Embaixador repassou a Bolsonaro relatos de fraude na eleição dos EUA, diz jornal

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BAURU, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro demorou 38 dias após o fim da votação que elegeu Joe Biden para reconhecer publicamente a derrota de Donald Trump e parabenizar o democrata pela vitória no pleito. O atraso pode ter sido resultado de informações imprecisas e "relatos de fraudes" que o líder brasileiro recebeu do embaixador do Brasil nos EUA, Nestor Forster, de acordo com reportagem publicada nesta quarta-feira (16) pelo jornal O Estado de S. Paulo. Forster, aprovado em setembro pelo Senado para assumir o posto em Washington, teria se baseado em "análises e notícias falsas" ao enviar telegramas a Brasília que "enfatizavam a desconfiança no processo eleitoral" americano -o jornal teve acesso ao material por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). Segundo a reportagem, o embaixador enviou ao menos cinco telegramas entre os dias 5 e 12 de novembro. Em algumas das mensagens, Forster fez constatações de fatos já conhecidos, como a disposição de Trump de levar a disputa à Justiça caso o resultado indicasse sua derrota; em outras, o diplomata abasteceu Bolsonaro com relatos de supostas fraudes no pleito americano, impulsionados por denúncias infundadas do republicano, que não apresentou evidências de qualquer irregularidade. Na noite do dia 6, Forster escreveu ao Planalto dizendo que "estreitas margens tornam quase certos processos de recontagens e ações judiciais adicionais" -em alguns estados americanos, a recontagem é automática se for muito pequena a diferença de votos entre os dois candidatos mais votados. "A campanha do presidente Donald Trump já robustece sua assessoria legal para promover a recontagem nos estados-chave e ações judiciais relativas a percebidas irregularidades e denúncias de fraude na apuração de votos", escreveu o embaixador, horas antes de Biden ser projetado como presidente eleito pela imprensa americana. Ainda na véspera da declaração de vitória de Biden, Forster enviou um alerta a Brasília sobre "diversos relatos" de irregularidades nos processos de votação e apuração em estados decisivos na corrida presidencial, como Michigan, Pensilvânia, Arizona e Nevada. Nos telegramas, o diplomata não citou as fontes de tais relatos, mas seguiu abastecendo o Planalto com menções a práticas como "tráficos de cédulas eleitorais em pequena escala", "intimidação e restrição de acesso de observadores eleitorais a locais de contagem de votos" e recursos de segurança "insuficientes" para o processo de verificação das cédulas enviadas pelo correio. O voto por correspondência foi o principal alvo das acusações de Trump e do Partido Republicano, embora a modalidade postal seja utilizada há décadas nos EUA, com baixíssimos índices de fraude. Ao mencionar a ação judicial movida na Pensilvânia pelo ex-prefeito de Nova York e advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, Forster diz que a argumentação da campanha republicana se baseava no fato de que os eleitores americanos "foram tratados de maneira distinta". "Os votos depositados pessoalmente teriam sido submetidos a critérios de transparência e verificação, ao passo que 'a massa de votos' enviada pelo correio estaria 'envolta em obscuridade'", escreveu o diplomata. No dia 12 de novembro, Forster informou Brasília sobre as felicitações enviadas cinco dias antes por líderes de países como Reino Unido, Alemanha e França -àquela altura, é provável que Bolsonaro já tivesse conhecimento sobre esse fato. O presidente brasileiro, no mesmo dia, seguiu em silêncio sobre a vitória de Biden e, durante uma conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, questionou de forma irônica se a disputa pela Casa Branca já havia terminado. No último dia 29, depois de votar no segundo turno das eleições municipais no Rio de Janeiro, Bolsonaro disse que "realmente teve muita fraude lá", em referência ao pleito americano. "Isso ninguém discute, tenho minhas fontes. Se foi suficiente para definir um ou outro, eu não sei", disse. Bolsonaro apoiou e torceu pela reeleição de Trump e, durante 38 dias, fez parte de um restrito grupo de lideranças que não enviaram felicitações a Biden, ocupado agora apenas pelo ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un. Na última segunda-feira (14), o Colégio Eleitoral dos EUA certificou a vitória do democrata e deu o penúltimo passo em direção à oficialização do resultado. Os presidentes da Rússia e do México, que também não haviam reconhecido publicamente o triunfo de Biden, só se manifestaram depois dessa etapa, na manhã desta terça-feira (15). A declaração de Bolsonaro veio durante a tarde em entrevista ao programa "Brasil Urgente", da Band. "Alguns minutos antes de entrar no ar eu já dei um 'start' para o nosso ministro Ernesto Araújo [Relações Exteriores], para ele fazer essa comunicação nossa, nas redes oficiais do governo. Depois, nas minhas redes particulares", disse o presidente brasileiro. "Da minha parte, e da parte dele [Biden] com toda certeza, o americano é pragmático, vamos fazer um trabalho de cada vez mais aproximação", afirmou Bolsonaro. O brasileiro disse ainda que, após o reconhecimento dos delegados do Colégio Eleitoral, não irá mais discutir se o pleito americano foi "tranquilo", em referência às acusações de fraude feitas por Trump. As rusgas entre Bolsonaro e Biden não se limitam ao apoio do líder brasileiro a Trump. Durante o primeiro debate presidencial, o democrata disse que "a floresta tropical no Brasil está sendo destruída" e que poderia impor sanções ao Brasil e mobilizar até US$ 20 bilhões (R$ 108,4 bilhões) para ajudar na proteção da Amazônia. À época, Bolsonaro classificou a fala como lamentável. Quatro dias após a projeção da vitória de Biden, Bolsonaro chegou a afirmar que "tem que ter pólvora" para fazer frente a candidato a chefe de Estado que quer impor sanção por causa da Amazônia. Assim, levou mais de um mês para cumprimentar o presidente eleito dos EUA, contrariando uma tradição de líderes brasileiros, que não tardaram em enviar cumprimentos a outros americanos recém-eleitos.