Em textos inéditos, escritores expressam desejos para 2020

"Esperanças, desespero e um sonho", Milton Hatoum

Espero navegar de novo no Negro, o rio da minha infância, e um dos mais belos da Amazônia brasileira.

Espero que os ministros que professam uma fé fervorosa na irracionalidade sejam mais racionais e menos ideológicos e ressentidos.

Espero que o emprego formal aumente, e que a desigualdade social diminua.

Espero que as ofensas e agressões aos artistas, humoristas, cineastas, cientistas, professores, intelectuais, jornalistas e minorias étnicas cessem de uma vez por todas.

Espero que cessem os incêndios criminosos na floresta, a grilagem de terras indígenas, o assassinato de indígenas, e de pobres, quase todos negros, todos cidadãos brasileiros.

Espero que haja mais compostura nas redes sociais: a polarização política gera mais ódio, violência, intolerância.

Espero reler “Angústia”, do velho Graça, e “O castelo”, de Kafka.

Espero saborear muitas kaftas com hummus, e lutar por um ensino público de qualidade.

Espero que o país seja mais amado. E muito menos armado. E que o humor venha de todos os lados, da frente e dos fundos.

São esperanças vãs? Talvez, mas não há esperança sem reflexão e ação. “Nossas armas são fracas: caneta e papel”, escreveu (com ironia) Graciliano Ramos.

Alguém sonhará que três anos serão três dias, e acordará otimista. Sonhar é agir com paciência e lucidez, saber superar o fosso do tempo perdido e transformar o que for possível. O tempo perdido será transfigurado em arte: tempo reencontrado.

Ser otimista ou pessimista depende da leitura crítica da realidade e do contexto histórico. Em todo caso, sou um otimista desesperado. Para isso, basta para ter um fio fino de esperança.

Milton Hatoum estreou como escritor em 1989 com o romance “Relato de um certo Oriente”, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria. Também escreveu, entre outros, “Dois irmãos”, igualmente premiado pelo Jabuti e adaptado para a TV, o teatro e os quadrinhos, “Cinzas do Norte”, que faturou o Portugal Telecom e mais um Jabuti, e “Órfãos do Eldorado”, que virou filme.

"Tempo de nos aquilombar", Conceição Evaristo

É tempo de caminhar em fingido silêncio,

e buscar o momento certo do grito,

aparentar fechar um olho evitando o cisco

e abrir escancaradamente o outro.

É tempo de fazer os ouvidos moucos

para os vazios lero-leros,

e cuidar dos passos assuntando as vias,

ir se vigiando atento, que o buraco é fundo.

É tempo de ninguém se soltar de ninguém,

mas olhar fundo na palma aberta

a alma de quem lhe oferece o gesto.

O laçar de mãos não pode ser algema

e sim acertada tática, necessário esquema.

É tempo de formar novos quilombos,

em qualquer lugar que estejamos,

e que venham os dias futuros, salve 2020,

a mística quilombola persiste afirmando:

“a liberdade é uma luta constante”.

Homenageada como personalidade literária de 2019 pelo Prêmio Jabuti, Conceição Evaristo é autora dos romances “Ponciá Vicêncio” e “Canção para ninar menino grande” e do livro de contos “Olhos d’água”, entre outros.


"Para além das utopias", Eliana Alves Cruz

Aceitei o convite para escrever meus desejos para o novo ano com um misto de alegria e angústia, pois os anseios são diversos, porém tudo o que quero hoje para mim, os meus, o país e o mundo — escapando do básico do cotidiano — soa utópico, um desafio e tanto, já que o essencial está bastante complicado de obter. Entendo ser este o efeito colateral de um período duríssimo, em que quase tudo aconteceu na base de muitas rupturas dilacerantes impulsionadas por pensamentos e sentimentos que estavam ocultos na nação, apenas esperando para “dar o bote”. E justamente aí, neste ponto da minha reflexão, comecei a formular meu primeiro sincero desejo: o de que tenhamos paz para deixar ir o que (ou quem) não cabe mais e a coragem para religar o que precisa ser reatado. Olha a ilusão aí de novo.

Resumidamente, desejo o fim da culpa por não querer o que nos violenta e por admitir que alguns afetos são necessários a ponto de romper com o orgulho para fazer o caminho de volta, mas, se quem trabalha com a criatividade não consegue desejar ardentemente, o mundo perde o tempero. Desta forma, sem economia ou, para usar uma palavra da moda, “contingenciamento” nos sonhos de réveillon, em 2020 — último ano de uma década muito louca onde tudo se deu no mundo virtual infinitamente mais — quero que a vida fora da nuvem volte à cena principal. Não é saudosismo do século passado, mas querer que usemos as ferramentas virtuais sem deixar de respirar, pois isto — respirar — não demora vira privilégio de muito poucos. Aproveitem!

E se é para sonhar, vamos fazer isso direito. Desejo que o Brasil mergulhe nele mesmo com verdade e que a todo brasileiro seja permitido, além de trabalhar, comer e dormir, conhecer e valorizar sua diversidade lendo, indo ao teatro, ao cinema, experimentando a mistura dos pratos e cores das artes sem conta... ou produzindo tudo isso, dando vazão aos seus incontáveis talentos! Desejo que todo mundo possa falar e ouvir e, principalmente, conquistar a matéria-prima do amor próprio que é o pleno entendimento da sua própria história. Utopias estão aí mesmo para um dia deixar de ser. Que venha o vinte e vinte!

Eliana Alves Cruz é jornalista e autora dos romances “Água de barrela” e “O crime do Cais do Valongo”.

"O ano do cachorro" Julia Wähmann

Aqui na esquina de casa até que o mundo é legal. Tem o rapaz que faz yoga no sol, no meio da rua; tem o sujeito que se veste de Papai Noel em dezembro, e que sai da padaria dizendo que no Polo Norte o sonho é mais barato. E tem Mariana, que um dia acionou os vizinhos porque tinha encontrado um cachorro abandonado amarrado no poste. Sendo filha de mãe que pega cachorro na rua, prima de prima que pega cachorro na rua e amiga de amigos que pegam cachorro na rua, fiz o que manda o protocolo e fui com ela até o poste, onde juntas resgatamos o cachorro, com o plano de encontrar alguém que pudesse adotá-lo.

O bicho nos olhava, abanando o rabo e tentando comer tudo ao redor, lixo, plantas, canelas, sapatos e o estetoscópio da veterinária que fez uma primeira consulta no quintal do prédio de Mariana. Em dois dias entendemos que, quando de posse de um cachorro abandonado, não é tão simples encontrar uma casa pra ele, por mais que exclamações de fofura inundem o whatsapp e as redes sociais. Logo entendemos também que o cachorro já tinha sido adotado por nós. Eu mal conhecia Mariana.

Também mal conhecia Joana, que veio com filha e cadela, para fazer companhia nos passeios e oferecer a casa para quando Mariana tivesse que se ausentar — não caberíamos, o cachorro e eu, no meu apartamento e na minha rotina dividida entre dois trabalhos. Também vieram Cilú e seus vira-latas, com planos de implementarem um sistema de compostagem na rua, onde já plantavam feijão e tomates em canteiros abandonados. E também Nati, e Nino, e tantos mais, e chuvas que destruíram parte do bairro, e àquela altura já entrávamos uns nas casas dos outros sem pedir tanta licença, de galochas e pás para retirar lama, e no fim do dia havia sempre um lugar a mais em qualquer mesa.

O molho de chaves engordou: se me faltar açúcar, sal ou limão, é fácil encontrar nas casas dos vizinhos. As minhas portas também se abrem facilmente para eles. Não fosse o cachorro, é provável que tivéssemos mantido a relação cordial de bom dia, boa tarde, etc. Mas por causa dele, estivemos — e permanecemos — juntos, fazendo do micro uma possibilidade de atravessar os dias. Os laços possíveis estão muito próximos. Se em cada rua alguém convencer um vizinho a adotar um bicho abandonado, é de se acreditar que coisas maiores virão em 2020. É só não desviar dos postes.

Julia Wähmann é autora de “Manual da demissão”, livro semifinalista dos prêmios Jabuti e Oceanos em 2019, entre outros

"Baby", Afonso Borges

O ano de 2019 foi

um sobressalto:

imprevisível,

incômodo, desafiador.

Mas acabou.

Diz a lenda que o ano novo

traz todas as palavras boas do dicionário: felicidade, saúde, prosperidade,

solidariedade.

Diz a lenda que somos

compostos de água, amor

e ossos bons pra dançar:

maxixe, mambo, samba, maracangalha, eu vou.

Então que venha 2020!

Temos sapatos novos,

meias azuis e sobrancelhas psicodélicas para dar

e vender.

Não vai ser fácil este 2020,

nós sabemos, Baby.

Mas temos em mãos

a sinopse, conhecemos

o epílogo e só como

o Povo das Artes sabe fazer, recriaremos o final.

Vamos, Baby? É a Hora.

Afonso Borges é autor dos romances “Olhos de carvão” e “O menino, o assovio e a encruzilhada”, entre outros. É blogueiro do GLOBO, além de apresentador do programa “Sempre um papo” e criador do Festival Literário de Araxá (Fliaraxá)