Em votação apertada, PT decide apoiar Baleia Rossi, candidato de Maia, na eleição da Câmara

GUSTAVO URIBE
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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.11.2019 - A deputada federal Gleisi Hoffmann discursa após ser reeleita presidente nacional do PT (Partido dos Trabalhadores) na Casa de Portugal, no bairro da Liberdade, na região central de São Paulo. (Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress) ORG XMIT: AGEN1911241918693766
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.11.2019 - A deputada federal Gleisi Hoffmann discursa após ser reeleita presidente nacional do PT (Partido dos Trabalhadores) na Casa de Portugal, no bairro da Liberdade, na região central de São Paulo. (Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress) ORG XMIT: AGEN1911241918693766

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A bancada do PT, a maior da Câmara, com 52 deputados, decidiu nesta segunda-feira (4) apoiar a candidatura de Baleia Rossi (MDB-SP) ao comando da Casa. Ele é o candidato do atual presidente, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Em reunião da bancada feita por videoconferência, a maioria dos deputados petistas votou pelo apoio ao candidato emedebista. O placar, no entanto, foi apertado: de 27 votos a favor e 23 por uma candidatura própria ou por mais tempo para discussão.

No final da tarde, o PT decidiu que o anúncio de apoio será feito em conjunto com PSB, PDT, PC do B e Rede nesta quarta-feira (6), durante o lançamento oficial da candidatura de Baleia na Câmara.

O apoio do PT é reconhecido até mesmo por integrantes do Palácio do Planalto como um revés para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Ele apoia o nome do principal adversário de Baleia, o líder do centrão, Arthur Lira (PP-AL).

Agora, Baleia tem trabalhado para atrair até quarta-feira o apoio também do PSOL, cuja bancada é formada por dez deputados.

A tendência mais forte da sigla, no entanto, é lançar candidatura própria, apesar de haver dissidências internas. Ao Painel, a líder do partido na Câmara, Sâmia Bonfim (SP), classificou Lira como um "perigo real". “Acho ruim o PSOL ser identificado como a sigla que não atuou ativamente para derrotá-lo."

O candidato de Maia também tem dialogado com o Solidariedade, que indicou apoio a Lira. A bancada do partido deve fazer nova reunião na semana que vem. Como há também dissidências internas, há chance de mudança de posição.

Com a decisão do PT, Baleia conta agora com o apoio de um conjunto de partidos que soma 278 parlamentares. Já Lira tem o respaldo de siglas que totalizam 206 deputados. Para vencer a eleição, marcada para o início de fevereiro, é necessário ter ao menos 257 votos.

A sinalização de apoio, no entanto, não significa a adesão completa da bancada da sigla à chapa eleitoral. Isso porque elas só se tornam oficiais após o registro da candidatura, na véspera da votação, e as legendas podem mudar de posição até lá.

Além disso, o voto é secreto, podendo haver traições de deputados à decisão oficial da bancada. Nos bastidores, por exemplo, já são contabilizadas traições em legendas como PSL, PC do B e até mesmo no PT, entre aqueles que votaram contra o apoio a Baleia.

No ano passado, o PSL suspendeu 12 deputados ligados ao presidente Bolsonaro em meio ao racha da legenda. Esses parlamentares, entre eles Eduardo Bolsonaro (SP), devem votar em Lira para a presidência da Câmara.

Com a decisão do PT, a expectativa é de que a legenda indique o primeiro vice-presidente ou o primeiro secretário na chapa de Baleia. O acordo interno é para que o nome escolhido não seja da tendência Construindo um Novo Brasil, já que o posto de líder da legenda já é hoje ocupado pelo grupo majoritário.

Em nota, o PT afirmou que decidiu apoiar Baleia por causa de compromissos firmados por ele em reunião com o bloco de oposição. Segundo a legenda, ele sinalizou a "defesa da democracia, da independência do Poder Legislativo e de uma agenda legislativa que contemple direitos essenciais da população".

O partido listou, entre outros pontos, que Baleia sinalizou que pautará projetos que garantam o acesso universal à vacina contra a Covid-19, a ampliação do Bolsa Família, a geração de emprego, o fim do arrocho salarial e a tributação sobre a renda dos mais ricos.

"A bancada do PT decidiu apoiar a candidatura de Baleia Rossi e apresentou uma pauta de reivindicações que passam pela vacinação para todos, a renovação do auxílio emergencial, o fim das privatizações e o impeachment do presidente [Bolsonaro]", disse o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP).

A sigla ressaltou ainda no documento que a aliança com o MDB é necessária para "derrotar as pretensões de Jair Bolsonaro de controlar a Câmara dos Deputados" e fez questão de salientar que diverge politicamente e ideologicamente de outros partidos que fazem parte do bloco construído por Maia.

"O PT tem bastante claro que a aliança com partidos dos quais divergimos politicamente, ideologicamente e ao longo do processo histórico se dá exclusivamente em torno da eleição da Mesa Diretora da Câmara, não se estendendo a qualquer outro tipo de entendimento, muito menos às eleições presidenciais", disse.

A disputa presidencial de 2022 foi citada no documento após entrevista concedida por Maia ao jornal Folha de S.Paulo, em dezembro, ter causado irritação na bancada petista.

O atual presidente da Câmara afirmou que o bloco de apoio a Baleia é um sinal forte sobre uma aliança de esquerda e centro para a eleição presidencial de 2022. ​O PT, porém, já deixou claro que pretende lançar candidatura própria.

"Acho que isso é o que esse bloco mostra, que a gente é capaz, mesmo tendo muitas diferenças em muitos temas, de sentar numa mesa e discutir a nossa democracia e o interesse do Brasil. Eu acho que é um sinal forte de que parte desse bloco pode estar junto em 2022. Nós demos o grande passo para reduzir de vez a radicalização da política brasileira", afirmou Maia na entrevista.

A presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), afirmou após a publicação da entrevista que "o PT dialoga para a eleição da Mesa da Câmara porque tem a maior bancada da Casa e responsabilidade com o país. Age para conter danos. Isso não se confunde com 2022. O projeto de país defendido pela esquerda confronta com a frente eleitoral de agenda neoliberal, que esquece do povo".

No bloco de apoio ao candidato do MDB, o PT era a sigla que apresentava mais resistências internas ao acordo. Para integrantes do partido, faltou a Baleia ser mais enfático no compromisso de que respeitará o princípio da proporcionalidade na distribuição de cargos e de que aceitará a convocação de ministros do governo Bolsonaro.

Uma parcela da legenda também argumentava que o partido não deveria apoiar um candidato de uma sigla que defendeu o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).​

Em encontro promovido com Baleia, na semana passada, partidos de oposição entregaram uma carta com compromissos que esperam que sejam adotados pelo candidato caso ele seja eleito. Segundo deputados presentes, o emedebista demonstrou disposição de cumpri-los.

Um deles é de se posicionar contra "ataques autoritários" de Bolsonaro "que façam apologia da ditadura, da tortura e do arbítrio" e "não pautar projetos de cunho antidemocrático". O documento também defendia que sejam apreciados decretos legislativos "que visem a impedir que o Poder Executivo exorbite ou desvie de seu poder regulamentar para driblar, esvaziar ou burlar leis".