Empobrecidas, famílias precisam recorrer a refeições doadas para combater a fome

Aos 86 anos, Roberta Martins Barbosa mora sozinha, paga aluguel na Rua Silvio Romero, entre a Lapa e Santa Teresa, e se orgulha de sua independência. Mas a aposentada, com uma renda fixa de cerca de R$ 1.200 mensais, viu seu ideal de conseguir se manter sem a ajuda de ninguém ameaçado pela corrosão de seu poder de compra, engolido pela inflação. Para piorar, o complemento da renda como camelô na Rua do Catete e em feiras do Rio ficou meses impedido pela pandemia. As dívidas se acumularam, ela teve que recorrer a um empréstimo e, quando o movimento nas ruas voltou, em vez das roupas de fabricantes de Petrópolis, teve que trocar as mercadorias por peças usadas, numa espécie de brechó na rua. Há cerca de seis meses, não teve outro jeito: para comer e manter as outras despesas, a idosa passou a encarar as filas de doações de quentinhas para pessoas em situação de rua na região central do Rio.

— Com essa carestia, eu economizo não só na comida, mas no gás também. Hoje, simplesmente vou no mercado e o dinheiro não dá para comprar quase nada — lamenta ela.

E essa tem sido uma realidade que tem se tornado mais comum do que se imagina. Mesmo com renda e/ou trabalho, mais gente tem recorrido às doações para se alimentar. Um quadro que espelha os dados revelados em pesquisa divulgada quinta-feira durante o Encontro Nacional Contra a Fome, organizado pela ONG Ação da Cidadania. De acordo levantamento, pessoas em situação de insegurança alimentar leve, moderada ou grave — ou seja, vivendo algum tipo de restrição no acesso à alimentação — são maioria no território fluminense: esse grupo atingiu 60% da população do Rio, contra 32,2% de quatro anos atrás.

— A gente quis trazer esses dados do Rio de Janeiro para mostrar que não existe aquela coisa que se tinha na cabeça de que fome é em Roraima, fome é no Rio Grande do Norte. Fome é no Rio de Janeiro, a antiga capital do Brasil. Está presente no centro do Sudeste, onde se produz mais riqueza. Não é possível que as pessoas ainda achem que a fome é uma questão distante. Ela está do nosso lado, está na realidade do nosso dia a dia — enfatizou Rodrigo Afonso, diretor executivo da Ação da Cidadania.

Na noite de 26 de maio, Roberta entrou duas vezes na fila da comida doada pelo Projeto RUAS, na Rua da Lapa, para garantir o jantar daquele dia e o almoço do seguinte. A aposentada já sabe a que pontos ir atrás das chamadas carreatas, locais de distribuição de quentinhas, em cada dia da semana. No fim da tarde das quartas-feiras, por exemplo, ela se programa para estar na Praça da Cruz Vermelha. Aos domingos pela manhã, o périplo é até a Catedral Metropolitana do Rio para o café da manhã.

— É um café com leite muito bom. E também tem pão com manteiga. Levo uma quantidade para casa que dá para uns quatro dias — conta Roberta, que lamenta a disparada de preços e a queda do seu poder de compra. — Cada vez parece que a gente vai perdendo, perdendo. Vai para onde? Gosto de trabalhar. Mas, até nas feiras, o aluguel dos espaços é muito alto, e as vendas diminuíram.

Números que traduzem uma triste realidade

Preços altos, desemprego, perda de renda. A crise econômica, que impulsiona a insegurança alimentar no Rio de Janeiro, está comprovada nos números. O valor da cesta básica no estado, por exemplo, saltou de R$ 460,46 no início de 2019 para R$ 768,42 em abril deste ano, um aumento de 66,88%, segundo o Dieese

No primeiro trimestre deste ano, a renda média do cidadão fluminense foi de R$ 1.248, contra R$ 1.387 no mesmo período de 2021. No país, o Rio passou da quarta para a sexta posição.

O economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social, aponta outro dado dramático embutido nos dados econômicos. No estado, o desemprego entre a metade mais pobre da população alcançou 38% no primeiro trimestre, contra 28% em todo o Brasil. É dele um estudo recente sobre as faces da fome em âmbito nacional, que mostra que a parcela dos brasileiros que não teve dinheiro para alimentar a si ou a sua família em algum momento nos últimos 12 meses (36%) representa um recorde na série histórica, iniciada em 2006, e, pela primeira vez, superou a média mundial (35%).

Como ajudar quem está precisando

Ação da Cidadania - A Campanha 15 por 15 tem o objetivo de ajudar os 15% da população que não têm o que comer. O lema é: “Doe 15 centavos, 15 reais, 15 milhões, 15 segundos, minutos ou 15% da porcentagem de vendas”. Para contribuir, acesse https://15por15.org/

Voz das Comunidades - Entre as formas de contribuir com o projeto Prato das Comunidades está a doação de alimentos, que podem ser entregues na sede da ONG: Rua Eng. Manoel Segurado, n° 228 - Bonsucesso.

Fraternidade na Rua - Projeto que oferece serviços sociais e alimentos a pessoas em situação de rua recebe doações em sua sede: Rua do Senado, n° 50/52 - Centro.

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