Empresa brasileira consegue aprovação para usar mosquitos geneticamente modificados contra dengue, zika e chicungunha

Elisa Martins
Oxitec

SÃO PAULO - Enquanto cientistas lidam com a pandemia do novo coronavírus, o braço brasileiro de uma empresa britânica tenta avançar no combate a um antigo conhecido local que infecta centenas de pessoas por ano sem uma vacina disponível. A aposta são mosquitos geneticamente modificados para reduzir a população de Aedes aegypti, principal vetor urbano de dengue, zika e chicungunha. A Oxitec Brasil acaba de conseguir aprovação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, para lançar uma nova geração de mosquitos transgênicos.

Não é a primeira tentativa da empresa por aqui, já que esta é a segunda linhagem de mosquito que a Oxitec aprova no Brasil - a primeira iniciativa não conseguiu se sustentar financeiramente. Em seis anos no país, a empresa só conseguiu fechar contrato com dois municípios, Piracicaba e Juiz de Fora. As liberações anteriores na Bahia eram testes de campo, portanto sem envolver verbas das prefeituras.

Agora, testes realizados durante 13 semanas em Indaiatuba, no interior de São Paulo, mostraram que nos bairros em que os mosquitos geneticamente modificados - chamados de "Aedes do bem" - foram liberados houve uma queda de 95% na infestação da população local de Aedes aegypti.

A tecnologia usa minicápsulas que contêm ovos do inseto transgênico. Pesquisadores da Oxitec incorporaram ao DNA do mosquito um mecanismo genético de seleção, de maneira que apenas os machos sobrevivam. Na prática, quer dizer que, quando os ovos eclodem, em contato com a água, as larvas dos machos sobrevivem, e as das fêmeas morrem - uma vantagem, considerando que são as fêmeas que picam e transmitem doenças.

Nova tecnologia tem mais possibilidade de sucesso

Além disso, explicam os responsáveis pelo projeto, a utilização dos ovos é um diferencial em relação à tecnologia anterior testada pela Oxitec Brasil, que liberava mosquitos adultos no ambiente.

- O uso de insetos adultos é um processo demorado, complexo e custoso em termos de biofábrica. E são extremamente perecíveis, difíceis de transportar - explica Natália Ferreira, diretora da Oxitec Brasil. - A boa notícia é que com as minicápsulas de ovos conseguimos que o mosquito se desenvolva no tempo e no clima certos. E o ovo é mais estável do que o mosquito adulto, pode ser estocado por até seis meses e transportado para qualquer lugar. Isso também barateou a tecnologia.

Outro diferencial, afirma, importante em tempos de distanciamento social, é que não há necessidade de agentes de saúde ou outros especialistas para a colocação dos ovos no local de teste. Os próprios moradores de casas ou condomínios podem posicionar as minicápsulas. Ou, no caso de prefeituras ou serviços públicos de saúde, as minicápsulas podem ser colocadas em postes, árvores, vias públicas etc., sem necessidade de instalação e contato dentro de casas - as cápsulas podem cobrir uma área de oito mil metros, diz Natália.

- Entre oito e dez dias depois da colocação das minicápsulas, em água, veem-se os mosquitos adultos machos voando por ali. Eles são especializados em localizar as fêmeas selvagens, através dos feromônios naturais da espécie. Eles acasalam com essa fêmea, que por sua vez irá colocar os ovos em um criadouro. Desses ovos, as fêmeas vão morrer, e os machos vão sobreviver. Os que sobrevivem têm a mesma característica do pai, ou seja, eles têm o gene que seleciona que, dos ovos, apenas os machos sobrevivam. A ideia é impedir a espécie selvagem de perpetuar - explica a geneticista e diretora da Oxitec Brasil.

O processo se repete por cerca de dez gerações. A cada vez que o filhote transgênico acasala, vai se diluindo o material genético modificado. Por isso, as cápsulas precisam ser colocadas novamente de tempos em tempos, para que a população natural de mosquitos não se recomponha. Por outro lado, é um cuidado em termos de biossegurança, explica a empresa, uma vez que o mosquito transgênico não se multiplicaria de maneira desordenada no ambiente.

Polêmica no passado

A aprovação recente do CTNBio dá sinal verde em biossegurança e eficácia da tecnologia, mas ainda não é o passo definitivo para sua aplicação. Segue pendente na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, um parecer sobre a liberação da tecnologia. A Oxitec diz que já avisou sobre o parecer do CTNBio e tenta marcar uma reunião virtual com a agência brasileira.

- Queremos comercializar, mas estamos esperando os órgãos regulatórios brasileiros responderem. Nossa ideia é começar já na próxima temporada de dengue, a partir de outubro (com as chuvas e a chegada do calor). Seria uma pena perdermos mais um ano de epidemia - diz Natália.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Anvisa respondeu a respeito da solicitação da Oxitec sobre a nova geração de mosquitos transgênicos: "Oficialmente não há solicitação de registro de nova geração de mosquito transgênico na Anvisa, uma vez que a empresa fabricante comunicou que descontinuaria a fabricação do mosquito da primeira geração, o qual também não chegou a receber registro nesta agência."

Subnotificação da dengue

A Oxitec tem projetos engatilhados com a prefeitura de Piracicaba, também no interior de São Paulo, e está em conversas com o Distrito Federal, onde casos de coinfecção de dengue e coronavírus têm chamado a atenção das autoridades locais.

- Só o fato de as duas doenças levarem as pessoas aos hospitais já começa uma competição por leito. Essa é uma pauta que pode ajudar a controlar a situação de saúde no país - defende Natália, que alerta: - Os números de dengue vinham subindo, e de repente caíram vertiginosamente. Em boletim recente assinado pelo próprio Ministério da Saúde os técnicos afirmam que se trata de uma subnotificação, uma vez que agentes foram deslocados para combater o coronavírus e deixaram de registrar os casos. Perdemos o controle e não sabemos o que está acontecendo.

Essa é também uma chance de a Oxitec Brasil virar a página em relação à geração anterior dos "Aedes do bem". Uma publicação do ano passado na revista "Scientific Reports", periódico científico do grupo da prestigiada "Nature", colocou a empresa em xeque ao citar um estudo que afirmava ter encontrado sinais de hibridização dos "Aedes do bem" com a população selvagem de mosquitos em um teste de campo da empresa em Jacobina, na Bahia.

A publicação citava a produção de um "supermosquito" geneticamente modificado resistente a inseticidas e capaz de transmitir mais facilmente as doenças naturalmente associadas ao Aedes aegypti. Pesquisadores brasileiros participaram do artigo, encabeçado por Jeffrey R. Powell, geneticista da Universidade de Yale. A polêmica foi seguida da retirada de alguns autores, que alegaram alterações na escrita do texto final por Powell, com alegações nunca comprovadas sobre os "supermosquitos". A revista não retirou o artigo do ar, mas este ano adicionou uma "nota de controvérsia".

Por muito tempo, porém, a expressão dos "supermosquitos" assombrou os projetos da Oxitec, que espera, agora, dar novas asas ao projeto com a aposta nas minicápsulas.

- É verdade que havia uma sobrevivência nessa primeira geração, e isso foi avaliado pelo CTNBio na época. Mas o conselho não considerou um risco, uma vez que a sobrevivência era de poucas semanas. Não era um "supermosquito" que permanecia no ambiente. O dossiê que enviamos ao CTNBio, inclusive, informava que havia uma sobrevivência de cerca de 5% naquela geração. Nesta, agora, é de zero por cento a sobrevivência de larvas fêmeas - destaca Natália.

Estudo feito em Jacobina, acrescenta, mostra que não foram encontrados mais mosquitos híbridos. Outras alegações, como a de que os "supermosquitos" seriam mais resistentes a inseticidas, diz a diretora da Oxitec Brasil, também caíram por terra com testes locais:

- A linhagem usada pela Oxitec para modificar geneticamente (o Aedes) é uma linhagem de laboratório que nunca viu inseticida na vida.