Empresários cobram reformas e vacinas durante encontro com Bolsonaro em São Paulo

Henrique Gomes Batista e João Sorima
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SÃO PAULO — O presidente Jair Bolsonaro se reuniu ontem à noite com um grupo de pelo menos 20 empresários na casa de Washington Cinel, dono da empresa Gocil, do setor de segurança, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Segundo alguns dos participantes, os empresários demonstraram preocupação com a vacinação da população e a crise econômica atravessada pelo país, e voltaram a cobrar por reformas.

De acordo com presents à reunião, o presidente disse acreditar que o Congresso vai aprovar as reformas enviadas pelo governo. E repetiu algumas vezes que a pandemia não pode levar o Brasil à miséria total. Boa parte dos empresários declarou ser contra o lockdown, quando autoridades proíbem a circulação de pessoas, embora defendam medidas de distanciamento.

Bolsonaro se posicionou contra o lockdown e foi apoiado pelos empresários. Bolsonaro defendeu durante sua fala a abertura das igrejas.

Ao GLOBO, um dos empresários disse que "quase 90%" das pessoas, segundo seus cálculos, estava de máscara durante o jantar.

Na saída do encontro, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, salientou que tem dúvidas sobre a duração das medidas de isolamento propostas por governadores e prefeitos em todo o país. Embora a restrição de circulação seja indicada por cientistas como forma de frear a disseminação do vírus, ela vem sendo criticada diariamente por Bolsonaro.

— Os empresários demonstraram preocupação muito grande com o desemprego. Essas medidas de restrição temos que tomar cuidado — disse Faria.

Além de Bolsonaro e Faria, também estiveram no jantar os ministros da Economia, Paulo Guedes, da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e da Saúde, Marcelo Queiroga.

Empresários ouvidos pelo GLOBO disseram que os integrantes do governo deixaram claro que estão fazendo o possível para dar agilidade à campanha de vacinação. Queiroga falou, durante o jantar, sobre o imunizante feito pelo Instituto Butantan, mas também garantiu que espera entregas de vacinas da Fiocruz, da Covax Facility, a coalizão da OMS, e da Sputnik V.

O discurso adotado pelo governo é diferente do que vinha sendo propagado por Bolsonaro até o início do ano, quando chegou a chamar a CoronaVac de “vacina chinesa do (João) Doria” e a ironizar os possíveis efeitos colaterais dos imunizantes já em uso no mundo.

— O empresariado está trabalhando junto conosco para modernizarmos o sistema de saúde — afirmou Queiroga ao deixar a casa de Cinel.

Assim como os outros ministros que falaram ao final do encontro, Queiroga usava máscara.

Um dos participantes do jantar contou que a vacinação contra a Covid-19 e como o setor privado poderia ajudar foi o principal asssunto. Foi dito ao presidente que a principal preocupação dos empresários é acelerar a vacinação para que a economia reaja, mas que ficou uma impressão ruim para a opinião pública de que o setor privado queria comprar vacinas, imunizar seus funcionários e furar a fila dos grupos prioritários no país.

— Não se trata de furar a fila. As empresas querem adicionar novas doses de vacinas, com a contrapartida de doar uma parte delas ao SUS e vacinar quem esta na linha de frente da economia. A questão é que nesse momento a oferta de vacinas é escassa — disse o participante durante o jantar.

O presidente do Conselho de Adminustração do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, disse durante o jantar que os bancos ajudaram como puderam nos piores momentos da crise com a liberação de crédito tanto para pequenas empresas como para pessoas físicas.

Outro participante do jantar contou que o tom do encontro foi bastante positivo e não houve criticas ao presidente, embora Bolsonaro tenha dito durante sua fala que os empresários "poderiam lhe dar porrada à vontade".

Entre outros empresários que pediram a palavra durante o encontro, estavam Claudio Lottenberg, do Hospital Albert Einstein; André Esteves, do BTG; e Alberto Saraiva, do Habib’s.

A organização do jantar planejou uma forma de acomodar os mais de 20 convidados e a comitiva do presidente em duas grandes mesas. Celulares não foram permitidos durante todo o encontro, que durou cerca de 2h30m. O cerimonial pediu que os aparelhos fossem deixados na entrada da casa, como antecipou o colunista do GLOBO Lauro Jardim.

No último dia 23, Cinel já havia organizado um jantar em sua casa entre empresários e os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Na ocasião, os políticos foram cobrados da reedição da MP 936, que autoriza a redução de jornada e salário e a suspensão de contratos. Na ocasião, Flavio Rocha, dono da Riachuelo, disse que, sem o programa governamental, poderia haver uma “onda de demissões devastadora”.