Empresários do ramo do vinho usam linguagem acessível para atrair novos clientes

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***ARQUIVO***ESPÍRITO SANTO DO PINHAL, SP, 11.12.2019 - Estoque de garrafas na vinícola Guaspari, que passou a produzir uvas em 2006 na fazenda na cidade de Espírito Santo do Pinhal, no estado de São Paulo. A produção de vinho de alta qualidade no interior de São Paulo cresceu. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress) ORG XMIT: AGEN1912162308144054
***ARQUIVO***ESPÍRITO SANTO DO PINHAL, SP, 11.12.2019 - Estoque de garrafas na vinícola Guaspari, que passou a produzir uvas em 2006 na fazenda na cidade de Espírito Santo do Pinhal, no estado de São Paulo. A produção de vinho de alta qualidade no interior de São Paulo cresceu. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress) ORG XMIT: AGEN1912162308144054

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais gente passou a tomar vinho durante a pandemia e, com isso, novas oportunidades de negócio começaram a surgir. No país, o consumo da bebida chegou a 2,78 litros per capita, um aumento que passa dos 30% em comparação a 2019.

E virou hábito: 46% dos 83 milhões de consumidores tomam vinho pelo menos uma vez por semana. É o que mostra um estudo divulgado pela plataforma CupomValido.com.br que reuniu dados da Abras, Ideal e Statista, sobre o consumo de vinho no Brasil e no mundo. ​

Para capacitar quem busca empreender no setor, o administrador de empresas Diego Bertolini, 37, decidiu criar em abril de 2020 a Educavinhos, uma plataforma de cursos online, com um investimento inicial de R$ 3.500.

Ao longo de 12 meses, os alunos têm aulas 100% focadas no mercado de vinhos. Já foram formadas 11 turmas, totalizando 1.300 alunos. Além do curso pago, a plataforma distribui conteúdo gratuito por meio de um blog, ebooks e lives no Instagram.

“Cerca de 60% são pessoas que gostam de beber e querem empreender, enquanto quase todo o restante já tem negócios no setor e quer se aprimorar. Mas muita gente chega sem qualquer conhecimento sobre a bebida e começa do zero”, diz Diego, que é consultor com mestrado em wine business e ex-diretor do Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho).

É o caso do casal Amanda Oliveira, 28, e Luciano Coimbra, 30, moradores de Conselheiro Lafaiete (MG). Ela é professora de biologia e perdeu o emprego na pandemia. Ele comandava a Adega Lafaiete, revenda de cachaças para bares e restaurantes, que perdeu clientes em função da quarentena.

Mesmo sem entender nada de vinhos, os dois viram uma oportunidade de mudar o foco do negócio e se matricularam no curso em agosto de 2020. “Não havia lojas na cidade e os supermercados vendem sempre os mesmos rótulos. Por isso decidimos ampliar o portfólio”, explica Amanda.

Pouco mais de um ano depois, os 150 rótulos de vinhos já respondem por 80% do faturamento da Adega Lafaiete, que vende cerca de 750 garrafas por mês, com preços entre R$ 20 e R$ 150.

O estoque ocupa um espaço recém-construído na edícula da casa de Luciano. Os clientes chegam basicamente pelo Instagram e pelo WhatsApp e Amanda fica responsável pelo atendimento.

“Estudei bastante sobre vinhos e faço esse trabalho de curadoria, pois muitos clientes não têm ideia do que comprar. Nós dois fazemos as entregas pessoalmente, o que gera um vínculo interessante com a clientela”, ela conta.

O atendimento personalizado é também o trunfo de Márcio Renan Barbosa, 32, que fundou a Renavinhos, em Montes Claros (MG), em maio de 2021. Ex-assessor de investimentos e apreciador de vinhos, ele estava trabalhando como motorista de aplicativo quando veio a pandemia.

Como faltam lojas especializadas na cidade, Márcio pensou inicialmente em abrir um ponto físico, mas mudou de ideia durante o curso da Educavinhos e focou as vendas online.

A divulgação é feita pelo Instagram, mas foram as entregas pelo iFood que fizeram o negócio decolar – hoje, o aplicativo responde por 90% dos pedidos. Mas Márcio sentia que faltava conexão com os clientes e resolveu inovar. “Em vez de aposentar o carro de aplicativo, continuei trabalhando como motorista e passei a usá-lo para fazer propaganda”, conta.

No automóvel adesivado, ele carrega passageiros e vinhos no porta-malas. Aproveita as corridas para falar sobre a bebida e conquistar novos clientes. Se entra um pedido pelo WhatsApp, Márcio corre para fazer a entrega pessoalmente, o que o permite conhecer o perfil da freguesia.

“Atendo pessoas que pedem vinhos mais caros, mas também muita gente que prefere rótulos suaves, uma parcela do público que quase sempre é deixado de lado. O mundo dos vinhos é esnobe, cria barreiras que afastam novos clientes, por isso foco nesse público.”

Já o casal Elilza da Nóbrega, 42, e Edjane da Silva, 32, que vive em Natal (RN), tem na mira o público que já tem intimidade com o vinho. Criado em agosto de 2020, o ecommerce VinhaVino nasceu como uma loja online convencional, focada em vendas locais. No curso Educavinhos, no entanto, nasceu a ideia de lançar rótulos próprios.

Elas lançaram a primeira linha, chamada Baobá, em dezembro de 2020​, ao mesmo tempo em que o site passou a aceitar pedidos do país todo. O estoque de 2.000 garrafas se esgotou em 40 dias. De lá para cá, vários outros rótulos foram lançados, inclusive o vinho branco em lata Kauai.

Produzidos em vinícolas parceiras no outro extremo do país, no Rio Grande do Sul, os vinhos são desenvolvidos com exclusividade por uma enóloga contratada pela dupla.

“Os rótulos próprios já respondem por cerca de 70% das vendas do site e nos permitem uma margem de 3%, contra 2% nos outros vinhos. É bem mais vantajoso. Até o fim do ano, espero vender mais 5.000 garrafas dos novos lotes”, diz Elilza.

De acordo com Diego Bertolini, o sucesso desses empreendedores reflete uma característica do mercado brasileiro –a distribuição ainda é restrita, limitada a lojas físicas de alto padrão, concentradas nos grandes centros, e ecommerces que focam mais o volume do que o atendimento. Também faltam distribuidores que façam um bom meio de campo com bares e restaurantes, na sua opinião, para que a bebida deixe a esfera dos estabelecimentos de elite e se popularize.

“Há muitas oportunidades para aumentar a cadeia da distribuição de vinhos, tanto para consumidores finais quanto para restaurantes, por meio de negócios regionais criativos, em cidades pequenas e capitais que ainda são mal atendidas”, afirma o consultor.

“Muitas vezes, quem não tem tanto conhecimento sobre vinhos consegue traduzir melhor o negócio para esse novo público, por falar a mesma língua.”

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