Empresário rompe contrato de R$ 1 milhão por ser chamado de 'negão', em São Paulo

"Aí não, Negão. Você quer me f*." Foi assim que, numa reunião de negócios, Matheus Mason Adorno, representante de uma prestadora de serviços se dirigiu ao diretor de tecnologia da Proz Educação, Juliano Pereira dos Santos. Adorno estava ali para implementar um sistema de software contratado pela empresa de Santos e, devido a problemas no serviço, uma videochamada foi feita para discutir valores em outubro do ano passado. Após o episódio — considerado racista por Santos — o contrato entre as empresas, de quase R$ 1 milhão, foi encerrado.

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Santos, que é bacharel em Administração de Empresas pela USP, e trabalha como diretor de tecnologia na Proz Educação, empresa da qual também é sócio, explica que falhas apareceram em um projeto e, por isso, precisou discutir valores com a Optat Consulting, implementadora de software. Na visão técnica de Santos, seus fornecedores deveriam colocar sua parcela de responsabilidade e também arcar com custos.

Em reunião virtual realizada em 22 de outubro do ano passado, Santos estava diante de Adorno, representante da Optat, foi quando aconteceu o episódio de "injúria racial":

— Em dado momento, ele me chamou de mentiroso e eu já achei fora da etiqueta, ainda mais vindo de um fornecedor. Uma pedância, uma arrogância na hora de falar e a tensão foi escalando. Eu até ofereci de pagar um valor, mas ele [Adorno] disse que eu estava sendo injusto — narra Santos.

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O diretor, que relata que não se chegou a um acordo sobre os valores, descobriu nessa reunião que a Optat estava "mentindo", já que se apresentou como especialista no assunto e, na prática, não tinha capacidade técnica.

— Como eu tinha sido útil para eles, uma empresa nova, fazendo referência para o mercado, eu disse, então, que eu deveria informar que eles, na verdade, não tinham capacidade técnica. Nessa hora, o cidadão foi extremamente agressivo e grosseiro na hora de falar. 'Aí não, negão. Você quer me f*', numa tentativa de me descredenciar — relata Santos, que, diz que não aceitou a situação.

A Proz Educação saiu em defesa de Santos e se posicionou a respeito do caso:

— A companhia decidiu rescindir o contrato porque não tolera esse tipo de comportamento, ainda mais em contexto corporativo. Um absurdo. Isso ainda me causou um prejuízo razoável, eu tô há (quase) um ano resolvendo os efeitos que a situação me trouxe — explica o diretor.

Desdobramentos

A Oracle é uma empresa de softwares. Um contrato de R$ 500 mil foi firmado entre ela e a Proz Educação só para uso do sistema da multinacional. Um outro contrato, de aproximadamente R$ 1 milhão foi feito com a Optat Consulting, empresa essa responsável por implementar o software, para prestar serviços por três anos à empresa de Santos. Este último foi encerrado.

O diretor de tecnologia explica que, na prática, o contrato ainda seria estendido com o tempo.

— É uma prática do mercado. No papel, as soluções viriam ao longo de três anos. Mas, na prática, aumentaríamos o valor ao longo do tempo, para a empresa permanecer prestando suporte.

Juliano dos Santos colocou Matheus Mason Adorno e a Oracle Brasil na Justiça, e pede indenização por danos morais.

Procurada pelo GLOBO, a Oracle afirmou que tem compromisso "inegociável" com a diversidade e a inclusão e combate todas as formas de discriminação.

"A Oracle prontamente ofereceu apoio à pessoa diretamente atingida pelos fatos descritos e tem lhe oferecido o suporte necessário. Ademais, a Oracle se colocou à disposição para colaborar com as autoridades competentes em quaisquer investigações e, em março de 2022, informou à empresa envolvida nos fatos que descontinuaria a relação contratual", diz a nota.

Já a Optat Consulting não nos retornou até o fechamento desta reportagem.

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