Em visita ao Irã, Putin tenta fortalecer alianças e mostrar ao Ocidente que Rússia não está isolada

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O presidente russo Vladimir Putin chega ao Irã nesta terça-feira, em uma visita que servirá para fortalecer a parceria entre os dois países e, em seu ponto mais importante, mostrar que a Rússia não está isolada no cenário internacional por causa da guerra na Ucrânia, mesmo diante de toda a pressão do Ocidente, liderada pelos Estados Unidos.

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Na viagem, a primeira de Putin a um país de fora da antiga União Soviética desde o início do conflito em fevereiro, o presidente russo vai se reunir com Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, que também estará em Teerã, e terá um encontro com o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei — desde a chegada de Putin ao poder, em 2000, os dois se reuniram cinco vezes. Na pauta bilateral, discussões sobre um plano de cooperação de 20 anos, que pode ser assinado na visita, e ações para incrementar os laços comerciais e políticos, incluindo no campo militar.

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Na semana passada, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, afirmou que a Rússia estava negociando a compra de “centenas” de drones iranianos, que seriam usados na Ucrânia. De acordo com Washington, representantes do governo russo visitaram, em pelo menos duas ocasiões, centros de produção dessas aeronaves, mas ainda não há informações se elas já começaram a ser enviadas para Moscou.

Russos e iranianos negam as informações, mencionando que a cooperação militar entre os dois vem de antes do início do conflito — analistas também questionam a disponibilidade de “centenas” de drones iranianos, e a capacidade de Teerã, também sob sanções econômicas dos EUA, de realizar uma venda de tal escala a outro Estado. Também não há sinais de que o governo iraniano esteja disposto a entrar no conflito na Ucrânia, mesmo que indiretamente.

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O Irã se absteve na votação na Assembleia Geral da ONU que condenou a invasão, no início de março, e defende uma solução diplomática para o conflito. Mas, na sexta-feira, o chanceler Hossein Amir-Abdollahian conversou por telefone com o chefe da diplomacia ucraniana, Dmytro Kuleba, e expressou sua “oposição ao ataque da Rússia na Ucrânia”, como relatado pela agência Fars.

Em outro ponto de tensão, Irã e Rússia devem discutir a situação do setor petrolífero: com a guerra e o fechamento de alguns mercados ao produto russo, por pressão dos EUA, Moscou passou a vender mais para países onde os iranianos tinham presença consolidada, como a China. Essa mudança levou a uma queda considerável nas exportações iranianas, já duramente atingidas pelas sanções americanas.

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A guerra no Leste Europeu também estará sobre a mesa nas discussões com Erdogan, representante de um país que é membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar liderada pelos EUA, mas que tem uma posição própria no conflito.

A Turquia não se juntou aos parceiros ocidentais na adoção de sanções, e manteve abertos seus canais diplomáticos com Moscou — ao mesmo tempo, não se afastou de Kiev, e seus drones Bayraktar TB-2 estão sendo usados pelas forças de defesa ucranianas, com grande sucesso, para conter avanços russos.

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Em Teerã, Erdogan e Putin devem abordar ações para aliviar o bloqueio naval aos portos ucranianos no Mar Negro. Moscou e Kiev trocam acusações sobre a responsabilidade pela suspensão das exportações ucranianas de trigo e milho para dezenas de países, cenário apontado pela ONU como de sério risco para a segurança alimentar de milhões de pessoas.

Na semana passada, depois de uma reunião em Ancara, a capital turca, entre emissários russos e ucranianos, a Turquia disse que os dois lados tinham concordado, “em princípio”, com o estabelecimento de um corredor marítimo para o escoamento dos grãos, e uma nova reunião está prevista para esta quarta-feira.

Além da Ucrânia, os três líderes vão discutir o conflito na Síria: Teerã e Moscou apoiam o presidente Bashar al-Assad, enquanto Erdogan fornece ajuda militar a milícias de oposição e luta contra forças curdas, que chama de grupos “terroristas”.

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Há alguns meses, o líder turco vem anunciando uma operação militar contra os curdos, mas tem sido cuidadoso ao falar sobre datas — para analistas, a presença dele em Teerã seria uma forma de obter o “aval” de russos e iranianos, que estão presentes nas áreas que seriam atacadas em uma potencial ofensiva.

Sem isolamento

A presença de Putin em Teerã serve como um recado ao Ocidente: a Rússia, apesar das sanções, suspensões de organizações internacionais e críticas em organismos multilaterais, não é um país isolado, como queriam as lideranças em Washington e Bruxelas, sede da União Europeia.

Nos últimos meses, já em meio à guerra, ele não deixou de receber lideranças de todos os continentes — no final de junho, o presidente indonésio, Joko Widodo, foi até Moscou, onde pareceu dissipar uma iniciativa ocidental para impedir a participação do líder russo na reunião de cúpula do G20, que este ano será realizada na Ilha de Bali.

Em uma das reuniões preparatórias para a cúpula, o encontro de chanceleres, no início de julho, houve uma tentativa dos EUA e aliados de isolar o representante russo, Sergei Lavrov. De fato, ele foi criticado em sessões sobre a guerra na Ucrânia, mas foi um dos diplomatas mais procurados para reuniões: na agenda, encontros com representantes de Brasil, Índia, Turquia, Argentina, Indonésia e China.

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Durante as reuniões com Khamenei e com Ebrahim Raisi, o presidente iraniano, Putin deve ressaltar a importância de fortalecer ações e discursos para se contrapor ao Ocidente, no momento em que Teerã e Moscou veem os EUA buscando recuperar espaço no Oriente Médio.

Na semana passada, o presidente americano Joe Biden foi a Israel e à Arábia Saudita, e defendeu o fortalecimento de uma frente para conter o que vê como “presença agressiva” do Irã na região. Além disso, Biden ressaltou, em mais de uma ocasião, que estava disposto a fazer o possível para evitar a expansão das presenças russa e chinesa no Oriente Médio.

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