Em um mês, Pfizer enviou 10 emails cobrando respostas do Ministério da Saúde; entenda cronologia

·5 minuto de leitura
President of Pfizer Latin Americal, Carlos Murillo speaks during a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil May 13, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Presidente da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, já depôs à CPI da Covid (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
  • CPI da Covid recebeu trocas de emails entre Pfizer e Ministério da Saúde

  • Pfizer cobrou respostas do Ministério 10 vezes em um mês

  • Empresa ficou sem resposta do governo federal em diversas ocasiões

A CPI da Covid recebeu uma série de e-mails enviados pela Pfizer que comprovam quanto a empresa insistiu para negociar com o governo brasileiro. Os documentos foram entregues em caráter sigiloso, segundo a Folha de S. Paulo.

Tratam-se de, pelo menos, 10 emails, enviados entre 14 de agosto e 12 de setembro – data em que o presidente mundial da Pfizer enviou uma carta endereçada ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Apesar das tentativas, a empresa não recebeu respostas conclusivas do Ministério da Saúde.

As mensagens são sigilosas porque a Pfizer e o governo federal firmaram um termo de confidencialidade logo no início das negociações, em julho de 2020.

Leia também

Nas mensagens, a Pfizer pedia uma resposta formado do governo sobre a oferta de vacinas que havia sido apresentada. De acordo com os documentos, cujo conteúdo foi acessado pela Folha, em 14 de agosto, a empresa ofereceu duas opções de compra, uma de 30 milhões de doses e outra de 70 milhões de doses, cuja validade era até 29 de agosto.

O CEO da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, já havia revelado diversas propostas feitas pela empresa durante o depoimento na CPI da Covid no Senado.

Após a primeira oferta, a Pfizer enviou e-mails por três dias para cobrar respostas. Uma representante da empresa ligou para uma técnica do Ministério da Saúde, mais especificadamente da Secretaria de Ciência, Inovação e Insumos Estratégicos.

Cristiane Santos, da Pfizer, tentou confirmar se o Ministério havia recebido “uma comunicação enviada em nome do presidente da Pfizer, Carlos Murillo, com a proposta atualizada de um possível fornecimento de vacinas de Covid-19”, segundo diz a mensagem revelada pela Folha. A funcionária ainda alertou que a validade continuava sendo até 29 de agosto.

“Gostaria de saber, com urgência, do interesse deste ministério em iniciar conversações sobre aspectos legais e jurídicos da presente proposta”, pediu Cristiane Santos.

Sem resposta, em 26 de agosto, a Pfizer tentou novamente. Dessa vez, Alejandro Lizarraga mandou um email ao assessor de assuntos internacionais do Ministério da Saúde, Flávio Werneck. Ele ressaltou “a importância de termos um posicionamento quanto ao interesse na aquisição de nossa potencial vacina de modo a contribuir com os esforços de atendimento da demanda no país neste tema”.

Depois de 29 de agosto, quando expirou a proposta, a Pfizer enviou um novo email ao Ministério da Saúde. Os técnicos haviam pedido mais informações sobre o imunizante desenvolvido pela empresa. Em 12 de setembro, foi enviada a carta ao presidente Jair Bolsonaro, assinada pelo presidente mundial da Pfizer, Albert Bourla.

Três dias depois, em 15 de setembro, uma representante da Pfizer enviou outro email ao Ministério da Saúde, cobrando uma resposta sobre o documento. No entanto, o contato entre a pasta e a empresa só se intensificou mais de um mês depois, em 26 de outubro, quando foi agendada uma reunião virtual entre a Pfizer e o Ministério, com o secretário-executivo da pasta.

Dias depois, o ex-secretário de Comunicações, Fabio Wajngarten, conversou com Bolsonaro sobre as ofertas apresentadas pela Pfizer.

Em um email enviado aos técnicos, o então CEO da Pfizer no Brasil, Carlos Murillo, diz que há um diferencial na proposta feita pela empresa: “Em linha com que o excelentíssimo senhor presidente Jair Bolsonaro tem comentado, é que o acordo só é efetivado a partir da aprovação da vacina da Anvisa, sem qualquer risco/prejuízo financeiro ao país caso nossa vacina não receba o registro regulatório”.

Em 24 de novembro, a empresa atualizou a proposta e informou que só exigiria o pagamento depois de 10 dias da assinatura do contrato definitivo, ou seja, com a vacina registrada pela Anvisa. Em dezembro, o Brasil apresentou uma contraproposta e afirmou que seria necessário publicar uma medida provisória para assinar um acordo com a empresa.

O acordo entre Pfizer e o governo do Brasil só foi divulgado em março de 2021. Até agora, o país recebeu um milhão de doses da vacina. Até setembro, devem ser entregues 100 milhões de doses.

No depoimento de Eduardo Pazuello à CPI da Covid, o ex-ministro afirmou ter respondido todas as correspondências da Pfizer. Além disso, Pazuello reclamou do preço das vacinas, das cláusulas contratuais e das condições de armazenamento do imunizante.

Entenda a cronologia:

  • 31 de julho de 2020 – Pfizer pede audiência urgente com o Ministério da Saúde

  • 4 de agosto – Ministério da Saúde marca reunião para 6 de agosto

  • 14 de agosto – Pfizer envia primeira proposta para o Brasil, de 70 milhões de doses

  • 17 de agosto – Pfizer envia email ao Ministério da Saúde com link para acessar documentos com informações sobre a vacina e a proposta; empresa também sinalizou ao Ministério da Economia que a proposta havia sido feita

  • 18 de agosto – Pfizer se compromete a entregar 1 milhão de doses da vacina em 2020, depois que o imunizante fosse aprovado pela Anvisa. Empresa pede urgência para a resposta

  • 19, 21, 25 e 26 de agosto – Pfizer faz contato com o Ministério e pede resposta sobre a proposta

  • 2, 12 e 15 de setembro – Pfizer faz novo contato com o governo federal e envia carta ao presidente Jair Bolsonaro

  • 14 de outubro – Pfizer envia informações ao Programa Nacional de Imunizações

  • 27 de outubro – Governo volta a se reunir com a Pfizer

  • 10 de novembro – Pfizer se reúne com Bolsonaro, Paulo Guedes e Fabio Wajngarten

  • 24 de novembro – Pfizer atualiza o acordo e afirma que validade da proposta é 7 de dezembro

  • 2 e 3 de dezembro – Pfizer tenta contato com o governo e relata que não teve resposta

  • 4 de dezembro – Ministério da Saúde faz contraproposta à Pfizer

  • 6 e 9 de dezembro – Pfizer pede reunião para discutir contraproposta e mostra que ainda é preciso editar uma medida provisória

  • 10 de dezembro – Pfizer e Brasil fecham memorando de entendimento

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos