Em seis pontos, veja o que o ex-ministro Anderson Torres terá que explicar à PF

Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e ex-secretário de Segurança do Distrito Federal, foi preso ao desembarcar em Brasília neste sábado ao chegar dos Estados Unidos e se entregar à Polícia Federal. A sua prisão preventiva foi decretada na última terça--feira pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito das investigações sobre os ataques às sedes dos três Poderes no domingo por terroristas bolsonaristas.

Em meio às manifestações que culminaram na depredação das sedes dos Três Poderes, Torres estava de férias com a família nos EUA, motivo pelo qual foi exonerado do posto de Secretário de Segurança do DF. Com a prisão, o ex-ministro de Bolsonaro terá que explicar pelo menos seis pontos à PF.

Na última quinta-feira, a Polícia Federal divulgou que apreendeu na residência de Anderson Torres uma minuta de decreto presidencial que sugeria ao ex-presidente Jair Bolsonaro uma espécie de intervenção no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que poderia abrir caminho para uma intervenção no resultado das eleições do ano passado. O documento vem sendo chamado de "minuta do golpe".

O ex-ministro afirmou, via redes sociais, que o documento encontrado pela Polícia Federal em sua casa estava em uma pilha "para descarte". Durante o mandado de busca e apreensão na casa de Torres, uma arma de fogo, notebook, mídias e pendrive também foram coletados e estão sob análise dos investigadores.

Ao decretar a prisão de Anderson Torres, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes pediu para que a PF investigasse as suspeitas de omissão e conivência com os atos terroristas que ocorreram no último domingo.

'"As omissões do Secretário de Segurança Pública e do Comandante Geral da Polícia Militar, detalhadamente narradas na representação da autoridade policial, verificadas, notadamente no que diz respeito à falta da devida preparação para os atos criminosos e terroristas anunciados, revelam a necessidade de garantia da ordem pública", afirmou Moraes. O ministro disse ainda que Torres não planejou a segurança e ordem da capital ou do patrimônio público.

Sobre as acusações, Torres disse em comunicado: "Lamento profundamente que sejam levantadas hipóteses absurdas de qualquer tipo de conivência minha com as barbáries que assistimos. Estou certo de que esse execrável episódio será totalmente esclarecido, e seus responsáveis exemplarmente punidos".

Anderson Torres também é acusado de sabotar a segurança da capital federal, o que teria facilitado os atos terroristas. As investigações levam em conta as suspeitas de que Torres teria exonerado uma série de servidores responsáveis pelo comando da Secretaria de Segurança. A denúncia foi feita por Ricardo Capelli, nomeado interventor da segurança pública do DF.

— A secretaria estava acéfala no dia 8. Conversei com o chefe de gabinete do secretário anterior e ele me disse que, para a operação do dia 1º, eles viraram noites e noites dentro dessa sala fazendo planos, checando, indo, voltando. Qual foi o planejamento pro dia 8? O secretário sequer estava aqui e exonerou o comando da secretaria. Houve desmonte do comando da secretaria. O secretário viajou por acaso? Essas ações são coincidência? Não me parece — disse Capelli em entrevista ao GLOBO.

Para além de Torres, a Polícia investiga a mudança na segurança da capital. Na véspera da invasão e ataque ao Planalto, o Gabinete Institucional da Presidência (GSI) dispensou reforço no Batalhão da Guarda Presidencial. A determinação, feita por escrito, ocorreu cerca de 20 horas antes dos atos terroristas na sede da Presidência da República. O comando do Batalhão é feito pelo Ministério da Defesa e GSI.

Diante das suspeitas que pairam sobre o ex-secretário pesa o fato de Torres não estar a postos. Durante os atos terroristas, o ex-ministro de Bolsonaro alegou que estava de férias com a família em Orlando, nos Estados Unidos, desde sábado, 7.

Um despacho assinado pelo ex-presidente no dia 27 de dezembro colocou em xeque o argumento: as férias de Anderson Torres começariam no dia 9 de janeiro, um dia após as manifestações em Brasília.

Enquanto secretário de segurança do Distrito Federal, Torres era responsável pela segurança da Praça dos Três Poderes. O ministro Flávio Dino (Justiça) ressalta que, às vésperas dos atos terroristas, cem ônibus fretados adentraram a capital "sem qualquer sem qualquer acompanhamento policial, mesmo sendo fato notório que praticariam atos violentos e antidemocráticos".

Na decisão em que Moraes determinou a prisão de Torres, o ministro pontua todas as medidas que poderiam ter sido tomadas pelo então secretário durante os atos. Entre elas está o planejamento do emprego operacional dos órgãos que compõem o Sistema de Segurança Pública do Distrito Federal (PMDF, PCDF, CBMDF) e do Departamento de Trânsito do Distrito Federal, assim como integrar a ação das forças policiais, o que não teria sido devidamente cumprido. Para além de Torres, a conduta dos agentes que estavam a postos no último domingo também é investigada.