Em uma ilha abandonada no Japão, uma antiga cidade enfrenta seu passado

Vista da mineração em Hashima, que pertence à prefeitura japonesa de Nagasaki, em 20 de outubro de 2013.

Sua silhueta é lúgubre e se molda ao mar. Hashima, uma pequena ilha japonesa, hoje abandonada, era densamente povoada em 1960, e milhares de homens, mulheres e crianças trabalhavam nela, na extração de carvão.

À medida que o barco se aproxima, sob o sol da região de Nagasaki, o que parecia um gigantesco navio de guerra se transforma em prédios enormes e uma barragem.

Num show de luzes e sombras, as fachadas sem janelas e as estruturas metálicas oxidadas são o que restou da intensa industrialização, que ocorreu no Japão entre meados do século 19 e início do século 20.

A ilha, deserta desde o fechamento da mina, em 1974, se tornou em 2015 um Patrimônio da Humanidade da UNESCO. Algumas cenas do filme ‘Operação Skyfall’, de James Bond, também foram filmadas no local.

Entre os turistas que estão no barco, que fará um passeio pela ilha sob a rigorosa vigilância dos guias, está Minoru Kinoshita, de 63 anos, que veio visitar sua amada ilha, chamada Gunkanjima (ilha blindada).

“Um lugar amaldiçoado”.

“Vim aqui muitas vezes e a cada vez minha cidade natal está mais deteriorada”, lamenta Minoru Kinoshita, filho do projecionista do único cinema da ilha.

Até os 13 anos, Kinoshita morava nessa pequena ilha de 480 por 160 metros, com sua escola, piscina, mercado, lojas, hospitais, prisão…

Um mundo mágico, considerado perdido entre um labirinto de edifícios. Na ilha, a solidão não existia; não era possível viver num local onde não houvesse pelo menos quatro pessoas numa sala com seis tatames (10 a 12 metros quadrados).

No seu apogeu, em 1960, cerca de 5.300 pessoas viviam numa área de 6,3 hectares, ou seja, era uma das maiores densidades demográficas mundiais na época, de acordo com a prefeitura de Nagasaki.

Na ilha, que chega até 1.000 metros abaixo do nível do mar, os mineiros extraiam carvão em condições terríveis, 24 horas por dia, em turnos de 8 horas.

“Havia mais de 95% de umidade. O ar era úmido, pegajoso. Isso sem falar do pó de carbono que se misturava com nosso suor”, explicou Tomojo Kobata, de 79 anos, à AFP. Os acidentes eram frequentes, custando a vida de 215 homens durante os 84 anos de atividade da mina, sem mencionar os casos de doenças pulmonares.

Essa ilha misteriosa tem outra cicatriz, o trabalho forçado de chineses e coreanos durante a ocupação japonesa da Coreia, de 1910 a 1945, e de parte da China, de 1932 a 1945.

“Gunkanjima é um lugar amaldiçoado”, disse o vice-presidente da Associação Chinesa de Trabalhos Forçados, Zhang Shan, que acredita que o estatuto dado pela Unesco é uma “profanação e um choque” para as vítimas.

Em Hashima, haviam 204 trabalhadores chineses. A Mitsubishi Materials, descendente da Mitsubishi Mineradora, que retornou ao ramo em 1890, iniciou processos de compensação aos trabalhadores da instalação de mineração japonesa. Um deles espera que seja colocado um memorial no local.

O que os trabalhadores chineses querem é “um reconhecimento da história do local” por parte do governo japonês, “como aquele que está sendo feito pela Mitsubishi”, disse Zhang Shan. “Não desistiremos”, ele adverte.

Tóquio se comprometeu, em julho de 2015, a “tomar medidas que permitam o reconhecimento de que houve um grande número de coreanos e de outros trazidos contra a sua vontade e forçados a trabalhar em condições adversas, na década de 40”.

AFP
Por Ursula HYZY