Em seu 30º aniversário, “The Queen is Dead” continua tão sublime quanto sempre foi

Você talvez não se lembre por ser muito jovem, mas houve uma época em que a sensibilidade da alma de um ser humano era lindamente retratada em canções não menos que sublimes. Não havia nada desse chororô bunda mole que existe nos dias atuais, em que o sofrimento amoroso, por exemplo, é retratado em letras feitas para que débeis mentais entendam a mensagem sem precisar usar a massa de carne embolorada que têm no espaço entre as orelhas. Foi uma época em que a poesia era uma das ferramentas mais poderosas para fazer uma canção penetrar em nossa alma e nos cortar por dentro…

Não tem como não pensar nisto quando sabemos que um dos álbuns mais belos fez aniversário de lançamento. Embora eu não seja afeito à nostalgia, não consigo deixar de pensar em The Queen is Dead como um ícone da cultura pop incrustado na discografia de uma banda tão marcante quanto controversa para quem já tinha passado da adolescência nos anos 80.

Os Smiths conseguiam extrair o que de pior um dito “roqueiro” podia oferecer em termos de preconceito e contradição. O ‘brucutu’ que dizia que “Smiths é som de bichinha” era o mesmo que na década anterior chorava quando ouvia canções as canções que Elton John escrevia para seus namorados ocultos. O mesmo zé-ruela que se incomodava com a postura afeminada de Morrissey era o mesmo que sorria e chacoalhava o esqueleto toda vez que assistia a vídeos de Freddie Mercury em cima de um palco. Meus amigos mesmo não acreditavam quando eu demonstrava que ouvia com a mesma paixão e intensidade ao Show No Mercy, do Slayer, ao Atlantic Crossing, do Rod Stewart, a uma sinfonia de Beethoven e a qualquer um dos ótimos álbuns que os Smiths gravaram em sua curta carreira. Para uns, era coisa de maluco. Não para mim.

A aguçada proposta artística envolvendo música, letras e imagem do grupo capitaneado por Morrissey e pelo genial – e subestimadíssimo – guitarrista Johnny Marr não tinha o corpo alienígena de David Bowie, por exemplo, mas provocava inquietações igualmente reflexivas. Ouvir cada canção da banda, com um dicionário inglês-português ao lado, era um mergulho dentro da alma de um sujeito que nada tinha a ver comigo ou com um monte de gente, mas que gerava em todos nós uma simpatia entristecida.

Ficávamos consternados ao entender o romantismo exasperado – não importava se gay ou hétero - presente na letra das maravilhosas “There is a Light That Never Goes Out” e “I Know It’s Over”, quebrávamos a cabeça para sacar o significado oculto em pérolas como “The Boy With the Thorn in His Side” e para quem era endereçada a bronca em “Frankly, Mr. Shankly”, dávamos risada da autodescrição do vocalista na espetacular “Bigmouth Strikes Again”, sentíamos pena dele por sua solidão em “Never Had No One Ever” e “Cemetry Gates” – com o título escrito de forma errada e tudo – e até nos surpreendíamos com as críticas à monarquia inglesa na faixa título e à Igreja como instituição em “Vicar in a Tutu’’.

Tudo era amparado por uma cozinha rítmica eficiente – a cargo do baixista Andy Rourke e do baterista Mike Joyce – a servir de suporte para as brilhantes harmonias e melodias que Marr construía em suas guitarras, que deixava muito músico tarimbado embasbacado, com a aquela cara de “Como foi que ele construiu esse acorde?”, “Que lick é esse?” e “Jesus, que melodia linda!”.

A gente ficava na dúvida se Morrissey era um personagem como Bowie ou era o mais sincero letrista e vocalista daqueles tempos. Hoje eu cravo a segunda opção, mas tive minhas dúvidas na época.

Semana passada fez trinta anos que Queen is Dead foi lançado. Acabei de reouvi-lo para ter as sensações exatas na hora de escrever este texto. E ele continua tão belo como sempre foi…