Em resposta a Congresso, Ministério da Saúde omite redução em entrega de vacinas

Lisandra Paraguassu
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Funcionários manuseiam frascos com doses da vacina contra Covid-19 CoronaVac no Instituto Butantan, em São Paulo

Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA (Reuters) - Em resposta a um pedido de informações das Presidências da Câmara e do Senado, o Ministério da Saúde omitiu a redução na previsão de entregas de vacinas previstas para o mês de março e manteve a informação de que o país receberia 38 milhões de doses, no mesmo dia em que o próprio ministro da Saúde revelou que a previsão atual está entre 22 e 25 milhões de doses.

No ofício em resposta aos parlamentares, o ministério informa que "o cronograma está mantido, na forma e nos prazos, conforme foi apresentado aos senadores na referida sessão temática, pelo secretário-executivo do ministério".

O ofício foi enviado aos senadores na noite de quarta-feira, depois de o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, apresentar em discurso no Palácio em do Planalto números diferentes. O documento enviado ao Congresso é assinado pelo próprio ministro.

O ministério acrescenta no documento, ainda, que embora o cronograma esteja "em constante evolução e atualização", não houve até agora alteração no cronograma de entregas.

O cronograma apresentado aos senadores em sessão temática previa entregas de vacinas Coronavac, Astrazeneca --tanto importadas da Índia quanto produzidas já pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), parte das entregas do consórcio Covax Facilities e 8 milhões de doses do laboratório indiano Bharat Biotech, cuja vacina nem mesmo teve encerradas as pesquisas de fase 3.

Em fala na quarta-feira no Palácio do Planalto, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, reduziu mais uma vez a previsão de entregas, falando em 22 milhões a 25 milhões de doses, um número ainda menor do que a previsão do início da semana, em que o ministério falava em entregas entre 25 milhões e 28 milhões de doses.

O número inicial, previsto pelo ministério em 17 de fevereiro era de 45,9 milhões de doses, o dobro do previsto agora.

Dessa conta, saíram as vacinas Sputnik, da Rússia, e Covaxin, da Índia, que nem mesmo têm ainda registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Também não há mais garantias de entregas pelo Covax Facilities e doses importadas da Índia da Astrazeneca não chegarão na data prevista. Também houve atrasos na produção da Fiocruz.

Questionado sobre os números apresentados por Pazuello em seu discurso no Planalto, o ministério não respondeu.

PRONUNCIAMENTO

Na noite de quarta, o ministério também distribuiu um pronunciamento de Pazuello em que o ministro fala, mais uma vez, que até o final de março o país distribuiria 46 milhões de doses, sem explicar de onde viriam essas vacinas.

Na fala, Pazuello ainda destaca o "momento grave" que o país está passando, mas afirma que o sistema de saúde não entrará em colapso.

"Vivemos um momento grave no país, com muitas perdas de vidas que foram causadas principalmente pelas novas variantes do coronavírus. Nosso sistema está muito impactado, mas não colapsou nem vai colapsar", afirma o ministro, que pede às pessoas que sigam "as orientações básicas recomendadas" para proteção coletiva, mas não cita, por exemplo, distanciamento social ou restrições de circulação.

De acordo com levantamento feito pela Fiocruz, nesse momento 25 das 27 capitais e 20 dos 27 Estados têm mais de 80% dos leitos de UTI para Covid-19 ocupados. Em 15 capitais a lotação está acima de 90%. Em Porto Alegre, por exemplo, a lotação ultrapassou 100% na quarta-feira.