar. Não podemos ignorar o fato de quanto mais, como médicos e cientistas, tentamos mostrar a gravidade dos fatos, mais somos atacados. É hora de nos despirmos de posições partidárias — diz o presidente da Academia Nacional de Medicina, Victor Belford, autor de carta contundente, publicada há duas semanas, com críticas aos posicionamentos do governo em relação à vacinação.

'Brasil chegou de novo atrasado' na compra de vacinas e insumos

O GLOBO procurou cerca de vinte entidades que confirmaram presença no evento virtual. Entre eles, a Academia Brasileira de Ciências.

— A adesão é grande. É como a criação de um partido da Ciência. A pandemia desde o início foi subestimada pelo governo. E isso trouxe consequências muito graves. Agora, países da Europa já compraram vacinas, ampolas, seringas. O Brasil chegou de novo atrasado. Faltou e segue faltando coordenação. E está na hora de a população se posicionar, estamos tratando das nossas vidas. Um exemplo claro do descaso: é inadmissível uma autoridade aparecer em um evento público sem máscara. Elas salvam vidas. E também foram politizadas. É hora de pensarmos no futuro. E agirmos — diz o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich.

Davidovich reconhece dificuldade em mobilizar o Executivo, mas defende que a população pressione o Congresso. É consenso entre as entidades que a sociedade precisa se mobilizar, porque o cenário, com cada vez menos isolamento, e o número crescente de casos, leva a perspectivas pessimistas a janeiro e fevereiro no Brasil. No último final de semana, o país chegou ao pior patamar da média móvel de casos da doença. Diante de um ano extenuante, os profissionais de saúde, maior parte das vítimas de Covid-19, chegaram a um ponto de saturação.

A posição da Confederação Nacional de Saúde foi de que, desde o início, o governo federal centralizasse as políticas públicas de combate à pandemia. Presidente da Confederação, que representa 250 mil estabelecimentos prestadores de serviço em todo o país, Breno Monteiro lembra que a entidade chegou a entrar no Supremo para garantir o papel central do governo federal.

— Temos que repetir como mantra: a imunização, a vacina, não pode, de novo, se tornar briga política. Já deveríamos estar pensando na distribuição. Seria necessário um volume grande de informações do governo. Importante destacar que nesses dez meses as pessoas vão cansando. Mas o vírus não cansa — dos Breno Monteiro, que é contra a restrição de atividades econômicas, mas a favor da ampliação exponencial da capacidade de testagem no país.