Em vídeo, traficante 3N joga dinheiro para o alto em sítio onde foi morto

Carolina Heringer

RIO — Vídeos e fotos encontrados pela Subsecretaria de Inteligência (Ssinte) da Polícia Civil do Rio no celular que era usado pelo traficante Thomas Jayson Vieira Gomes, o 3N, de 26 anos, revelam uma rotina de ostentação “regada” a bebidas alcoólicas, drogas, dinheiro, mulheres e também armas no sítio onde o criminoso foi morto, localizado em Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio. O local foi usado por ele e seus comparsas como esconderijo durante cerca dois meses. O GLOBO teve acesso com exclusividade ao conteúdo do telefone do criminoso, que era considerado um dos mais procurados do Rio.

Os dados encontrados no telefone ajudam a ter uma ideia dos meses que a quadrilha de 3N passou no sítio. Em uma das filmagens, 3N aparece ao lado de um sofá repleto de notas de R$50 e R$ 20. “Quem falou que não tem show do Silvio Santos?”, ironiza o criminoso ao jogar notas para o alto e citar o apresentador de TV famoso pelo bordão “Quem quer dinheiro?”. No sofá, há ainda três fuzis e uma pistola do Flamengo customizada em meio ao dinheiro. Além dessa filmagem, há vídeos e outras gravações nos quais os criminosos exibem notas de dinheiro, a maioria delas de R$ 50 e R$ 100.

O sítio, que fica a 15 quilômetros da BR-101, conta com uma extensa área de lazer. À beira da piscina, 3N fez selfies usando uma touca para fazer luzes no cabelo. O criminoso ainda fez um vídeo no qual filmou apenas sua mão segurando um copo de bebida. “Essa aí que é minha marola. Tomar meu uisquezinho..tomar banho na minha piscina”, diz ele.

Na área externa da casa, em uma espécie de varanda, os criminosos colocaram uma caixa de som que embalava as festinhas realizadas ali. Uma das fotos que estavam no telefone mostra um dos seguranças de 3N, Alexandre de Souza Lima, o Xandinho, com duas mulheres ao fundo. Na imagem, ele esconde seu rosto, mas deixa a mostra um cordão de ouro que leva seu nome, além de um copo de bebida. Na mesma área, cujo piso imita o calçadão de Praia de Copacabana, na Zona Sul do Rio, 3N filmou os comparsas dançando ao som de forró. O traficante também tinha, no aparelho, fotos de frutos do mar - peixe e camarão - que eram consumidos por eles no sítio.

Em dois vídeos encontrados no aparelho, 3N aparece cantando uma música romântica, “Vá com Deus”, do grupo Imaginasamba. O traficante filmou a si próprio, deitado no chão e sem camisa, enquanto entoa a canção.

O traficante 3N foi morto com outros cinco comparsas no sítio em Itaboraí onde o grupo permaneceu por cerca de dois meses. Alguns deles estavam usando coletes a prova de balas quando policiais da Sisnte, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e do 7º BPM (São Gonçalo) chegaram.

Pelos vídeos encontrados no telefone de 3N, é possível perceber que os criminosos costumavam andar com colete à prova de balas dentro de casa. Em uma das gravações obtidas pelo EXTRA, dois traficantes aparecem com o acessório. Um deles é Xandinho. Logo no início da gravação, em tom de brincadeira, 3N provoca o rapaz, seu segurança, e acaba sendo jogado no sofá e, em seguida, imobilizado. Os dois criminosos brincam com um fuzil logo ao lado. Xandinho está entre os mortos na operação no sítio em Itaboraí.

As fotos e os vídeos achados no telefone que era usado por 3N antes de ser morto foram feitos entre os dias 4 e 15 de novembro. Segundo informações da polícia, o criminoso trocava de aparelho com frequência e também apagava diversos dados, principalmente conversas pelo aplicativo WhatsApp.

A Subsecretaria de Inteligência (Ssinte) vinha monitorando 3N há pelo menos seis meses. O criminoso pertencia à maior facção criminosa do Rio e comandava o tráfico de drogas na comunidade do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do estado. O traficante mudou de quadrilha em abril, após uma desavença com Antonio Ilario Ferreira, conhecido como Rabicó ou Coroa. Ele acabou perdendo o comando do Salgueiro e passou a travar guerrar para tentar dominar outras comunidades de São Gonçalo.

De acordo com as investigações da Ssinte, para elaborar os planos de invasão, 3N contava com o apoio de pelo menos cinco traficantes da facção da qual passou a fazer parte - Edson da Silva, o Edinho Caxias, chefe do tráfico no conjunto do Amarelinho, em Irajá; Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, que comanda a Cidade Alta; Bruno da Silva Loureiro, o Coronel, chefe do Muquiço; José Rodrigo Gonçalves Silva, o Sabão, chefe do tráfico na Vila Aliança e no Sabão; e Thiago da Silva Folly, o TH, que comanda o tráfico na Maré.