Em reduto do PT, Lula ataca Bolsonaro, foca a economia e fala em gestão miliciana

CATIA SEABRA, WÁLTER NUNES E EDUARDO CUCOLO
SÃO BERNARDO D CAMPO, SP, 09/11/2019 - O ex-presidente Lula durante discurso em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP).(Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao retornar neste sábado (9) ao reduto de origem do PT, a região do ABC Paulista, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 74, fez um duro discurso contra a Lava Jato e o ex-juiz Sergio Moro, atacou a política econômica do governo federal e se referiu à gestão do presidente Jair Bolsonaro (PSL) como de milicianos.

Lula discursou em cima de um caminhão de som, diante da sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Foi lá, em abril de 2018, que o ex-presidente fez seu último discurso antes de se entregar a policiais federais e ser levado à prisão em Curitiba, onde passou 580 dias.

​​​Lula foi solto um dia antes, beneficiado por um novo entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal) segundo o qual a prisão de condenados somente deve ocorrer após o fim de todos os recursos. O petista, porém, segue enquadrado na Lei da Ficha Limpa, impedido de disputar eleições.

"Eu estou de volta", disse, sob aplausos de militantes. "Estou com mais coragem de lutar do que quando eu saí daqui."

Lula falou de improviso por 45 minutos. Pediu resistência e união da esquerda e preparou o clima para as eleições de 2022. "A esquerda vai derrotar a ultradireita que nós tanto queremos derrotar".

No mesmo dia, pela manhã, Bolsonaro já havia partido para cima de Lula, em um embate que deve marcar a política nacional nos próximos anos, com Moro também nesse jogo, e o petista como uma espécie de líder da oposição e principal crítico do modelo atual de política econômica.

Sem citar o nome do petista, Bolsonaro enalteceu o papel de Moro na Lava Jato e pediu aos seus seguidores que não deem "munição ao canalha, que momentaneamente está livre, mas carregado de culpa". Minutos depois, também em uma rede social, Moro escreveu que "lutar pela Justiça e pela segurança pública não é tarefa fácil" e que lamenta a decisão do STF que permitiu a soltura de Lula.

Além da postagem, Bolsonaro falou sobre a soltura do petista. "A grande maioria do povo brasileiro é honesta, trabalhadora, e nós não vamos dar espaço nem contemporizar com um presidiário. Ele está solto, mas continua com todos os crimes dele nas costas."

À tarde, Lula respondeu e mostrou que será opositor de Bolsonaro não apenas no campo político, mas também no terreno econômico. Criticou a agenda de reformas e afirmou que o liberalismo no Chile, elogiado pelo ministro Paulo Guedes (Economia), elevou a pobreza no país vizinho. Também chamou Guedes de "demolidor de sonhos".

Ao convocar a militância, Lula se referiu à gestão Bolsonaro como de milicianos. "Não adianta ficar com medo. Não adianta ficar preocupado com as ameaças que eles fazem na televisão, que vai ter miliciano, que vai ter AI-5 outra vez. A gente tem que ter a seguinte decisão: esse país é de 210 milhões de habitantes, e a gente não pode permitir que os milicianos acabem com este país que nós construímos."

Quando deputado estadual no Rio, o hoje senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, empregou em seu gabinete na Assembleia Legislativa a mãe e a mulher de um ex-policial suspeito de comandar uma milícia na zona oeste do Rio de Janeiro acusada de sequestrar, torturar e assassinar pessoas, além de explorar o mercado imobiliário clandestino e extorquir moradores de comunidades carentes.

Além disso, uma série de discursos do atual presidente e de seus filhos aponta que a família Bolsonaro minimizou, ao longo dos anos, a gravidade das ações de milícias -além de ter defendido e exaltado policiais suspeitos de atuação criminosa nesses grupos.

Bolsonaro, quando deputado federal, chegou a proferir críticas à CPI das Milícias, realizada pela Assembleia do Rio. Ele defendeu que alguns policiais militares são confundidos com milicianos por organizarem a segurança da própria comunidade, mas que não praticam extorsão.

Este sábado marcou o encontro de Lula com líderes petistas, de outros partidos de esquerda, de sindicatos e de movimentos sociais. No caminhão de som, o petista estava acompanhado, entre outros, do ex-prefeito e ex-presidenciável Fernando Haddad, da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, de Guilherme Boulos (MTST) e de João Paulo Rodrigues (MST).

Na noite anterior, ainda em Curitiba, Lula se encontrou com seu ex-ministro José Dirceu, também solto após a decisão do STF e que disse que a luta agora é para retomar o governo. Lula e Dirceu haviam se encontrado pela última vez em 2012.

No sindicato do ABC, antes de iniciar o discurso, o ex-presidente foi recebido aos gritos de "Lula, livre". Diante da superlotação no entorno no sindicato, alguns militantes passaram mal e precisaram de atendimento médico.

Emocionado, disse ter "medo de mentir para o povo trabalhador" e repetiu que seus "algozes" da Lava Jato estão mentindo nos processos contra ele. O petista se referiu à sala de 15 m² da Polícia Federal na qual ficou preso por 580 dias como uma "solitária".

Ao tratar de suas condenações, Lula chamou Moro de "canalha" -o hoje ministro da Justiça foi responsável pela condenação no processo do tríplex de Guarujá, que o levou à prisão. Depois, disse que o procurador Deltan Dallagnol montou uma "quadrilha" no comando da força-tarefa da Lava Jato.

Moro respondeu logo em seguida em uma rede social. "Aos que me pedem respostas a ofensas, esclareço: não respondo a criminosos, presos ou soltos. Algumas pessoas só merecem ser ignoradas."

No discurso no ABC, Lula disse aceitar os resultados das eleições de 2018, mas que Bolsonaro foi eleito democraticamente para governar o país, e não para as milícias do Rio de Janeiro. O petista ainda cobrou uma "perícia séria" no sistema eletrônico da portaria do condomínio onde Bolsonaro tem casa no Rio.

Em depoimento já descartado pelo Ministério Público do Rio, um porteiro disse ter ouvido do presidente Jair Bolsonaro, pelo interfone, a autorização para a entrada no condomínio do carro guiado por um dos acusados pela morte da vereadora Marielle Franco no mesmo dia do crime, em março de 2018. Bolsonaro, naquele dia porém, estava na Câmara, onde ainda atuava como deputado federal.

Lula ainda repetiu seus ataques à TV Globo. "Vocês não têm dimensão do que significa o dia de hoje para mim. Lá em cima [olhando para cima], está o helicóptero da Rede Globo de televisão para falar merda outra vez sobre Lula e sobre nós." E ainda atacou outras emissoras. "A TV do Silvio Santos [SBT] está uma vergonha, a Record está uma vergonha, a Globo está uma vergonha."

Em nota, a Globo respondeu: "A Globo repudia os ataques do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A prova de isenção da emissora é a transmissão do discurso que o ex-presidente fez ontem e hoje. Também é prova de sua isenção ser alvo de ataques dos extremos do espectro político hoje, tão radicalizado. A Globo faz jornalismo sério e continuará a fazer. Sem se intimidar e sem jamais perder a serenidade".

Condenado em duas ações da Lava Jato, o ex-presidente foi solto nesta sexta-feira (8), um dia após o STF ter decidido, por 6 votos a 5, que uma pessoa condenada só pode ser presa após o trânsito em julgado (o fim dos recursos). Isso alterou a jurisprudência que, desde 2016, tem permitido a prisão logo após a condenação em segunda instância.

A decisão do Supremo, uma das mais esperadas dos últimos anos, tem potencial de beneficiar cerca de 5.000 presos, segundo o CNJ (Conselho Nacional de Justiça). O Brasil tem, no total, aproximadamente 800 mil presos. Lula, o também petista José Dirceu e o tucano Eduardo Azeredo já foram soltos.

Lula passou 580 dias preso devido à condenação sob a acusação de aceitar a propriedade de um tríplex, em Guarujá, como propina paga pela OAS em troca de três contratos com a Petrobras, o que ele sempre negou.

Essa condenação, após denúncia da força-tarefa da Lava Jato de Curitiba, teve a assinatura do então juiz Sergio Moro na primeira instância, a confirmação do Tribunal Regional Federal em segunda instância e a ratificação do STJ (Superior Tribunal de Justiça), que fixou pena de oito anos, dez meses e 20 dias.

Como ainda cabem recursos, o caso ainda não transitou em julgado, e Lula foi solto.

O petista também foi condenado, até aqui apenas em primeira instância, no caso do sítio de Atibaia. Segundo a decisão judicial, também após denúncia da Lava Jato, ele recebeu vantagens indevidas das empreiteiras Odebrecht e OAS em troca de favorecimento às empresas em contratos da Petrobras.

As reformas e benfeitorias realizadas pelas construtoras no sítio frequentado por Lula configuraram prática dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Pelas regras atuais, Lula é considerado ficha-suja, devido a ao menos uma condenação em segunda instância -regra de corte da Lei da Ficha Limpa.

Nas próximas semanas, a Segunda Turma do STF deverá julgar um habeas corpus no qual a defesa de Lula sustenta que Moro, hoje ministro da Justiça de Jair Bolsonaro (PSL), atuou sem a imparcialidade necessária no processo do tríplex de Guarujá (SP).

Com base nisso, Lula quer que o colegiado anule o processo inteiro. Esse é o julgamento de maior interesse da defesa hoje, já que sem essa condenação Lula pode se tornar elegível, ao menos por ora.