Em SP, risco de internação e morte por Covid é maior por idade, e não por comorbidades, diz estudo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O risco de hospitalização e morte por Covid-19 de pessoas com mais 45 anos de idade é cerca de quatro vezes maior do que o risco relacionado às principais formas de comorbidades classificadas hoje como prioritárias no PNI (Plano Nacional de Imunizações), revela um estudo feito com dados do estado de São Paulo.

O estudo foi publicado na última segunda (31) na revista American Journal of Tropical Medicine and Hygiene e coordenado pelo infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz Júlio Croda.

Segundo a análise, a razão de risco (hazard ratio, em inglês, ou na sigla HR) de internação e morte por Covid de pessoas com mais de 80 anos era cerca de quatro vezes maior do que nas pessoas com 60 anos ou menos. Mas mesmo naquelas com menos de 60 anos, a razão de risco é cerca de três vezes maior do que a de pessoas com comorbidades de igual ou maior idade.

"Em São Paulo, vimos que, além dos fatores já descritos de maior risco, fica claro que as pessoas de mais idade, dentre os pacientes já hospitalizados, têm um risco muito maior, com a morte de cerca de 40% deles", diz Croda.

Isso se torna ainda mais revelador quando se observa que apenas quatro tipos de comorbidades têm uma razão de risco elevada para agravamento da Covid, hospitalização e morte. São elas doenças neurológicas (HR=3,95), doenças crônicas pulmonares (HR=3,62), cardiopatias associadas à hipertensão (HR=2,44) e diabetes (HR=2,03).

Já por faixa etária, as idades mais avançadas possuem razão de risco maior (72,69 a partir de 80 anos), mas a faixa etária de 45 a 49 anos tem risco igual a 4,27, maior que o das quatro principais formas de condições preexistentes classificadas hoje como prioritárias no plano. Esses dados correspondem a uma atualização para até maio de 2021, divulgada juntamente com a pesquisa.

"Ao comparar por faixa etária, talvez um ponto de corte que justifique o critério de vacinação por comorbidades fique abaixo de 40 anos, porque aí o risco [de ser portador de comorbidade] é maior. Mas, acima de 40 anos, os dados revelam que o risco é 2,6 vezes maior devido somente à idade do que nos grupos abaixo de 40 anos", diz Croda.

Os dados trazem informações importantes que podem guiar a campanha de vacinação. Há especialistas que defendem que a idade deveria ter sido priorizada em detrimento das comorbidades.

Na última quarta-feira (2), o governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou a previsão de vacinar toda a população adulta (maior de 18 anos) até 31 de outubro. O governo também pretende incluir na campanha, a partir da próxima segunda-feira (7), todas as pessoas com comorbidades com mais de 18 anos e adotar, nas próximas etapas de vacinação, o critério por faixa etária.

A pesquisa avaliou dados de 120.804 pacientes hospitalizados no estado paulista entre 26 de fevereiro e 10 de outubro de 2020. Os dados foram obtidos a partir dos registros do sistema Sivep-Gripe, do Ministério da Saúde, de 623 dos 645 municípios paulistas.

Do total de hospitalizados, mais de 41 mil (34,5%) foram internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e, desses, mais de 33 mil (27,4%) morreram. "O impacto da pandemia em São Paulo é que, até outubro, mais de um terço das pessoas foram para UTIs e mais de um quarto morreram, e isso no estado com o maior acesso à saúde, com a maior infraestrutura montada e capilarização de leitos entre o interior e capital", diz Croda. Para ele, as campanhas de vacinação atualmente em curso no país levam em consideração dois fatores, o de maior risco de exposição ao vírus -incluindo profissionais de forças de segurança pública, transporte público e da educação- e de maior risco de adoecimento. "Quando a gente fala em comorbidades, falamos em risco de adoecimento, mas podemos discutir também a vacinação por uma lógica de exposição, e aí as pessoas por comorbidade não entrariam por ter determinada condição. Nesse caso, a vacinação dos grupos mais adequada seria por faixa etária", explica.

O epidemiologista e professor titular da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Lotufo, defende a adoção de critérios diferentes dos atuais do PNI.

"Uma coisa é o termo comorbidade, que pode ser qualquer coisa. A confusão se deu quando, no ano passado, a OMS [Organização Mundial da Saúde] começou a divulgar dados sobre a mortalidade por Covid-19 e registrava que, de tantos mortos, x pessoas eram hipertensas. Mas isso não significa nada; às vezes bate com a incidência daquela doença na população. E quanto maior a idade, maior a chance de ter uma condição preexistente", explica.

Nesse sentido, o epidemiologista argumenta que, adotando o fator de risco de agravamento da doença, as comorbidades como doenças autoimunes e outras condições crônicas devem ser avaliadas com base no cadastro do SUS e, no âmbito populacional, a vacinação por maior exposição é melhor.

Como cada estado e município adota suas próprias regras, no entanto, alguns locais já começaram a vacinação de pessoas com comorbidades com 18 anos ou mais, enquanto em outros, como é o caso do Rio de Janeiro, o critério sempre foi por faixa etária.

"Cada município vai incluindo outros grupos e não há avanço na idade, sendo que é fundamental avançar nas faixas etárias antes de inserir novos grupos, porque até 40, 45 anos, a idade é um fator de risco extremamente relevante", diz Croda. "Além disso, qualquer pessoa que tenha acesso a um médico e consiga um atestado vai poder se vacinar, então tem o fator de justiça social também", avalia.

De acordo com dados do estudo em Serrana, ao atingir a imunização de cerca de 75% da população adulta, o número de novos casos, hospitalizações e óbitos cai consideravelmente. Ao vacinar 95% da população com mais de 18 anos, houve uma redução também em 95% de número de mortes.

"Esse estudo foi fundamental para proporcionar a população necessária para atingir a imunidade coletiva, ou seja, o efeito indireto da vacinação mesmo na população não vacinada. Até lá, as pessoas com maior risco de hospitalizações e óbitos devem ser vacinadas", diz.

Lotufo também acredita que o modelo de Serrana pode ser aplicado na população da capital de São Paulo para reduzir a transmissão do vírus. Um estudo recente revelou a desigualdade na vacinação entre os bairros periféricos e mais ricos da cidade. "Seguindo Serrana, o ideal será pegar áreas com alta incidência [de Covid], como Cidade Tiradentes e Sapopemba na zona Leste, Capão Redondo na zona Sul e Brasilândia, na zona Norte, e vacinar todas as idades", afirma.

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