Em recesso, CPI da Covid vai analisar documentos, abrir novas frentes e pode até fazer diligência internacional

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Os senadores da CPI da Covid iniciam a partir da semana que vem uma operação para evitar que a comissão perca o apoio popular que angariou nos últimos três meses e pretendem intensificar as investigações sobre frentes recém abertas e outras que serão inauguradas, inclusive internacionalmente.

Os membros da comissão tiveram uma reunião virtual na tarde desta sexta-feira (16) com senadores do Paraguai para aprofundar as apurações referentes à compra da vacina Covaxin.

A negociação no país vizinho também apresenta suspeitas de irregularidades, e os senadores dos dois países decidiram criar um canal para intercâmbio de informações.

A ideia é, após este encontro virtual, que os parlamentares brasileiros façam uma diligência em Assunção, capital paraguaia, para analisar os documentos obtidos pelos parlamentares locais durante o recesso do Congresso.

No Paraguai, o caso se tornou central na cena política do país. Isso porque a indiana Bharat Biotech descumpriu o contrato que previa a entrega de dois milhões de doses da vacina.

Em depoimento à CPI, a diretora-técnica da Precisa Medicamentos -intermediária brasileira da negociação entre a Bharat e o governo- usou o exemplo paraguaio para indicar que seria normal o pagamento antecipado pelas doses da vacina. Essa questão vem sendo bastante questionada no Brasil, pois não está prevista no contrato, mas a empresa chegou a incluir na fatura das vacinas.

A suspeita de irregularidades envolvendo a compra da vacina indiana Covaxin veio à tona quando o jornal Folha de S.Paulo revelou em 18 de junho o teor do depoimento sigiloso do servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda ao Ministério Público Federal, que relatou pressão "atípica" para liberar a importação da Covaxin.

Depois da divulgação do depoimento, seu irmão, o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF), afirmou que chegou a informar Bolsonaro das supostas irregularidades, em encontro no Palácio do Alvorada.

Também entrarão na mira da comissão durante o mês de julho a análise de documentos que dizem respeito a OSs (Organizações Sociais) do Rio de Janeiro. O ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel apontou em depoimento a senadores suspeitas de irregularidades na gestão dessas instituições e a relação delas com milícias.

Witzel disse que os hospitais federais do Rio teriam "donos". A comissão chegou a anunciar que deveria fazer uma diligência ao Rio de Janeiro para colher um depoimento secreto do ex-governador, que prometeu mais informações, desde que a sessão não fosse pública e que a CPI garantisse a segurança sua e de sua família.

Alguns membros da cúpula da CPI afirmam que a oitiva pode nem ser necessária, levando em conta os documentos que têm chegado à comissão.

O grupo majoritário, que concentra independentes e oposicionistas e que controla os rumos do colegiado, pretende dividir os flancos de investigação entre seus membros para acelerar a análise de documentos recebidos até o momento. Além disso, pretende fazer algumas diligências externas durante o período de recesso.

Os senadores desse grupo devem realizar uma reunião virtual neste fim de semana para detalhar os próximos passos, inclusive com a divisão de tarefas.

Uma fonte da CPI afirma que a senadora Simone Tebet (MDB-MS) deve auxiliar na análise de documentos referentes à OSs e os hospitais federais do Rio de Janeiro, em particular as questões jurídicas que envolvem esses temas. Sem entrar em detalhes, a senadora postou em suas redes sociais que iria analisar passar o período de recesso avaliando documentos.

"Não nos deram direito a uma cadeira na CPI, mas a voz feminina foi ouvida e fez diferença. Nos próximos dias estaremos analisando documentos públicos para voltar com ainda mais firmeza em agosto", escreveu, acrescentando uma foto ao lado da também senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA).

Ainda nas questões envolvendo o estado do Rio de Janeiro, o senador Humberto Costa (PT-PE) vai ficar responsável por aprofundar a investigação sobre a relação entre governo e empresas.

Em uma outra frente de trabalho, a CPI pretende intensificar as apurações a respeito de perfis falsos nas redes sociais que divulgam informações mentirosas. Os senadores querem saber se há relação direta com servidores do Palácio do Planalto, em particular ligados ao gabinete do ódio.

Na semana antes do recesso, os senadores aprovaram requerimento para obter o compartilhamento de dados com a CPMI das Fake News, que foi inicialmente suspensa com a pandemia do novo coronavírus e não tem previsão de ser retomada.

O vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), afirmou que outro flanco que deve ser aprofundado durante o recesso é a atuação dos intermediários na compra de vacinas.

"A CPI da Pandemia abriu a caixa de Pandora! Estão emergindo todos os esquemas do governo federal na compra de vacinas. Os brasileiros e brasileiras que morreram não foram vitimadas apenas pela Covid-19", escreveu em suas redes sociais.

Reportagem da Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (17) mostrou que Pazuello prometeu a um grupo de intermediadores comprar 30 milhões de doses da vacina chinesa Coronavac. A imunização foi oferecida formalmente ao governo por quase o triplo do preço negociado pelo Instituto Butantan.

A negociação, em uma reunião fora da agenda oficial dentro do ministério em 11 de março, teve o seu desfecho registrado em um vídeo em que o general da ativa do Exército aparece ao lado de quatro pessoas que representariam a World Brands, uma empresa de Santa Catarina que lida com comércio exterior.

A gravação, obtida pela Folha de S.Paulo e já de posse da CPI Covid no Senado, foi realizada no gabinete do então secretário-executivo da pasta, o coronel da reserva Elcio Franco.

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