Em um país que se esfola, a tragédia vai além dos 90 minutos

Matheus Pichonelli
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Érica Fernandes Ceschini, palmeirense morta a facadas após final da Libertadores. Marido é o principal suspeito. Foto: Instagram / Reprodução
Érica Fernandes Ceschini, palmeirense morta a facadas após final da Libertadores. Marido é o principal suspeito. Foto: Instagram / Reprodução

Em um grupo de escritores no WhatsApp, um historiador best-seller perdeu a paciência e publicou uma mensagem com conteúdo racista e homofóbico ao responder a uma provocação sobre futebol. Gremista, ele teria chamado os torcedores são-paulinos de “bambis” e os colorados, do rival Internacional, de “macacos”. O autor era tudo, menos ignorante.

Um outro escritor printou e divulgou o conteúdo, que viralizou. “É na raiva que o preconceito emerge dos seus pântanos”, escreveu.

No filme “Aspirantes”, o diretor Ives Rosenfeld acompanha a trajetória de um jovem jogador que ainda não explodiu e está perto de desistir da carreira. Tudo muda quando ele e os espectadores percebem que talento, dedicação e disciplina não bastam para se triunfar no campo da batalha esportiva. É preciso uma dose extra de raiva para vencer.

Fora de campo, as relações com o esporte e as paixões que ele envolve podem chegar ao extremo. O último e mais chocante episódio dessa combinação aconteceu em São Paulo, no último sábado (30), quando um empresário de 34 anos foi preso em flagrante após a final da Copa Libertadores da América. O homem é acusado de esfaquear a própria mulher, com quem tem filhos gêmeos, por causa de uma discussão sobre o jogo. Ela era palmeirense e ele, corintiano.

Segundo as investigações, ele teria se irritado ao ver a comemoração da companheira pela conquista do título. Ele alega ter sido atacado antes.

Não foi o primeiro e nem será o último crime motivado por futebol. Lembro quando o Palmeiras foi rebaixado para a Segunda Divisão e um casal foi parar na delegacia. O motivo: o marido palmeirense serrou com uma Makita o braço de um amigo e torcedor rival que fez troça da equipe.

Por essas e outras torcedores já não dividem o mesmo estádio em dias de clássico na cidade de São Paulo. O apertheid é a declaração da falência da nossa capacidade de convívio.

A conclusão mais óbvia é que precisamos tomar cuidado com as paixões. É como se elas tirassem de nós o que temos de pior.

O futebol é uma linguagem dominada por uma simbologia bélica. Mata-mata, jogo da vida, eliminação, final, tragédia. As palavras circulam pelo espetáculo pelo qual podemos testemunhar registros de solidariedade, dedicação, esperança, doação, coletividade. Mas também artimanhas, provocações, revides, agressões e outros reforços de uma virilidade que ora escondem a miséria fora do campo e das arquibancadas, hoje vazias.

Não é simples explicar o que faz do jogo não ser apenas um jogo.

Muito menos por que ele tira de nós o que temos de pior.

Talvez ele não tire. Apenas revele.

No Brasil, o registro das tragédias diárias mostra que não faltam razões torpes e vis para crimes como o feminicídio. O assassinato da torcedora palmeirense, infelizmente, não é notícia isolada na página de jornal. As relações de poder estão no centro deste jogo de forças desiguais; a discussão por qualquer motivo, ainda que o futebol, é só a fagulha --que poderia ser uma briga por ciúmes ou qualquer outra discussão de desfecho desumanamente desproporcional.

Nas ofensas racistas, de classe e de origem contra torcedores rivais, não exibem-se ainda os demônios que povoam agressores em 90 minutos e vão embora ao fim da rodada. Eles dormem com o inimigo e só esperam uma brecha, uma bola na trave, ou na gaveta, para se manifestar. Expele-se assim o que é alimentado silenciosamente em condições normais. A raiva é só a fagulha.

Na relação conflituosa entre futebol e princípios, há momentos em que o esporte parece ser a última etapa do processo civilizatório. Até então, ele é só a barbárie, expressa nos gritos racistas de torcedores supremacistas contra atletas negros e a perseguição ainda implacável contra quem se desviar de um padrão único de comportamento e sexualidade aceitos.

Mas há também esperanças.

Ao fim da mesma final que produziu cenas lamentáveis, inclusive aglomerações no auge de pandemia do coronavírus, o técnico do Palmeiras, o português Abel Ferreira, deu uma aula de como o futebol, como a vida, pode ser também uma travessa para a generosidade. Em vez de bater no peito e se proclamar vencedor, oferecendo bananas e coices à imprensa e à arbitragem, como se tornou comum no meio, ele agradeceu ao antecessor, Vanderlei Luxemburgo, pela montagem da equipe herdada por ele. Abel também agradeceu ao técnico Marcelo Gallardo, do River Plate, de quem reconheceu a superioridade. Foi graças a um duríssimo jogo contra os argentinos que o jovem técnico português disse ter aprendido algumas lições para as partidas seguintes.

E resumiu em uma palavra o que tinha a dizer a seus atletas: obrigado.

A postura é rara não só no meio, mas em um mundo loteado pela competitividade mais violenta, dessas que substituem a comemoração pela desforra ressentida, e vingada, contra todos os que provocaram, ofenderam, duvidaram, etc.

Derrotados e vencedores têm, a cada jogo, uma nova chance para mostrar que não precisa ser assim.