Em residência artística no interior dos EUA, Gonçalo Ivo ficará sozinho até o fim de abril, em meio à pandemia de Covid-19

Nelson Gobbi

RIO — Acostumado ao silêncio e à tranquilidade de seu ateliê em Teresópolis, Gonçalo Ivo está vivendo uma experiência de isolamento totalmente nova por conta da epidemia de Covid-19. O pintor de 61 anos foi selecionado para uma residência artística na Fundação Josef & Anni Albers, em Bethany, cidade de pouco mais de 5 mil habitantes no estado de Connecticut (EUA), e está desde o dia 1º de março hospedado na instituição, cujas instalações ficam no meio da floresta e a 25 quilômetros do principal centro comercial da região. Com o aumento das restrições de circulação após o aumento dos casos nos EUA, Denise, mulher de Gonçalo, voltou ao Brasil, mas ele decidiu ficar até o fim de abril, no que seria o período original de sua residência.

Na fundação, que está fechada ao público, Gonçalo passa alterna o tempo entre as telas e caminhadas pelas trilhas da floresta — só para chegar à estrada que liga a residência à cidade é preciso andar um quilômetro. Antes de ir para o interior do país, o artista passou dois meses em Nova York no fim do ano passado, em outra residência, e testemunhou agora as mudanças de rotina pelas quais o país vem passando.

— Não vou muito ao comércio, apesar de ter um carro disponível para isso. Quando fui pela última vez, os carrinhos de supermercado já traziam pacotes de lenços descartáveis com álcool, para a higienização das mãos. Achei melhor fazer uma compra maior de enlatados e alimentos de maior duração, suficiente para algumas semanas — conta Gonçalo, por telefone. — Quando os responsáveis pela residência me perguntaram se gostaria de voltar, pensei que teria que ficar duas semanas em quarentena total no Brasil, e achei melhor ficar trabalhando aqui. Havia uma outra artista americana na residência, mas ela também foi embora logo que começaram a aumentar os casos no país. Não me importo de ficar sem companhia, desde os 10 anos de idade que pratico o esporte da solidão.

Gonçalo se comunica por telefone e internet com os dois filhos, que moram em Paris, e trocam diferentes experiências de confinamento ( “Outro dia o Fenando me mandou uma imagens das ruas totalmente vazias junto da Opéra, perto de onde ele mora”). Além do isolamento, o pintor, que é filho do poeta e acadêmico Lêdo Ivo (1924 — 2012), também enfrenta o frio: a temperatura mais alta que pegou foi de 5º C.

— Tento manter minha rotina aqui. Eu durmo muito cedo, às19h já estou deitado, lendo. Acordo às 2h da manhã e começo a pintar. Trabalho até a tarde e depois saio para caminhar. Mas cada dia tenho novas experiências. O Fritz Horstman, um dos diretores da fundação que mora em Bethany, agora vai me ensinar a procurar cebolas selvagens no meio da floresta — diverte-se o pintor.

A única companhia diária possível vem da música e dos livros. Gonçalo está relendo “Dandelion wine” de Ray Bradbury e ouve de Bach a Brian Eno enquanto está trabalhando. A ligação com a literatura é reforçada nas obras recentes, como a série de aquarelas inspirada pelo romance “O jogo das contas de vidro”, de Hermann Hesse. Por ora, sua partida, marcada para 30 dia abril, está suspensa.

— Tinha uma passagem para Madri, onde passo uma parte do ano, mas foi cancelada. Vai depender da evolução da pandemia, aí vejo se é possível ir para lá ou se tento uma conexão para o Brasil, via Houston ou Atlanta — comenta o pintor, que tem preferido não acompanhar o avanço da Covid-19 em tempo real. — Não fico o tempo todo vendo tudo o o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Também fico ilhado neste sentido.