Em São Paulo, moradores de área nobre vivem até 21 anos a mais do que população de bairros pobres, revela estudo sobre desigualdade social

Desempregado, Antonio Eladio, de 59 anos, conhecido como Toninho, vive há um ano e meio na ocupação Jorge Hereda, na Zona Leste de São Paulo. Além da escassez nas ofertas de emprego, tem dificuldades para trabalhar por causa das dores no joelho, intensificadas por um diabetes recém-diagnosticado. Morador do distrito de Cidade Líder, o pintor de apartamentos sofre as consequências de dois dos piores indicadores sociais da região: o maior tempo médio para se marcar uma consulta em uma unidade de atenção básica e a terceira pior remuneração média da capital paulista.

Esses números foram apresentados ontem na edição de 2022 do Mapa da Desigualdade, feito pela Rede Nossa São Paulo, do Instituto Cidades Sustentáveis, que evidenciou a profunda desigualdade social entre bairros paulistanos. Uma discrepância na prestação de serviços públicos que resulta até em uma diferença de 21 anos no tempo médio de vida entre os residentes de Jardim Paulista, na Zona Oeste, e de Iguatemi, na Zona Leste.

— Sou nascido e criado na Zona Leste, mas nunca havia morado numa ocupação. Tem cada vez mais gente chegando aqui. A situação está muito ruim. Entre 2018 e 2020, trabalhei no Piauí, porque as coisas já estavam difíceis. Voltei e agora está ainda pior — conta Eladio.

Por 17 anos, Toninho trabalhou com carteira assinada em empregos diversos, como clínicas e posto de gasolina. Hoje, faz bicos como pintor de apartamentos, mas admite que as ofertas estão raras. Segundo o Mapa da Desigualdade, a remuneração média dos moradores de Cidade Líder que trabalham é de R$ 1.851. É a terceira pior da cidade, atrás apenas de Arthur Alvim e Brasilândia. O valor médio de toda a São Paulo é de R$ 4 mil. Quem vive em São Domingos, na Zona Noroeste, ganha em média R$ 7.498. O primeiro colocado nesse ranking está 4,4 vezes distante do último.

Cidade Líder também só tem uma taxa de oferta de emprego de 0,9 a cada 10 habitantes na idade economicamente ativa. Muito abaixo da média total de São Paulo: 4,3.

Eladio ainda convive com a dificuldade para se tratar do diabetes diagnosticado há dois anos. Desde que retornou a São Paulo, ele é atendido no SUS, na Unidade Básica de Saúde AE Carvalho. Apesar de ser visto por bons profissionais, ressalva, normalmente espera um mês, sempre que recebe o resultado de um novo exame, para outra consulta.

O relato coincide com outro resultado do Mapa da Desigualdade: em Cidade Líder, moradores aguardam, em média, 39 dias para conseguirem uma consulta no Serviço de Atenção Básica à Saúde, 20 dias a mais que a média da cidade.

— Preciso fazer exames de rotina, basicamente a cada dois, três meses, para direcionar o tratamento — explica Eladio, que espera conseguir a aposentadoria por invalidez no INSS,com o laudo que aponta sua condição limitada pelo joelho.

Para fazer o mapa, os pesquisadores compilaram dados oficiais de 11 temas: habitação, trabalho e renda, mobilidade, infraestrutura digital, direitos humanos, saúde, educação, cultura, esporte, meio ambiente e segurança pública. Os resultados são filtrados geograficamente, exibindo as diferenças entre todos os 96 distritos da cidade. Em cada um dos temas, foi calculado o “desigualtômetro”, que é a diferença entre os resultados do melhor e do pior bairro para aquele quesito.

O cálculo chega a discrepâncias como no acesso à internet móvel (por distribuição de antenas). Itaim Bibi tem um resultado 2.469 vezes maior que o de Marsilac. No quesito oferta de empregos formais, a Barra Funda teve um valor 227 vezes maior que Cidade Tiradentes.

Para Jorge Abrahão, diretor do Instituto Cidades Sustentáveis, o índice mais relevante para se observar a desigualdade social paulistana é a idade média ao morrer. Os pesquisadores compilaram todos os registros de óbitos num ano a fim de se chegar a uma média. Jardim Paulista registrou tempo médio de vida de 80 anos, enquanto Iguatemi, 59.

— O recorte da idade média ao morrer é uma síntese das desigualdades — afirma Abrahão. — Ele reúne dados de mortalidade infantil e homicídio de jovens, por exemplo, que são eventos muito mais graves nas regiões mais pobres. Além disso, praticamente todos os indicadores influenciam nessa média, desde o acesso a saúde e à educação ao saneamento básico. Quanto pior a qualidade de vida, menor a média de idade ao morrer.

Em 2022, o Mapa da Desigualdade de São Paulo completa 10 anos de série histórica. Nesse período, diz Abrahão, foi possível constatar que o tempo passa e a desigualdade permanece:

— A gente tem lutado pela construção de políticas públicas que possam mudar esse quadro. O mapa tem a função de revelar os dados, diferenças dentro de uma mesma cidade. A nossa lógica, ao calcular o desigualtômetro é mostrar que a solução da cidade está instalada na própria cidade. Porque se tem, por exemplo, um distrito com ótimo serviço de educação, sabemos que há condição de isso ser replicado. As cidades precisam aprender com elas mesmas, não precisamos buscar exemplos lá fora.

Apesar da permanência da desigualdade em grande escala em uma mesma divisão geográfica, ao longo dos 10 anos, Abrahão diz que foi possível notar índices que melhoraram e outros que regrediram. Como exemplos negativos, ele cita a geração de empregos, o número de espaços culturais, o homicídio de jovens e a violência contra mulher, contra negros e contra população LBGTQIA+.

Mas o pesquisador reconhece que houve melhoria nos índices de tempo de espera por uma vaga em creche e gravidez na adolescência. O trabalho de levantamento de dados públicos e indicadores sociais, como o que faz o Mapa da Desigualdade, pressionou a atual gestão da prefeitura a lançar uma nova política pública, avalia Abrahão.

No ano passado, foi criado o índice de vulnerabilidade dos distritos, uma forma de a prefeitura também ter o controle dos indicadores sociais por regiões e direcionar melhor os investimentos públicos. Nos próximos quatro anos, o município irá investir R$5 bilhões (um quinto do orçamento previsto) de forma proporcional, privilegiando os distritos com piores indicadores no momento.

— Essa é uma prática que as prefeituras precisam adotar. Uma forma da gente reduzir desigualdade é investir mais em quem tem piores índices — afirma o pesquisador da Rede Nossa São Paulo.

Outra conclusão da pesquisa é que a desigualdade social foi aprofundada com a pandemia. Além de um maior número de mortes por Covid-19 nos distritos mais pobres, uma prova do deterioramento econômico é o aumento da população de rua, cujos registros apontam um número de 30 mil na capital paulista, quase o dobro do que existia, pelos cálculos oficiais, antes de 2020 (16 mil).

No Distrito da Sé, onde se registrou a maior taxa de agressões por intervenção policial na cidade (18,8 pessoas agredidas para cada 100 mil habitantes) e a segunda maior de feminicídio (4,8 por 10 mil mulheres de 20 a 59 anos), moradores apontam que, durante a pandemia, houve um aumento da população da cracolândia. O crescimento levou a maiores operações policiais mas também a problemas de segurança, com mais assaltos no entorno da concentração de dependentes da droga.

— A insegurança é grande na região. Temos muitos assaltos próximos à cracolândia e ao minhocão. Além disso, houve aumento da população em situação de rua — afirma Francisco Machado, ex-presidente do Conselho de Segurança do Distrito da Sé, do qual ainda é integrante. — No último ano, com o trabalho da polícia, mais pessoas passaram a ser enviadas a centros de reabilitação. Isso melhorou. Mas, de uma forma geral, o período da pandemia foi muito grave.