Emir do Qatar não disse na abertura da Copa que eleição do Brasil foi roubada

Emir do Qatar discursando na cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 2022 (Foto: Reuters / Dylan Martinez)
Emir do Qatar discursando na cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 2022 (Foto: Reuters / Dylan Martinez)
  • Circula nas redes sociais que o emir do Qatar teria falado sobre as eleições do Brasil em seu discurso de abertura na Copa do Mundo 2022

  • Segundo os conteúdos, ele teria denunciado uma suposta fraude e incentivado manifestações contrárias ao resultado

  • Mas a tradução que circula é falsa

Usuários espalham nas redes sociais que o emir do Qatar, Tamim bin Hamad al-Thani, teria denunciado uma suposta fraude nas eleições do Brasil em seu discurso na abertura da Copa do Mundo deste ano. Os conteúdos também espalham que ele teria incentivado o povo a seguir se manifestando contra o resultado do pleito e chamado o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de ladrão.

"No Brasil está acontecendo uma coisa muito grave e todos precisam saber. Ouçam. As eleições lá foram roubadas e como consequência queremos prestar nossa solidariedade ao povo [...]. Os patriotas, queremos incentivá-los a não desistir a lutarem pelos seus ideais, serem fortes e resistentes, não aceitem serem enganados e que não permitam que a esquerda tome o poder de forma fraudulenta com eleições roubadas, não permitam que um ladrão condenado, corrupto, sem vergonha chegue novamente a Presidência da República", teria dito o emir em seu discurso na abertura do evento segundo os boatos que circulam nas redes.

Mas a informação é falsa e a tradução foi manipulada. Em seu discurso, o emir não chegou a mencionar o Brasil, Lula ou qualquer questão política brasileira.

Captura de tela de um vídeo com uma tradução manipulada do discurso de abertura da Copa do Mundo feito pelo emir do Qatar (Foto: Facebook / Reprodução)
Captura de tela de um vídeo com uma tradução manipulada do discurso de abertura da Copa do Mundo feito pelo emir do Qatar (Foto: Facebook / Reprodução)

Na transcrição completa do discurso de Tamim bin Hamad al-Thani não há qualquer menção às eleições do Brasil ou a Lula. O emir do Qatar iniciou sua fala citando os esforços do país para garantir o sucesso da Copa, se referiu ao evento como um espaço de "diálogo e civilização" que reúne pessoas de diferentes culturas e nacionalidades e desejou sucesso e espírito esportivo a todas as seleções participantes.

Na transmissão do SporTV da cerimônia de abertura, o discurso do emir foi traduzido de maneira simultânea para o português e não houve qualquer menção aos temas apontados pelos conteúdos falsos que circulam nas redes sociais. Em outros vídeos com legendas traduzidas para o inglês, publicados no YouTube, o conteúdo é semelhante ao da tradução noticiada por veículos de imprensa.

Para conferir a transcrição completa do discurso, clique aqui.

Outros boatos sobre a Copa do Mundo do Catar foram verificados pelo Yahoo! Notícias, como de que a Nike teria vetado nomes cristãos de camisas personalizadas da Seleção Brasileira e o vídeo de uma suposta pegadinha de estrangeiros com árabes no Catar.

Há indícios de fraude nas eleições?

É falso que qualquer fraude nas urnas tenha sido comprovada. Ao contrário, instituições que atuaram como observadores nas eleições brasileiras reforçaram a credibilidade do sistema.

Uma delas foi a Uniore (Missão da União Interamericana de Organismos Eleitorais), que não identificou maiores problemas no funcionamento das urnas e considerou a eleição brasileira como exemplar para a América Latina. A Rojae-CPLP (Rede dos Órgãos Jurisdicionais e de Administração Eleitoral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) também afirmou que a utilização de meios eletrônicos de votação "revelou-se segura, confiável e credível". O observador concluiu que as eleições brasileiras foram "livres, justas e democráticas".

O International IDEA (Instituto para a Democracia e Assistência Eleitoral) elogiou a imparcialidade do TSE e ressaltou a confiabilidade das urnas. A instituição defendeu que a democracia brasileira se fortaleceu com o processo eleitoral e classificou os ataques ao funcionamento das urnas como controvérsias "desnecessárias". O TCU (Tribunal de Contas da União) realizou uma auditoria do sistema eletrônico de votação e não identificou qualquer divergência nas mais de 5 milhões de informações de boletins de urna que analisou.