Em vez de ajudar, dólar alto está é atrapalhando exportações, diz associação

José Augusto Castro, presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior do Brasil. Foto: Erik Barros Pintos/AEB

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Dólar alto deveria ser bom para exportações, já que empresas do exterior compram mais produtos com o real fraco, mas instabilidade dificulta negócios na prática.

  • Declaração do ministro da Economia provocou especulação com dólar, afirma presidente de associação, que prevê que dólar deve voltar ao nível de R$ 4,10.

A instabilidade do real frente ao dólar tende mais a atrapalhar que ajudar os empresários brasileiros a colocarem produtos no mercado internacional. A avaliação é do presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, em entrevista ao portal UOL.

A entidade representa há 50 anos o segmento empresarial de exportação e importação de mercadorias e serviços.

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Segundo Castro, o senso comum é o de que o dólar alto e batendo recordes, como aconteceu nesta semana – a moeda fechou novembro com valorização de quase 6% -- , seja bom para as exportações, já que as empresas do exterior poderiam negociar com moeda estrangeira e comprar mais produtos brasileiros.

No entanto, diz o dirigente, os exportadores não estão felizes e dizem estar vendendo menos para o exterior.

"A verdade é que esse câmbio mais atrapalha que ajuda o exportador, especialmente o de manufatura", disse Castro, segundo o qual as oscilações do dólar dificultam o fechamento de negócios porque fica mais difícil encontrar um preço de equilíbrio que agrade importador e exportador. Para ele, houve especulação com o dólar a partir de declarações do ministro Paulo Guedes (Economia), mas a moeda deve recuar para o nível de R$ 4,10.

“O que acontece é que os importadores veem o que está acontecendo aqui, acham que o exportador está ganhando mais e já pedem desconto, porque acham que o exportador tem mais margem para negociar”, complementa.

Até outubro, as vendas de produtos brasileiros para o exterior neste ano somam US$ 185,5 bilhões, uma queda de 6,8% em relação ao mesmo período de 2018.

Indagado sobre quais segmentos da atividade econômica estão sendo mais e menos afetados ou beneficiados, Castro citou o exportador de manufatura.

“Quem exporta muitas vezes tem que importar insumos, como forma de reduzir custos. Para quem exporta para a Argentina, o câmbio favorável também não muda nada. Isso porque a Argentina está em crise e está importando apenas o básico. Pela primeira vez em anos, devemos ter déficit com a Argentina”, exemplificou.

Ele mencionou também o setor de commodities, para o qual “o dólar alto é favorável e há sim um ganho”. “Isso porque o preço das commodities é definido no mercado internacional, em dólar. Como esse setor no Brasil é competitivo em relação aos outros produtores mundiais, ele sempre terá preços competitivos.”

O dirigente não se disse otimista para os próximos meses, mas destacou que acredita em uma situação melhor em 2021.

“Os dados do comércio exterior pioraram e vão piorar mais. Isso por causa da queda das exportações de minério, de petróleo, do fim da safra de soja, com peste suína na China, que está importando menos grãos para alimentar os porcos. Isso tudo deve prevalecer em 2020”, disse, para concluir: “Minha expectativa é que em 2021 a gente veja o ano da virada em manufatura.”