Em resposta a Bolsonaro, prefeitura de SP prepara festival com atrações censuradas em 2019

A atriz Deborah Secco em cena do filme "Bruna Surfistinha", uma das atrações do Festival Sem Censura de SP. Foto: Reprodução

Arnaldo Antunes, DJ Rennan da Penha, Bruna Surfistinha, Aquela Cia de Teatro e “A Vida Invisível” são algumas das atrações anunciadas pela Prefeitura de São Paulo para o Festival Verão Sem Censura, que terá início no próximo dia 17.

Em comum - além data de abertura coincidir com o número da ex-sigla do presidente -, os artistas e as produções foram alvo de boicote de órgãos ligados ao governo de Jair Bolsonaro ao longo de 2019. 

Segundo a nota divulgada à imprensa pela Secretaria Municipal de Cultura, o evento acolhe todas as manifestações culturais oprimidas em 15 dias de atividades abertas e  gratuitas, como peças de teatro, filmes, debates, shows, exposições, performances e carnaval.

Na nota, chama a atenção o tom de enfrentamento da prefeitura em relação ao governo federal. 

A ideia, diz a secretaria, é celebrar a democracia, a liberdade de expressão e combater a repressão, a censura e o preconceito. O secretário Alexandre Youssef diz que o evento serve de apoio e resistência “aos ataques à cultura e aos artistas no Brasil”. 

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O comunicado lembra que Arnaldo Antunes, responsável por abrir festival no dia 17, com um show na Praça das Artes, teve um videoclipe censurado na TV recentemente, e que o DJ Rennan da Penha, funkeiro idealizador do Baile da Gaiola, foi preso em março e libertado apenas em novembro. 

Também na Praça das Artes, no dia 18, haverá uma sessão do filme “Bruna Surfistinha”, de Marcus Baldini, seguida de debate com Raquel Pacheco, que inspirou a personagem de Deborah Secco.

“A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, que seria exibido para os servidores da Ancine em dezembro, mas foi vetado pela direção do órgão, será exibido no dia 19, na Sala Lima Barreto. 

Na nota, a prefeitura lembra que, em julho, o presidente Jair Bolsonaro declarou que não poderia “admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha”. 

Na sequência, acontece desfile de moda da Daspu, grife do movimento de prostitutas do Brasil criada por Gabriela Leite, e a festa LGBT Desculpa Qualquer Coisa com performance das Maravilhosas Corpo de Baile.

O festival terá ainda apresentações da banda punk rock feminista Pussy Riot, da peça “Roda Viva”, escrita por Chico Buarque e com direção de José Celso Martinez, uma conversa sobre Marighella, com Mário Magalhães e Maria Marighella, um bate-papo com a historiadora Lilia Schwarcz sobre “1984”, de George Orwell, e diversos espetáculos censurados em 2019, como “Caranguejo Overdrive”, de Aquela Cia de Teatro, “RES PUBLICA 2023” - que a prefeitura lembra ter sido censurada pela Funarte e acolhida em outubro no Centro Cultural São Paulo. 

O evento é, até aqui, o movimento mais contundente de reação ao governo Bolsonaro, que enfrenta grave crise de confiança, conforme apontou pesquisa CNI/Ibope na última semana, e que elegeu artistas como inimigos enquanto tenta responder às suspeitas envolvendo a família do presidente.

Em julho, durante entrevista ao programa Vozes da Nova Política, o prefeito Bruno Covas (PSDB) já havia acenado para este enfrentamento. Ele acusou Bolsonaro de dialogar apenas com seus eleitores, criticou as declarações preconceituosas do presidente em relação a nordestinos e ironizou as preocupações do governo com temas menores - entre eles a implicância com o filme “Bruna Surfistinha”.

Em tratamento contra um câncer, o prefeito se manifestou em novembro contra uma fala do ministro Paulo Guedes (Economia) sobre o AI-5. “Alguém me avise se pediram o AI-5 de novo para eu sair do hospital e ir pra rua protestar”, declarou Covas.

O festival acontece em meio a uma discussão acalorada no próprio PSDB sobre uma possível guinada à direita do partido, com as filiações de Alexandre Frota e Gustavo Bebianno e o apoio a privatizações, redução da maioridade penal, fim da estabilidade para servidores e pagamento de mensalidades em universidades públicas.

Bolsonaro teve 60,38% dos votos na capital paulista no segundo turno da eleição presidencial de 2018. A disputa municipal, que em 2020 pode não ter um candidato forte do PT, como nas edições anteriores, será um teste para os tucanos diante de uma nova polarização, com um provável candidato ligado ao bolsonarismo na outra ponta da briga.