Em recado dúbio, Lula diz que 'quem fizer errado será convidado a deixar governo', mas promete 'não deixar ninguém na estrada'

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realiza nesta sexta-feira a primeira reunião com seus 37 ministros no Palácio do Planalto. Em sua fala inicial, o mandatário enfatizou a importância de manter uma relação harmônica com o Congresso e deu um recado dúbio ao dizer que quem fizer algo errado "será convidado a deixar governo", mas prometeu "não deixar ninguém na estrada".

— Quem fizer errado, sabe que só tem um jeito: a pessoa será simplesmente, da forma mais educada possível, convidada a deixar o governo. E se cometeu algo grave, a pessoa terá que se colocar diante das investigações e da própria justiça — disse Lula, acrescentando logo depois: — Estejam certos que eu estarei apoiando cada um de vocês nos momentos bons e nos momentos ruins. Não deixarei nenhum de vocês no meio da estrada. Não deixarei nenhum de vocês.

A declaração do presidente Lula ocorre em meio ao desgaste político do governo provocado pelas relações da ministra do Turismo, Daniela Carneiro (União Brasil), com integrantes de milícias no Rio de Janeiro.

Relação com o Congresso

Em sua fala inicial, o mandatário deixou claro que a escolha de membros da sua equipe é fruto de acordos políticos e que conta com cada um para o governo manter uma relação harmônica com o Congresso.

— Muitos de vocês são resultado de acordos políticos, porque não adianta a gente ter o governo tecnicamente formado em Harvard e não ter o voto na Câmara dos Deputados e não ter o voto do Senado — disse, complementando: — Nós temos que saber que nós é que precisamos ter uma boa relação o Congresso e cada um de vocês, ministros, tem a obrigação de manter a mais harmônica relação com o Congresso Nacional. Não tem importância que você divirja de um deputado ou senador, quando a gente vai conversar, você não está propondo casamento, mas a gente está propondo aprovar um projeto ou fazer uma aliança momentânea em torno de um assunto que interessa ao povo brasileiro.

Pregando a harmonia entre os poderes, Lula defendeu o diálogo:

— É preciso que a gente saiba que é o Congresso que nos ajuda. Nós não mandamos no Congresso, nós dependemos do Congresso e, por isso, cada ministro tem que ter a paciência e a grandeza de atender bem cada deputado ou senador que o buscar porque se não quando a gente vai pedir um voto, ele diz: "Ah, não vou votar porque quando estive no tal ministério nem me receberam, deram chá de cadeira de quatro horas, o ministro nem serviu cafezinho ou uma água". Não quero isso.

Na reunião, Lula fez um discurso para orientar seu governo, defendendo o debate e a troca de ideias. O chefe do Executivo disse que "não existe assunto proibido" e "nem veto ideológico", no debate de propostas para melhorar o país.

— Nós não somos um governo de pensamento único. Não somos um governo de filosofia única, não somos um governo de apenas pessoas iguais. Nós somos um governo de pessoas diferentes. E o que é importante que gente pensando diferente tem que fazer um esforço para que, no processo de reconstrução do país, a gente pense igual. A gente construa igual — afirmou Lula. — Quero dizer para vocês que vou fazer a mais importante relação com o Congresso Nacional que eu já fiz. Quero dizer aos líderes que dessa vez vocês não se preocupem que vocês vão ter um presidente disposto a fazer quantas conversas forem necessárias com as lideranças, com os partidos políticos, com o presidente Rodrigo Pacheco (presidente do Senado) e Arthur Lira (presidente da Câmara). Não tem veto ideológico para conversar nem assunto proibido em se tratando de coisa boa para o povo brasileiro

O objetivo de Lula é dar as diretrizes para seu governo. “Hoje temos a primeira reunião ministerial, para organizar os trabalhos na primeira semana de presidência. Estou otimista com o início do governo. Pegamos a casa mal cuidada, mas já estamos trabalhando, porque nossa responsabilidade é muito grande com o povo brasileiro. Bom dia!”, escreveu Lula em uma rede social antes da reunião.

Lula, em seu discurso inicial da reunião ministerial, voltou a defender que o crescimento econômico pode conviver com a proteção ambiental:

— A perspectiva que nós temos de fazer com que as pessoas sérias, o homem de negócio do agronegócio, os empresários de verdade que sabem a responsabilidade da produção de alimento nesse país, que sabem a necessidade da produção sem ofender ou adentrar a floresta Amazônia ou qualquer outro bioma que tem que ser protegido. Esse empresário que produz de forma responsável será por nós muito respeitado e muito bem tratado. Agora, aqueles que quiserem teimar em continuar desrespeitando a lei, invadindo o que não pode ser invadido. Usando o agrotóxico que não pode ser usado, esse a fora da lei imperará sobre eles e nós vamos exigir que a lei seja cumprida. Porque nesse país tudo vale. A única coisa que não vale e o cidadão bandido achar que pode desrespeitar a boa vontade da população brasileira, a nossa Constituição e a nossa legislação — afirmou o presidente.

Após algumas declarações ruidosas da sua equipe, o mandatário deverá fazer um freio de arrumação e pedir para que seus auxiliares só falem em nome do governo quando forem autorizados. O ruído dentro do governo mais recente se deu entre os titulares da Casa Civil, Rui Costa (PT), e da Previdência, Carlos Lupi (PDT). Logo após tomar posse, o pedetista defendeu uma revisão da reforma da previdência feita durante o governo do ex-presidente Michel Temer, em 2019. Nesta quarta-feira, Costa o desautorizou. Negou que haja um estudo nesse sentido e afirmou que qualquer iniciativa a respeito será submetida ao ministério que ele comanda.

A previsão para a reunião desta sexta-feira é que haja uma discussão sobre as ações do governo que estão sendo avaliadas para os 100 primeiros dias da gestão. Na entrada do Palácio do Planalto, o ministro Márcio França (Portos e Aeroportos) afirmou que preparou uma apresentação sobre as ações da sua pasta par ao início do mandato. Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário), por sua vez, disse que tratará sobre o combate à fome.

O ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, afirmou ainda que serão discutidos na reunião as primeiras ações de coordenação da Casa Civil e um levantamento das obras de cada ministério que podem ser retomadas rapidamente e finalizadas

Além disso, Padilha afirmou que haverá uma discussão sobre como será a relação com o Congresso Nacional e com os governadores. Os líderes Randolfe Rodrigues (Congresso) e José Guimarães (Câmara dos Deputados) também participam da reunião desta sexta-feira.

Nesta semana, Guimarães (PT-CE) demonstrou insatisfação com a declaração de Randolfe (Rede-AP) sobre a entrega de votos no Congresso Nacional em troca de ministérios. O líder do Congresso afirmou que o União Brasil, que está à frente de três pastas na Esplanada, deverá entregar no mínimo 60% dos votos nas duas casas parlamentares. Há, ainda, uma preocupação em aumentar a base de apoio parlamentar do governo, que já tenta dialogar com integrantes dos partidos PP, Republicanos e PL, que apoiaram o ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições.

Lula já convocou um encontro com todos os governadores para o próximo dia 27. O ministro Rui Costa (Casa Civil) afirmou que a agenda será importante para retomar a relação entre União, estados e municípios, enfraquecida durante a gestão de Jair Bolsonaro.

Desde a campanha eleitoral, Lula diz que um de seus primeiros atos seria realizar esse encontro. O presidente já indicou que quer receber propostas de investimento de cada unidade da federação.