Em viagem ao Irã, Putin agradece a Erdogan por negociações com a Ucrânia sobre grãos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou nesta terça-feira (19) que a negociação em torno das exportações de grãos da Ucrânia no mar Negro teve avanços. Ele agradeceu ao homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, pela condução das tratativas. Na segunda viagem ao exterior desde o início do conflito na Europa, o russo desembarcou no Irã, onde também se reuniu com o líder supremo iraniano, Ali Khamenei.

A paralisia no comércio de grãos tem levado a uma alta dos preços no mundo e intensificado a crise alimentar. "Fizemos progressos graças à mediação [turca]. É verdade que nem todos os problemas foram resolvidos, mas há movimentos, e isso é bom", disse o chefe do Kremlin.

O líder russo voltou a discutir com Erdogan o estabelecimento de corredores marítimos para escoar a produção. Na última sexta (15), o Ministério da Defesa da Rússia afirmou que o governo elabora um documento final para autorizar a exportação dos grãos e que a papelada deve ficar pronta em breve. Em contrapartida, Putin pediu ao Ocidente o relaxamento de sanções contra Moscou.

Khamenei endossou o discurso do aliado russo e afirmou que Moscou não tinha alternativa senão lançar a ofensiva contra a Ucrânia em fevereiro. "Se você [Putin] não tivesse tomado a iniciativa, o outro lado [Ocidente] teria causado a guerra", disse o iraniano, que ainda defendeu a retirada gradual do dólar americano no comércio global e pediu mais cooperação entre Teerã e Moscou.

Mais do que a discussão de propostas para impasses decorrentes da guerra, a missão de Putin no exterior soa como resposta ao presidente dos EUA, Joe Biden, que visitou na semana passada Israel e Arábia Saudita numa tentativa de combater a influência do Irã e da Rússia no Oriente Médio.

Na semana passada, o assessor de segurança nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, afirmou que Teerã planeja fornecer a Moscou drones que podem ser equipados com armas de combate para uso na Ucrânia, o que foi negado pelo Kremlin.

Ao mesmo tempo, Teerã e Moscou tentam unir esforços para mitigar os efeitos das sanções impostas por países do Ocidente. Enquanto russos veem restrições se intensificarem com a Guerra da Ucrânia, iranianos são alvo de punições devido ao desenvolvimento de seu programa nuclear.

Autoridades de Teerã consideram que estreitar os laços com Moscou pode forçar os EUA a retomar o acordo nuclear de 2015 —em Israel, Biden sinalizou que almeja reviver o pacto e destacou que hoje vê os persas mais próximos de desenvolver uma arma do tipo.

Um novo trato entre EUA e Irã poderia suspender ao menos parte das sanções internacionais e aliviar a pressão econômica sobre Teerã. Nos últimos meses, a aproximação da Rússia com a China provocou a redução das exportações de petróleo de Teerã para Pequim –importante fonte de renda para os iranianos desde que o ex-presidente dos EUA Donald Trump reimpôs restrições em 2018.

Embora Putin tenha relatado avanços nas negociações para destravar os grãos da Ucrânia, o imbróglio ainda não foi resolvido —tampouco o fim dos confrontos parece próximo. O russo voltou a dizer que não vê esforços de Kiev para cumprir o que ele chamou de acordo de paz preliminar, que teria sido firmado em março durante encontro entre as delegações dos dois países. Segundo ele, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos também se oferecem para mediar o conflito.

Putin e Erdogan ainda discutiram, com o presidente Ebrahim Raisi, o conflito na Síria, devastada por uma guerra civil que se prolonga por mais de dez anos. Nos últimos dias, a Turquia ameaçou lançar mais operações militares para estender o que chamou de zonas seguras no país do Oriente Médio, o que é rechaçado por Moscou e Teerã, apoiadores do ditador sírio, Bashar al-Assad.

"Manter a integridade territorial da Síria é muito importante, e qualquer ataque militar no norte do país certamente prejudicará a região, além de beneficiar organizações terroristas", disse Khamenei a Erdogan. Ancara apoia rebeldes e quer conquistar a parte norte do território, o que enfraqueceria a reivindicação curda por um Estado independente.

Ao fim do dia, Putin disse que os líderes concordaram em manter conversas sobre Damasco e classificou o encontro de útil e instrutivo. "Discutimos pontos-chave da nossa coordenação em relação à Síria. Nos últimos anos, a ameaça terrorista diminuiu [...] graças aos nossos esforços", disse, em discurso transmitido pela TV russa.

Antes do Irã, a primeira viagem internacional de Putin desde o início da Guerra da Ucrânia ocorreu no mês passado, para Tadjiquistão e Turcomenistão, em encontros com líderes da Ásia Central. Dias antes do conflito estourar ele havia ido à China.

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