Emicida: ‘A democracia é sabotada pelo racismo todos os dias’

Alma Preta
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No programa Roda Viva, da TV Cultura, o rapper e empresário comentou o cenário político do país e questionou o distanciamento de alguns grupos progressistas da realidade das ruas. Foto: Júlia Rodrigues/Divulgação
No programa Roda Viva, da TV Cultura, o rapper e empresário comentou o cenário político do país e questionou o distanciamento de alguns grupos progressistas da realidade das ruas. Foto: Júlia Rodrigues/Divulgação

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

O rapper e empresário Emicida não poupou argumentos e exemplos para questionar os estereótipos enraizados na política brasileira e como é importante reverenciar a luta do movimento negro contra o racismo no Brasil.

Leandro Roque de Oliveira, que completa 35 anos de idade daqui a um mês, nasceu no mesmo ano do fim da ditadura militar e quando a redemocratização dava os primeiros passos, em 1985. Na avaliação do músico, no entanto, para o Brasil ser um país democrático ainda precisa superar o racismo. “A democracia é sabotada pelo racismo todos os dias”, diz.

O racismo estrutural, que é legitimado e alicerça as relações sociais, políticas e econômica do Brasil, na avaliação de Emicida, não é o foco de uma parcela que se anuncia progressista e está no protagonismo da esquerda.

“Esse é um ponto-cego que não é novo no pensamento de esquerda, outros intelectuais ligados aos movimentos de esquerda já fizeram essa provocação internamente, isso precisa estar na bússola deles para produzir, de fato, a transformação que eles querem. Senão, a vitória deles vai representar a manutenção dessa democracia assassina que está aí”, considera.

Para o rapper e empresário, o verdadeiro poder da transformação está vinculado à organização e às políticas produzidas dentro do movimento negro brasileiro, que atua há décadas no Brasil. “A luta antirracista no Brasil não começou agora, ela não é uma luta de cinco anos, os movimentos intelectuais e as associações elaboraram projetos e se hoje a gente está nessa condição em que eu posso dizer que, se algum avanço aconteceu, é por fruto da luta da Sueli Carneiro, Abdias do Nascimento, Maria Beatriz Nascimento, Clóvis Moura, Lélia Gonzalez. A gente é resultado dessas conquistas. Essas conquistas produziram mobilização de uma maneira organizada”, salienta.

Este ano, o rapper foi uma das figuras que assinou o Manifesto “Com Racismo não há Democracia”. “Fortalecer a luta antirracista neste momento é fortalecer certas coalizões, como as dos nossos irmãos que estão se organização de uma maneira séria, tipo o Douglas Belchior, na Coalizão Negra por Direitos, com o manifesto ‘Com Racismo não há Democracia’. Esse tipo de fortalecimento é muito necessário”, explica.

Durante a entrevista à bancada do Roda Viva, Emicida também falou sobre o discurso distanciado de uma parcela da esquerda, ao lembrar o clima dos comentários de um grupo de WhatsApp, criado para apoiar uma campanha do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ). “As pessoas que se nomeiam progressistas dizem ‘eu vou falar com a minha empregada’ ou ‘ah, eu vou falar com o porteiro do meu prédio’ e ‘os evangélicos não conseguem raciocinar’. Essa distância entre essas pessoas e o povo nas ruas é muito perigosa”, afirma.

O problema neste caso, segundo Emicida, é gerar mais preconceito e menos democracia. “Não dá pra entrar de sola e acreditar que todo irmão que está com a bíblia debaixo do braço, que conseguiu largar as drogas, sair da cadeia, largar o crime, parar de bater na esposa e todas as outras mazelas, que todos eles são iguais ao Edir Macedo ou o Silas Malafaia”, sustenta.

Protestos antirracistas

O rapper e empresário também falou sobre a violência policial e as críticas que recebeu nas redes sociais por não ter participado presencialmente das manifestações do movimento “Vidas Negras Importam”, em São Paulo, após o assassinato do norte americano George Floyd, em maio, na cidade de Minneapolis, nos EUA.

“Para nós, que sentimos o peso dessa estrutura racista na pele todos os dias, infelizmente, não há novidade em ver uma imagem como a do George Floyd, como a daquela senhora em Parelheiros que o policial pisou no pescoço”, justifica.

Emicida rebateu o tom a respeito de como foi questionado por optar pelo isolamento social, seguindo as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e se engajando em outras frentes de luta. “Não me coloquei como contrário ou com a opinião de que as manifestações antirracistas fossem desnecessárias. Porém, o grupo de pessoas que se anuncia como progressista coloca o dedo na minha cara e diz ‘o Emicida só está dizendo isso aí porque ele não leu tal coisa’. Então existe alguma coisa no imaginário dessa pessoa onde alguém com as minhas características é um extremo ignorante. Uma pessoa movida pela cegueira, pela paixão, que é condicionado pela vontade dos outros”, pontua.

Ao falar sobre o combate ao racismo no Brasil, Emicida avalia ainda que existe a necessidade de um aprofundamento nas particularidades do país. “São movimentações como a do Movimento Negro Unificado (MNU) que compreendem a complexidade da experiência brasileira, e elaboram projetos e práticas políticas baseadas na experiência brasileira, que é bastante específica. Embora tenha similaridades, não pode ser entendida só como uma versão do que acontece nos EUA. Aqui a situação é bastante complexa”, considera.

A violência policial dentro da sociedade brasileira, configurada em uma lógica racista, faz parte dessa complexidade que resulta no genocídio da população negra, conforme define o artista. “A corporação policial no Brasil é elaborada com o propósito de defender a propriedade privada das possíveis ameaças produzidas pelos pobres e os de pele escura. Isso está nos documentos históricos. A polícia é a que mais mata e a que mais morre e tem pessoas negras nas duas pontas do revólver”, conclui.