Empresário e político, morto em setembro, ordenou assassinato de Cairo para não pagar dívida de R$ 20 milhões, conclui polícia de MG

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RIO — A Delegacia de Homicídios de Minas Gerais concluiu o inquérito da morte do empresário Cairo Luiz Borges Mendes, executado com oito tiros numa emboscada em 5 de outubro de 2017, no bairro Vigilato Pereira, em Uberlândia, quando voltava de carro para casa. Os investigadores confirmaram, em coletiva de imprensa nesta quarta-feira (3), que o crime foi planejado por "motivo torpe": uma dívida de R$ 20 milhões que a vítima cobrava do suposto mandante, que seria o empresário e político Orlando Resende, figura conhecida e influente na cidade, que morreu após um infarto, em setembro deste ano, aos 73 anos.

Os policiais revelaram que as investigações avançaram há um ano após a prisão de três pistoleiros locais por parte do Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de Minas Gerais, justamente pela morte de um dos investigados no inquérito — em caso que corre em sigilo. Em delação premiada, eles contaram que foram procurados pelos responsáveis pela logística do crime — um policial civil aposentado, um policial militar da ativa, assassinado dias depois, e um terceiro homem, conhecido por praticar uma série de crimes na região —, que tentaram contratar seus serviços por R$ 50 mil, para que matassem Cairo. Eles consideraram o valor baixo e deram para trás. Àquela altura, no entanto, eles já sabiam das intenções do grupo, que em seguida contrataria homens de Goiás para que tirassem a vida de Cairo a mando do empresário.

— Esse foi o grande erro deles — comentou o delegado Guilherme Catão. — Através desses depoimentos, nós demos a partida, e descobrimos toda essa trama, que envolve o mandante, o empresário, três suspeitos, sendo que um já morreu, e dois executores, que já foram indiciados. Eles criaram toda uma logística, e depois contrataram pistoleiros de Goiás, que executaram a vítima.

De acordo com os investigadores, o escritório de Cairo executava uma dívida que, com juros aplicados, já chegava a R$ 20 milhões, e era cobrada de Orlando, que se recusava a pagar. Os investigadores descobriram que ele, inclusive, já havia dito a Cairo que preferia executá-lo a pagar o valor, o que está registrado num boletim de ocorrência feito à época, por ameaça. É sabido que as cobranças, segundo os investigadores, eram feitas de forma contundente, com avisos de penhora de bens e fazendas, o que pode ter irritado o empresário.

— A DHPP assumiu a investigação no início de 2020 e, a partir daí, foram realizadas várias diligências. Foram viagens em dez cidades de Minas Gerais, São Paulo e Goiás. Foram ouvidas 20 pessoas, sendo 18 testemunhas e 2 suspeitos. O mandante foi identificado e é um empresário local de Uberlândia, com alto poder aquisitivo, que, por motivo torpe, determinou a execução da vítima — disse a delegada Letícia Gamboge.

— Os que estão presos hoje são os três que executaram o policial militar (que fazia parte da logística do crime, contratado pelo empresário). No nosso inquérito, dos quatro principais suspeitos, dois estão mortos, porque, além do PM, o empresário morreu agora, há pouco tempo. E dois, um policial civil aposentado, e o outro homem conhecido aqui por uma série de crimes, foram ambos indiciados — explicou o delegado Catão.

Por conta da Lei de Abuso de Autoridade, a Polícia Civil não citou literalmente o nome de Orlando durante a coletiva, mas, quando questionada pelos jornalistas, não negou a identidade, e confirmou que o mandante identificado tinha 73 anos e havia morrido no dia 10 de setembro, após um infarto.

Suposto mandante do crime, Orlando Resende era engenheiro civil, empresário e produtor rural da região. Ele foi, também, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) em Uberlândia na década de 1980, e foi candidato a deputado federal em 1982. Após sua morte, recebeu homenagem de pesar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas redes sociais. "Agradeço o carinho e a amizade de Orlando nas várias visitas que fiz ao Triângulo Mineiro desde os anos 1980", escreveu Lula em setembro.

Em entrevista dada por Resende em 2019 ao portal Diário de Uberlândia, o empresário e político negou as suspeitas de que ele seria o mandante da morte de Cairo. Ele disse que não devia a Cairo, mas a um outro homem. No entanto, a dívida foi comprada pelo escritório de Cairo (via créditos judiciais). Na época, Orlando afirmou que a dívida, que era de R$ 30 mil, chegou a R$ 17 milhões quando foi cobrada dele na Justiça.

— Eu não devia para o Cairo. Devia para um cidadão de Itumbiara (GO). Nunca falei com ele, nem por telefone. Estou tranquilo e confio na investigação e na Justiça — disse ao portal, ainda em vida. — Quando fui procurar para pagar em 2015, a perícia considerou a cobrança de juros como se banco fosse.

De acordo com a polícia, no entanto, o mandante planejava renegociar a dívida assim que Cairo fosse executado. Informações levantadas pelos investigadores mostraram que houve, inclusive, uma tentativa de pagamento junto a um sócio de Cairo, que foi negada pelo cartório responsável.

— A intenção do mandante era executar a dívida e buscar com um sócio do Cairo a negociação de um valor bem menor. Após matar a vítima, esse sócio foi procurado e ele (o empresário) ofereceu R$ 400 mil para quitar a dívida. O sócio aceitou e a transação quase foi efetivada, mas o cartório achou que era uma coisa fraudulenta, e isso acabou não acontecendo — acrescentou Catão, descrevendo o crime. — Como o mandante era um empresário, ele não tinha como executar o crime. Então, para isso, contratou três pessoas, sendo dois agentes públicos (policiais militar e civil) e um outro conhecido em Uberlândia por ser autor de vários homicídios, roubos de carga e receptações, para que planejassem o crime. Eles tentaram num primeiro momento contratar pistoleiros de Uberllândia, pagando R$ 50 mil, mas eles acharam o valor baixo e negaram. Eles, então, contrataram pistoleiros de Goiás e, no dia 5 de outubro de 2017, esses homens pegaram a vítima saíndo do trabalho, em seu carro. Foram tiros de revolver .38. Depois, eles saíram dali, levaram o carro para um terreno baldio e queimaram o carro.

Além do caso principal, sobre a morte de Cairo, e uma outra investigação, acerca do assassinato do policial militar — um dos três que arquitetaram o crime supostamente a mando do empresário — , há também um outro inquérito que apura a participação do filho de Cairo Luiz na formação de uma suposta organização criminosa que teria como objetivo vingar a morte do pai. Ele chegou a ser preso após investigação do Gaeco, mas, em 2019, deixou a cadeia e responde em liberdade; uma pessoa teria morrido em um dos ataques da quadrilha.

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