Empresa culpa a Covid-19 por atraso em obras de hospitais de campanha do Rio

Rafael Nascimento de Souza
Comissão de inspeção no hospital de campanha do Maracanã

O Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas), organização social (OS) que fechou um contrato emergencial no valor de R$ 835 milhões para erguer e administrar sete hospitais de campanha do estado, alegou na última sexta-feira que as obras atrasaram porque 30% de seus funcionários contraíram a Covid-19. O governador Wilson Witzel havia anunciado que todas as unidades seriam inauguradas no fim do mês passado, mas apenas uma vem funcionando, no Maracanã. Com capacidade para 200 pacientes, ela só recebeu 54.

A Secretaria estadual de Saúde notificou o Iabas na quinta-feira, após identificar supostos problemas durante uma vistoria no hospital de campanha do Maracanã. Mas o órgão não revelou quais as falhas. Superintendente da OS, o médico Helcio Watanabe disse que sua equipe está resolvendo “eventuais adversidades que vão surgindo”.

— Esse é um hospital de campanha de alta complexidade, feito em 30 dias. É com trocar pneu num carro em movimento. A gente vai ter intercorrências, como o fato de 30% da equipe encarregada da construção das unidades estar sem trabalhar por causa da Covid-19. A gente ainda tem que contratar 7 mil pessoas para diversas áreas e existe uma burocracia entre bancos na hora de abrir contas. São vários fatores que enfrentamos. Mesmo com todos os problemas, nosso objetivo é salvar vidas — disse Watanabe.

Segundo o Iabas, cerca de 2 mil funcionários estão trabalhando na montagem dos hospitais de campanha. O governo do estado informou esta semana que as unidades de São Gonçalo, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Nova Friburgo e Campos dos Goytacazes estarão prontas até amanhã. Já a de Casimiro de Abreu deve começar a funcionar no próximo dia 26.

A pressão para a abertura dos hospitais vem aumentando porque, até ontem, havia 900 pessoas na fila da Central de Regulação de Vagas à espera de leitos de UTI e enfermarias. O estado ameaça suspender repasses ao Iabas em caso de novos atrasos.

— É de praxe (o governo) fazer avaliações de fluxo, e a gente precisa providenciar ajustes em todas as situações. (O hospital) não está mal estruturado. Se você perguntar quem é perfeito nessa vida, vou responder que, na minha opinião, só Deus — argumentou Watanabe.

Mais 191 mortes confirmadas

O estado registrou na sexta-feira, 2º dia com mais confirmações, 191 óbitos a mais por Covid-19. Há ainda outras 953 mortes em investigação. Desde o início da pandemia, o estado já registrou 19.987 pessoas infectadas. A capital concentra mais da metade do número de pessoas infectadas e de óbitos. Dos 146 bairros que já registraram mortes pelo novo coronavírus, Copacabana e Campo Grande continuam liderando o triste ranking.

Ontem, havia 635 pessoas hospitalizadas com Covid-19, sendo 166 em UTIs. No município, segundo a prefeitura, havia 611 pacientes à espera de um leito, sendo 300 pessoas de UTI.

Nova notificação

Na sexta-feira pela manhã, a Secretaria estadual de Saúde voltou a notificar o Iabas por conta de um suposto descarte irregular de lixo hospitalar na altura do portão 3 do Estádio do Maracanã, onde funciona o hospital de campanha. Segundo o “Bom dia Rio”, da Rede Globo, funcionários afirmaram que se tratava de material infectante. No entanto, a OS sustentou que eram sacos com roupas de profissionais de saúde que seriam lavadas e esterilizadas.

O superintendente da OS também comentou imagens, divulgadas em redes sociais, de enfermeiros do hospital de campanha dormindo em colchões espalhados pelo chão:

— Quando o pessoal saiu do plantão, e tem muita gente que sai ao mesmo tempo, em vez de ir para os dormitórios da direita, foram para os da esquerda, que não estão prontos. O pessoal cansado, confuso, pegou os colchões e dormiu ali mesmo, mas já tínhamos aposentos com camas e ar-condicionado. Foi um erro interno.