Em reprise de 'Malhação', Anna Paula Black se prepara para nova novela das 19h e estreia de filme de Lázaro Ramos

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RIO — É na Feirinha da Pavuna que são feitas as compras de frutas, legumes e verduras. Na Padaria do Russo, fica difícil resistir ao pão quentinho que sai do forno a toda hora. No bar do TH de Paulo, a boa é beber uma cervejinha gelada na companhia dos amigos. Bate-papo para ninguém botar defeito é aquele que acontece na porta de casa, com direito ao conforto de se sentar numa cadeira de praia. É na vizinhança, seja passeando entre as barracas da feirinha que é patrimônio cultural imaterial do Rio desde 2014 ou socializando pelos diversos cenários do bairro que é estação final da Linha 2 do Metrô que a atriz Anna Paula Black se inspira para seguir em frente. Afinal, são muitos os desafios que se impõem para quem nasceu preta, pobre e a quilômetros de distância de onde, nas palavras dela, “as coisas acontecem”. Mas as adversidades não foram nem são páreo para quem pisou pela primeira vez em um teatro aos 17 anos e aos 40 curte a reprise de “Malhação-Sonhos”, trabalho em que interpretou uma professora de canto, enquanto aguarda uma série de estreias que estão por vir.

Em outubro, Anna Paula volta ao teatro com o espetáculo “Meus cabelos de baobá”, que faz temporada presencial no circuito Sesi. Já em novembro, dá o ar da graça no cinema no filme “Medida provisória”, primeiro longa-metragem dirigido pelo ator Lázaro Ramos, assim como na próxima novela das 19h da TV Globo, “Quanto mais vida melhor”.

A trajetória nos palcos e no audiovisual sequer eram objeto de desejo da menina que sonhou ser paquita na infância e pouco se enxergava na TV. Mas o encontro com a arte de interpretar, no tablado da Escola Técnica Estadual Juscelino Kubitschek, no Jardim América, foi tão arrebatador que mudou o destino da então adolescente tímida da Pavuna que, na maturidade, está pronta para ganhar o mundo.

— Os meus pais nunca puderam me levar ao teatro. O meu lazer era ficar sentada em frente à TV assistindo ao extinto “Xou da Xuxa” e sonhando ser paquita. Mas como não tinha paquita preta, não rolou, claro! Eu queria muito ser famosa, dar um jeito de estar na televisão. Cismei que seria analista de sistemas da Globo, ou seja, não tinha a menor noção de que, caso esse desejo se concretizasse, não seria famosa coisa nenhuma (risos). Mas, apesar de ser noveleira desde sempre e de ter visto, por exemplo, Ruth de Souza (1921-2019) e Zezé Motta na TV, não conseguia me enxergar nesse lugar. A representatividade era pequena. Sem contar que tudo é mais difícil para quem nasce no subúrbio. Infelizmente, o acesso às artes é mais limitado. Hoje em dia, nem sonho ser famosa. Aquilo era uma maluquice da minha cabeça de menina. O que importa de fato eu já conquistei, que é fazer um bom trabalho e ser reconhecida — diz a artista, que está se preparando para dar vida à cantora Carmen Costa (1920/2007) em um musical no ano que vem.

A carreira de atriz já levou Anna Paula a atuar até no exterior.

— Em 2010, participei do Festival de Arte Negra, em Dakar (capital do Senegal, na África), com a companhia de teatro da qual eu faço parte, a Cia. dos Comuns. Na ocasião, apresentamos o espetáculo “Silêncio!”, com direção de Hilton Cobra. Saí da Pavuna para o Senegal, mas quero conhecer e me apresentar em muitos outros países. É da Pavuna para o mundo — diverte-se.

Se depender dos planos da atriz, o bairro revelará outros talentos artísticos. A também estudante de Administração pretende montar um projeto social para que as crianças das comunidades da região possam frequentar oficinas de dança, música e teatro.

— Estudo Administração justamente para ter a capacidade de gerir a ONG que quero montar na Pavuna para atender os pequenos que não têm acesso à cultura. A arte cura, salva, transforma, informa e é uma ferramenta muito potente contra o preconceito. O nosso lugar é onde a gente quiser — frisa a artista, que tem um perfil com o seu nome no Instagram.

Intérprete de uma professora de canto em “Malhação — Sonhos” e mestre em Matemática na próxima novela das 19h, Anna Paula, que também é cantora, vê o seu trabalho como uma forma de combater o racismo:

— Eu sou negra e posso exercer qualquer profissão, seja na vida ou na arte. Ninguém, sob nenhuma hipótese, pode tirar o direito de uma menina preta, de um menino preto, de realizarem os seus sonhos porque não nasceram brancos. Eu era tão ingênua que nem enxergava direito o racismo, mas, lamentavelmente, esse mal está em toda parte. É estrutural. Quero ser uma voz para outras mulheres pretas e suburbanas como eu!

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